Na passagem do Revezamento da Tocha Olímpica Rio 2016 pelos estados do Amazonas e do Mato Grosso, a Chama visitou comunidades indígenas e foi conduzida, em algumas cidades, por representantes das culturas locais. O arqueiro Gustavo dos Santos, em Manaus, e a atleta de luta olímpica Larissa Tywaki, em Cuiabá, foram convidados pela Coca-Cola Brasil para esse momento especial.

Santos, da etnia Karapanã, é atleta na modalidade tiro com arco há pouco mais de dois anos. Conheceu o esporte na aldeia ainda, por meio do projeto Floresta Flecha, da Fundação Amazonas Sustentável. “Eles visitam as aldeias em busca de jovens para treiná-los e colocá-los no cenário esportivo”, conta.

Com o nome indígena Yw Ytu, que significa vento, Santos nasceu na aldeia Kuanã, a 80 quilômetros da capital amazonense. O atleta explica que brincar com o arco faz parte da cultura de sua região. “Temos familiaridade com o arco, porque está em nosso cotidiano, mas a modalidade esportiva é diferente. Quando comecei a praticar nem sabia que isso era um esporte olímpico”, lembra o esportista que, hoje, aos 19 anos, vive em Manaus e tem como meta principal conquistar uma vaga para representar o Brasil nos Jogos Olímpicos Tóquio 2020.

“Conduzir a Chama Olímpica é representar minha aldeia e nossa tradição. É um orgulho não só para mim mas para todos os índios do Brasil e uma forma da cultura indígena ganhar destaque”, diz o jovem arqueiro.

Larissa Tywaki, da etnia Bakairi, também conduziu a Tocha. Com apenas 14 anos, Larissa foi descoberta há dois anos por sua atual treinadora, Andressa Ueharu. “Eu ia montar um time de futebol feminino para os Jogos Escolares e fui até a aldeia de Larissa recrutar jogadoras. Percebi que ela tinha outras habilidades, um perfil para luta olímpica. Então convidei-a para um teste. Fiquei surpresa com o resultado. Ela ganhou de meninos que já praticavam luta!”, recorda a professora.

A distância da aldeia era um problema. Na época, Larissa estudava na Escola Indígena Kura Bakairi, da Aldeia Pakuera, e era obrigada a viajar 100 quilômetros em estrada de terra para treinar em Paranatinga, a 375 quilômetros de Cuiabá. “Ela vinha para a cidade uma vez por mês com a mãe para fazer compras. Enquanto a mãe estava no mercado, era o tempo que tinha para treinar. Ou seja, ficava mais na estrada do que no treinamento”, relata Andressa. Para não ficar sem treinamento, a professora passava uma série de exercícios para a atleta cumprir nos dias em que estava no povoado.

A habilidade de Larissa com a luta tinhas motivo. Ela praticava o esporte desde pequena, pois a prática faz parte da tradição Bakairi. “Na aldeia praticamos uma luta indígena, huka-huka. É um ritual. Lutamos entre nós, homens e mulheres, sem separação”, diz. A treinadora de Larissa vê nisso uma vantagem. Treinar com meninos faz dela mais forte em alguns golpes. “Ela tem muita força nos braços. É chão na certa para os garotos”, brinca.

Darlene Taukane, tia de Larissa, conta que o fogo é um símbolo forte para os índios, por isso conduzir a Tcoha Olímpica é uma honra para os membros das comunidades. “Pela tradição, acendemos o fogo pela fricção das madeiras. O índio que consegue fazer isso rapidamente tem sinal de fartura, de ser uma pessoa próspera”, explica Darlene. Segundo ela, a comunidade vê com orgulho a participação de Larissa no Revezamento da Tocha Olímpica. “É uma menina determinada. Temos orgulho dela e ficamos felizes que ela foi buscar o esporte fora do nosso contexto cultural. Quando ela recebeu a notícia de que seria condutora, ela estava na aldeia e nem acreditou. Chorou e, como manda nossos costumes, todos fizemos festa na aldeia”.

No entanto, conduzir a Tocha tem um significado ainda maior para Larissa. A mãe faleceu e, pela tradição, ela teve que ficar reclusa na aldeia por 30 dias, completos um dia antes da condução a Tocha. “Conduzi em homenagem a ela, que me apoiou e queria tanto estar aqui nesse dia”, diz atleta, emocionada.