A cesta, como no jogo tradicional, está lá, a 3,05m do chão – mas a altura, alcançável nas enterradas e tocos que arrebatam a torcida, torna-se estratosfera no basquete em cadeira de rodas. E daí? Distância está longe de ser problema para aquela turma de olhar determinado, braços musculosos, que se move à toda em seus equipamentos “envenenados”, conjugando destreza para empurrá-los com rapidez e habilidade no manejo da bola rumo ao ataque. Bem-vindo ao basquete em cadeira de rodas. E prepare-se: seu queixo não vai parar no lugar.

Estados Unidos e Irã fizeram um duelo cheio de história, na tarde de sábado (10) na capital paralímpica. Inimigos eternos na geopolítica, pisaram a quadra da Arena Carioca 1, no Parque Olímpico da Barra da Tijuca, imitando o basquete convencional – americanos favoritos à medalha de ouro, iranianos em trajetória emergente, mas ainda longe da excelência esportiva.

Infográfico: quais são as regras do basquete paralímpico?

André Teixeira

Porém todo contexto se dissolve quando a bola listrada dos Jogos Paralímpicos Rio 2016 sobe. A disputa provoca choques permanentes entre as cadeiras. Essa é, na verdade, a principal estratégia de marcação, para impedir a entrada do adversário no garrafão. Faz barulho, o que ajuda a eliminar qualquer compaixão na plateia lotada.

Não há espaço para “coitadismo” nos Jogos Paralímpicos, como provou o empenho de um dos armadores num lance no último quarto. A bola fugia pela linha de fundo e ele, ao se esticar para alcançá-la, chocou-se com as placas de publicidade. Terminou de cara para o chão, as rodas da cadeira para o alto, mas sob os aplausos da torcida, impressionada com a raça. Segue o jogo.

Explora-se sem pudor nem constrangimento as fragilidades dos oponentes. Os times mostraram ter se estudado, e atuam sem compaixão dos adversários. Em faltas mais duras, os olhares ficaram a um passo da briga. Os juízes precisaram até parar entre os atletas, para acalmar os ânimos. Ou como diria um locutor famoso, “são os Jogos Paralímpicos, amigo! Haaaaaaja coração!”.

Alguns minutos depois do início, a emoção transforma o espectador sem qualquer limitação motora, antes reverente à superação dos atletas, num torcedor como outro qualquer. “Como pode perder essa bandeja?”, “Tem de parar com os arremessos de três? Não está dando certo!” foram frases ouvidas aqui e ali, evidências de que a disputa esportiva supera tudo. E, ao igualar as expectativas, cumpre sua missão de igualdade.

Como bons brasileiros, os torcedores apoiaram o time mais fraco – o Irã, obviamente. Aqui, com uma nobre diferença: o clima paralímpico não permite selvagerias típicas da turba futebolística. Ninguém torce contra, e a prova esteve nos aplausos à coleção de ótimas jogadas dos americanos, craques insuperáveis no basquete sentado, como no jogado em pé.

As regras, aliás, mudam pouco entre as duas modalidades. A principal trata das faltas para os jogadores que se levantam das cadeiras, ou puxam a do adversário. O equipamento é considerado parte do jogador, e conta para as punições. Na defesa, a estratégia principal está no bloqueio, para forçar o arremesso longe da cesta. As faltas, bem no início da partida, causavam algum frisson, em especial, quando as cadeiras viravam. Bobagem enxergar portadores de deficiência como gente frágil. Eles se viram, como super-humanos que são.

A torcida até tentou o “Vamos virar, Irã” aqui, o “Eu acredito” ali, mas o abismo técnico prevaleceu. Ao fim do passeio americano na quadra, o placar apontava contundente 93 a 44 para os reis do basquete. A plateia, formada, em sua maioria, por estreantes no esporte para portadores de deficiência, aplaudiu, agradecida. O verdadeiro derrotado na tarde da Arena Carioca foi o preconceito. Show de bola.