Verônica Hipólito

Coca-Cola Brasil

Reinventar, transformar, recriar, redescobrir, superar. Essas palavras compõem o mantra de Verônica Hipólito, uma das promessas de medalha para o Brasil nos Jogos Paralímpicos Rio 2016. Classificada para quatro provas de atletismo – 100 metros rasos, 400 metros rasos, salto em distância e revezamento 4x100 metros rasos, todas na classe T38, para pessoas com paralisia cerebral –, essa paulista de 20 anos, 48 quilos e 1,65m de altura, que já enfrentou um tumor no cérebro, um acidente vascular cerebral (AVC) e uma síndrome rara no aparelho digestivo, está confiante em atingir sua meta: de três a quatro pódios.

“Me adaptei a todas as situações que aconteceram na minha vida. Em momento algum culpei o destino ou qualquer outra coisa pelas barreiras que enfrentei. Sempre tive capacidade de me reinventar. E não gosto de ser medíocre. Busco sempre mostrar o meu melhor”, diz a jovem, integrante do time de embaixadores da Coca-Cola Brasil para os Jogos Paralímpicos Rio 2016.

Seguindo os passos do pai, um corredor amador de provas de rua em São Bernardo do Campo (SP), Verônica sempre gostou de esportes. Aos 10 anos, praticava judô, mas, aos 12, um tumor no cérebro a afastou dos tatames. Ela não podia mais sofrer qualquer tipo de impacto do quadril para cima. A reinvenção no esporte veio por meio do atletismo. Começou a correr, mas, em 2011, aos 15 anos, surgiu outro obstáculo. Um AVC paralisou o lado direito de seu corpo. Verônica soube se transformar novamente e, dois anos depois, já como atleta paralímpica, conquistou uma medalha de ouro (nos 200 metros rasos) e uma de prata (100 metros rasos) no Mundial Paralímpico de Atletismo, em Lyon, na França.

Em 2014, a jovem aumentou sua coleção de ouros com vitórias nos 200 metros rasos, nos 100 metros rasos e no salto em distância nos Jogos Parasul-Americanos, em Santiago, no Chile. Cada vez mais concentrada nos Jogos Paralímpicos do Rio, Verônica chegou ao Parapan-Americano do ano passado, em Toronto, no Canadá, como favorita ao alto do pódio nas provas que disputaria. Ela confirmou os prognósticos nos 100 metros rasos, 200 metros rasos e 400 metros rasos, além de ter se tornado a nova recordista parapan-americana nas duas primeiras provas e das Américas na última, ficando ainda com a prata no salto em distância.

O caminho para os títulos nesta competição, no entanto, não foi tranquilo. Antes dos Jogos Pan-Americanos Toronto 2015, Verônica descobriu que tinha uma síndrome rara, chamada polipose adenomatosa familiar, e que teria que passar por uma cirurgia para retirar 90% do cólon – maior porção do intestino grosso – para evitar que mais de 200 pólipos se transformassem em um câncer. Ela decidiu fazer a operação na volta do Canadá, abrindo mão de participar do Mundial Paralímpico de Atletismo, em Doha, no Qatar, que ocorreu em outubro do ano passado.

A cirurgia, segundo Verônica, foi um dos momentos mais difíceis de sua carreira de atleta.

Verônica Hipólito

Divulgação

“O pior foi não poder comer tudo o que eu queria e ter que ficar parada. Sou muito comilona e meio hiperativa”, comenta, com bom humor. “Brincadeiras à parte, a retirada do intestino grosso foi bastante difícil porque tornou a volta aos treinos muito dura. Ainda sentia dores fortes e perdi muito peso. Foi complicado voltar a treinar”, conta Verônica, que, à época, chegou a pesar 41kg e teve que se dedicar intensamente para recuperar o peso e, consequentemente, a massa muscular.

Como se não bastasse, nesse período de recuperação, Verônica soube que o tumor na cabeça estava crescendo e que teria que decidir por operar ou aumentar a dose de medicamentos. Como não queria comprometer seu sonho paralímpico, as doses de remédios foram ajustadas.

“Se eu ficasse com o remédio, estava comprometendo minha vida. Se ficasse com a cirurgia, poderia comprometer minha vida e a participação nos Jogos Rio 2016. De um jeito ou de outro, era da minha vida que a gente estava falando”, contou ela ao site Brasil2016, em junho deste ano. “Fiquei com medo de não voltar. Sempre pensei que, se você tem o problema, mas tem a solução, está tudo bem. Só que, às vezes, não é tão fácil. Estava com dor, perdendo peso, vomitava quase todos os dias. Cheguei a pensar que seria melhor operar e não participar dos Jogos Rio 2016, mas meus pais, meu irmão e meus amigos entraram em cena. Foi um dos momentos mais críticos”.

A tensão sobre o que o futuro lhe reservava foi dissipada na primeira competição após o período de recuperação. Seu retorno efetivo aos treinos ocorreu em fevereiro deste ano, e a redescoberta de sua força como campeã aconteceu no palco do atletismo dos próximos Jogos Paralímpicos: o Estádio Olímpico, em Engenho de Dentro, Zona Norte do Rio de Janeiro. No evento-teste, durante o Open Internacional, em maio, ela venceu a prova de 100 metros rasos, com um tempo de 13 segundos e 27 centésimos, uma das três melhores marcas do mundo na temporada e apenas dois centésimos de segundo acima de seu melhor tempo, nesta mesma competição, há dois anos. Nos 400 metros rasos, ela foi campeã mais uma vez, com a marca de 1m04s95.

“Eu tive um ‘filho’ nesse Open. O filho foi ter a autoestima de volta. Melhor que o meu tempo hoje, só o recorde mundial. Então, por que não pensar na medalha de ouro?”, declarou Verônica à época.

Um sonho que está cada vez mais próximo de se tornar realidade. Já na fase de “polimento” dos treinos, a atleta vem se dedicando ao aprimoramento físico e técnico, investindo principalmente em trabalhos de “resistência de velocidade”, devido às diferenças entre as provas que vai disputar nos Jogos Paralímpicos.

“Atualmente, treino em São Paulo com a seleção brasileira de paratletismo seis vezes por semana, sendo que quatro deles são em dois períodos. São treinos na pista, além de musculação, fisioterapia e massoterapia, tudo para eu não me machucar e chegar bem nos Jogos”, conta Verônica.

Tanta dedicação vai além da vontade de conquistar o ouro. Acima de tudo, Verônica é obstinada pela perfeição. “Procuro dar sempre o meu melhor nas competições para que isso se reflita na melhora das minhas marcas, em novas conquistas e medalhas. Mas quero deixar um legado de exemplo, mostrando para todos que o impossível não existe, que, se você trabalhar, pode fazer coisas incríveis”, diz ela.

Como parte desse trabalho duro, Verônica está aprendendo a lidar com o que considera o seu seu ponto fraco: “Sou muito ansiosa, e isso não é muito legal. Quero fazer o melhor logo, e nem sempre é assim. Treinar com a seleção brasileira está me ajudando a entender que tudo tem o seu tempo”.

Por conta da dedicação ao esporte, Verônica teve, por exemplo, que adiar um projeto: os estudos. Ela trancou a faculdade de economia e quer unir os aprendizados das salas de aula ao atletismo. “Não me arrependo de ter parado os estudos agora. Ano que vem retomo a faculdade, o inglês e, quem sabe, começo a estudar alemão. Espero que seja com as medalhas de ouro no peito”.

Verônica faz parte do time de embaixadores da Coca-Cola Brasil para os Jogos Paralímpicos e tem como missão transmitir os valores do esporte. “É fantástico mostrar às pessoas o verdadeiro significado do esporte. Mostrar que as conquistas vêm com o trabalho duro, todos os dias, mas que também é feito de alegria, emoção. Além disso, estamos difundindo, com muito orgulho, o paradesporto, mostrando que somos atletas de alto rendimento e queremos e seremos reconhecidos com tal”, afirma.

Nesses anos de dedicação e sucessivos desafios, Verônica descobriu que as conquistas do esporte vão muito além dos pódios. “Não uso mais blusas e calças longas para esconder a minha deficiência. Hoje, me dou bem com ela, pois faz parte de mim, e foi o que me fez mais forte. O esporte me fez crescer na vida, e a vida me fez crescer no esporte”.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico