Esporte que alia preparo físico, movimentos acrobáticos e muita habilidade, o futevôlei nasceu de um drible totalmente carioca. Era o verão de 1965 e chegou à Praia de Copacabana a proibição do futebol à beira mar. Até brincadeiras como a “linha de passe” (na qual os participantes não deixam a bola tocar o chão) foram proscritas. Um ex-jogador do Botafogo deu meia volta e apontou a solução: usar as redes de vôlei onde o esporte continuava liberado.

Nascia ali, na altura da Rua Bolívar, o jogo que, em menos de uma década, virou febre nas areias da cidade e abre a série do Coca-Cola Journey sobre esportes que têm o Rio de Janeiro como cenário. O formato original previa equipes de cinco integrantes, mas rapidamente chegou-se ao modelo consagrado, o de duplas – como no vôlei de praia. A partir dos anos 1970, craques do futebol profissional aderiram à mania.

Pouco mais de meio século depois dos pioneiros, no domingo de sol impecável em pleno inverno, Valmir de Oliveira Coelho, o Papá, faz mais um ponto com seu “shark attack”, o pirotécnico lance em que a bola é tocada no alto pela sola do pé. Emblema do futevôlei contemporâneo, a jogada serve de assinatura para o craque, que domina a rede no canto da Praia do Flamengo, diante da moldura majestosa do Pão de Açúcar. “Tem de praticar diariamente para ganhar tempo de bola e colocação”, ensina ele, do alto de 25 anos de experiência. “Precisa também preparo físico e mobilidade”.

Predicados que o canhoto Papá, agente funerário nascido em Pernambuco 53 anos atrás, ostenta com sobras. Ex-remador, ex-boxeador e ex-jogador de vôlei de praia, ele frequenta a rede apenas aos sábados e domingos – mas chega às 9h e só vai embora lá pelas 14h, após várias partidas de 18 pontos (se empatar vai a dois). “Encaro qualquer um”, gaba-se. Nos torneios na Praia do Flamengo, acumula vitórias, como provam as muitas garrafas d’água conquistadas nas apostas com os amigos-rivais.

Basta que a bola esteja no jeito, amaciada – “Nova não presta” –, para saírem precisos os saques chapados (sem rotação, de recepção mais difícil) ou em rotação, como num chute com efeito, sempre dados a partir de um monte de areia no canto junto à linha de fundo. Em seguida, os passes de peito, cabeçadas e piruetas diversas garantem a emoção até que a bola caia no chão, do lado de lá da rede. “Aqui é arte pura”, define Papá, celebrando o esporte.

A bola sobe mesmo no alto verão, vencendo o calor de rachar catedrais. Na temporada escaldante, a quadra de nove metros de largura e 18 de comprimento é molhada antes das partidas, preservando os pés dos craques na batalha para vencer a rede, erguida a 2,2 metros de altura.

O Maracanã do futevôlei é formado por um “complexo” que fica na altura da Rua Constante Ramos, na Praia de Copacabana. Lá, são duas quadras – a que carrega o apelido do estádio famoso, e a “Bariri”, referência ao campo do Olaria, ocupada por iniciantes ou praticantes menos talentosos.

Na orla do Rio, funcionam pelo menos 30 quadras, e há praticantes também em Niterói, Nova Iguaçu, Cabo Frio, Búzios, Macaé e Campos. Como manda a lógica despojada do bem viver na praia, para experimentar basta chegar e esperar a vez. No início, pode até ser um sufoco manter a bola no alto, mas no supercarioca futevôlei, nenhuma derrota vence o prazer da diversão em frente ao mar.

Reportagem produzida pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico