Regra básica, conceitual, de todo jogo: será contra alguém, o adversário, que, em ocasiões extremas, terminará não apenas derrotado, mas subjugado. Quanto mais alto o padrão dos oponentes, mais intensa a batalha que precede a vitória, solitária recompensa possível. Assim toca a banda no esporte.

Em quase todos, na verdade. Uma iluminada exceção dispensa a busca obcecada pelo resultado, no jogo que é com alguém. Os participantes se ajudam, construindo parceria onde a vitória está em simplesmente continuar, tanto quanto possível. Tinha de ser coisa de carioca – com vocês, o frescobol.

Frescobol

André Teixeira

O frescobol já foi classificado na literatura carioca como única modalidade com espírito esportivo, sem disputa formal, vencidos nem vencedores. Dá para entender, pela felicidade dos craques Nando Dias, Diogo Mourão e Leo Tavares, durante a trinca – quando um jogador defende as bolas de outros dois, posicionados lado a lado – em Ipanema, à altura da Rua Vinicius de Moraes, emoldurada pelo sol laranja do início da manhã impecável de inverno.

Os três usam raquetes de madeira com o cabo revestido pelo grip (material antiderrapante para proteger a mão e dar mais firmeza), personalizadas por imagens como o escudo do Botafogo na de Mourão. As bolas – os “profissionais” utilizam várias, para evitar interrupções – são de borracha, importadas do raquetebol, e permanecem no vaivém veloz e vigoroso, típico dos peritos no negócio.

Frescobol

Leonardo Tavares (à esquerda), Luiz Carlos da Silva e Fernando Dias: craques da Praia de Ipanema

André Teixeira

A partida só acontece ali por ser num dia comum de semana. O endereço oficial do frescobol na Zona Sul carioca fica mais adiante, na Praia do Diabo, desde 2009, o verão do Choque de Ordem, quando a arrumação na orla proibiu o esporte à beira-mar até as 16h. Melhor – hoje, o canto paradisíaco além da Pedra do Arpoador transformou-se no point do frescobol, uma reunião de jogadores dos mais variados níveis.

A destreza de um deles, Nando, fotógrafo de 45 anos, pagou viagem de exibição aos Estados Unidos e, agora, transformou-se em fonte de renda: à razão de R$ 50 por hora, ele dá aulas aos iniciantes que desembarcam na areia dos bambas. ”Jogo todo dia”, garante, descrevendo um hábito com status de religião. Seu treinamento inclui jornadas em frente a um paredão, para aprimorar os reflexos. “Cada vez que acerto no ponto exato, dou um passo à frente, até não conseguir mais rebater”, descreve.

No Diabo, brilham decanos como Janjão, inacreditáveis 85 anos (parecendo bem menos) de raquete na mão, e caçulas como Leonardo Tavares, o Leozinho, 36 anos, craque no freestyle, o jeito mais despojado de jogar, sem preocupação com fundamentos como o protocolo de um atacar e outro defender, utilizado pela maioria. Para ele, o frescobol é o motivo para ir à praia todo dia – simplesmente a maior diversão que existe. “Para mim, só o prazer importa. Gosto de jogar de acordo com a minha vontade”, avisa ele que aceita no máximo cachê para ser “sparring” (ajuda no treinamento de outros jogadores).

Frescobol

André Teixeira

Sim, porque o esporte da parceria hoje tem um circuito nacional e torneios por outros países, mas sem abrir mão da sua essência. As duplas e trincas jogam como sempre, sustentando a troca de bolas em movimentos avaliados por um júri de três integrantes, que dão notas, como na ginástica ou nos saltos ornamentais.

Nos eventos e no dia a dia da orla carioca, reluz uma lenda reverenciada por todos: Luiz Carlos da Silva, o Luiz Negão, 67 anos, 52 de frescobol. Locais e visitantes chegam ao “escritório” dele, na Praia de Copacabana, altura da Rua Bolívar, atrás de... raquetes. O veterano assina uma grife artesanal que fabrica 25 por semana e tem clientes até no exterior. O modelo top chega a custar R$ 350, recompensa para uma habilidade rara. “Comecei garoto, consertando raquetes, até que um dia fiz uma. Um jogador testou, gostou e começou a propaganda”, recorda ele, bombeiro-eletricista desempregado, que acaba de fechar parceria com uma empresa para aumentar a produção – e, afinal, viver do esporte tratado como profissão de fé.

Negão merece. Principal embaixador do frescobol no Rio, ele recita entusiasmado a história da criação – uma saga que conjuga criatividade e determinação, no melhor jeito carioca. Em meados da década de 1940, um paraense desceu do seu apartamento na esquina de Avenida Atlântica com Rua Duvivier determinado a jogar tênis na praia, entre os postos 4 e 5. Não prestou – a bolinhas ficavam pesadas, com os pelos cheios de areia. A decisão de raspá-las levou embora junto a direção, que se perdia com a raquete encordoada das quadras. Um amigo arquiteto, também da confraria, criou os equipamentos de madeira, e o jogo vingou para sempre. (O nome frescobol, inspirado no frescor da brisa marinha, surgiu anos mais tarde).

Frescobol

André Teixeira

Hoje, Luiz Negão serve também de guardião das tradições do esporte, ao corrigir movimentos de ataque e defesa nos discípulos – além de bater um bolão nas partidas. “Meu recorde é uma partida de 6 minutos, em que a bola caiu apenas três vezes”, orgulha-se, totalmente no espírito do jogo-parceiro, do desfrute divertido na beira do mar.

Vitória mais saborosa não pode haver.

Reportagem produzida pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico