Uma festa dos sentidos que tem como aliadas a tecnologia e a beleza natural carioca. Essa mistura de elementos dará o tom da cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, que acontecerá no dia 7 de setembro, no Maracanã, sob o comando de um trio de diretores formado pelo artista plástico Vik Muniz, o escritor Marcelo Rubens Paiva e o designer Fred Gelli.

Dos três, muito provavelmente Gelli é o menos conhecido do grande público, mas, nos bastidores dos Jogos Rio 2016 – Olímpicos e Paralímpicos — ele é "o cara". Designer nascido há 49 anos em Petrópolis, cidade serrana fluminense, está à frente da Tátil, empresa responsável pela criação tanto da marca dos Jogos Olímpicos quanto dos Paralímpicos. O duplo feito credenciou Gelli a desenhar também a celebração que marcará o início dos Jogos Paralímpicos em terras cariocas e que busca inspiração no mesmo coração em formato de infinito criado por ele e por sua equipe para simbolizar a competição.

"Desde os primeiros momentos da criação da cerimônia, entendemos que deveríamos usar o caminho da concepção da marca, que fala, acima de tudo, do que nos torna iguais, do que é comum a todos os humanos independentemente da forma do corpo, cor, sexo, se tem ou não deficiência, que é o coração. O coração pode ser a ponte entre as diferenças. E mais, seguindo a tônica da marca paralímpica, falar também da energia infinita que esses atletas têm para sair do fundo do poço depois de terem nascido com deficiências ou sofrido acidentes para chegarem ao alto do pódio. É um caminho inspirador para a vida de uma forma geral", diz Gelli.

A história do designer e consequentemente da Tátil com os Jogos Rio 2016 começou ainda em 2010. Depois de um processo colaborativo de dois meses, unindo os escritórios da empresa no Rio e em São Paulo e envolvendo praticamente toda a equipe, do presidente ao pessoal da limpeza, a agência viu a marca criada por múltiplas mãos ganhar a concorrência da marca dos Jogos. A imagem das três figuras humanas se abraçando — que também alude ao Pão de Açúcar e à própria palavra "Rio" — ganhou notoriedade internacional, dando a Gelli a chance de criar também o símbolo dos Jogos Paralímpicos.

"Desde o início percebemos que o importante era colocar a dimensão humana na marca, essa energia contagiante do carioca, que seria o grande diferencial do evento aqui. Uma marca é relevante se conseguir entregar o que promete. Tanto a abertura como todas as competições tiveram essa dimensão humana, portanto, uma grande conexão com a marca. E, no caso dos Jogos Paralímpicos, a história se repetiu. Nos perguntamos como o movimento paralímpico encontra o Rio. O que isso dá? Vira um coração infinito na marca, mas também na cerimônia de abertura, que será uma festa para todos os sentidos, provocando, inspirando e celebrando a dimensão humana", afirma Gelli.

Se os detalhes da festa do dia 7 de setembro estão muito bem guardados para que o público não deixe de se impactar diante do espetáculo prometido, o designer revela alguns conceitos que têm conduzido o trabalho dele e dos outros dois diretores nos últimos meses. E um dos mais fortes é justamente a proposta de apresentar uma cerimônia que consiga aguçar diferentes sentidos, conseguindo ativar as sensibilidades e percepções para além da visão.

"Vivemos numa sociedade que precisa ver para crer. É a ditadura da visão mas, curiosamente, a visão é o único sentido que nos engana, porque existe a ilusão de ótica. Nossa cerimônia será multissensorial, com um segmento que provoca porque vai além da visão. As pessoas com deficiências acabam desenvolvendo mais os sentidos, transformando a deficiência em potência", diz o designer.

Fred Gelli

O designer Fred Gelli e o logotipo dos Jogos Paralímpicos Rio 2016

Divulgação/Tátil

Outro ponto conceitual importante para os criadores da cerimônia é a relação entre o ser humano e a tecnologia. Gelli lembra que esse é um assunto fundamental no mundo paralímpico. A performance dos atletas depende também da qualidade das próteses e até mesmo da evolução na fabricação de cadeiras de rodas. Para entender melhor essa equação entre tecnologia e desempenho dos atletas paralímpicos, o designer e sua equipe chegaram a visitar o pesquisador americano Hugh Herr, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), uma das maiores autoridades mundiais em próteses e ele mesmo um alpinista que teve suas pernas amputadas.

"Herr diz que, com suas próteses, ele faz coisas que quem tem duas pernas não faz. Mas o fato é que, com a evolução das próteses, a previsão é a de que, em duas ou três edições dos Jogos Paralímpicos, os recordes olímpicos e paralímpicos acabem se equivalendo", profetiza Gelli. "Alan Fonteles, atleta paralímpico brasileiro medalhista de ouro na corrida, faz 100 metros em cerca de 11 segundos, que é pouco mais de um segundo do tempo de Bolt na mesma distância."

Em quase 30 anos de carreira, Gelli tem como marca um trabalho inspirado na natureza, um design criativo e, ao mesmo tempo, com fortes preocupações ecológicas. Ainda jovem, desenhava embalagens inspiradas nas cascas de semente de frutas. As belezas naturais do Rio de Janeiro, em toda a sua pujança, também estarão à mostra na abertura dos Jogos Paralímpicos.  Uma festa que, nos sonhos do designer, pode impactar gerações futuras.

"A cerimônia de abertura tem o papel de estabelecer a energia para o Jogos que vão acontecer. Nosso maior legado será atrair as pessoas de fato para as competições, vendo in loco ou pela televisão, porque isso, sim, pode mudar a maneira de enxergarmos as deficiências. São competições que podem mudar uma geração, que podem conectar as pessoas com dimensões muito nobres e especiais da natureza humana. Se as pessoas saírem da cerimônia e dos Jogos com uma visão mais completa, mais verdadeira e mais consciente do valor da deficiência, do valor que existe nas diferenças, já estaremos mais do que satisfeitos", finaliza Gelli.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico