A paulistana Cassi Abranches está por trás dos movimentos coreografados da cerimônia de abertura do Jogos Paralímpicos Rio 2016, marcada para 7 de setembro, no Maracanã. Ex-bailarina e atual coreógrafa do Grupo Corpo, de Minas Gerais, Cassi vai comandar um exército dançante de cerca de duas mil pessoas, entre profissionais e voluntários, além de duas companhias de dança que misturam bailarinos cadeirantes com não cadeirantes. Com o tema “Rompendo limites”, a cerimônia, diz a coreógrafa, quer atingir os corações.

Coca-Cola Brasil: Como os valores dos Jogos Paralímpicos – coragem, determinação, inspiração e igualdade – serão traduzidos na cerimônia de abertura?

Cassi Abranches: Quando, em meados de 2015, juntei-me à turma que está concebendo a abertura, os diretores já tinham a cerimônia pré-desenhada. O que eles me disseram naquela época fez com que me apaixonasse pelo projeto. Nosso objetivo nesta cerimônia é imprimir nas pessoas que estiverem assistindo, em casa ou ao vivo, a vontade de viver mais, de poder mais, de romper limites, sejam quais forem. A deficiência, que é nosso ponto central, é apresentada como uma questão geral. Todos nós temos deficiências visíveis ou invisíveis. A grande mensagem que queremos deixar é a de que qualquer um é capaz do que quiser, basta romper seus limites.

O tema da cerimônia de abertura é justamente “Rompendo limites”. Na dança e no movimento, o que é romper limites para quem tem algum tipo de deficiência?

Cassi: O desafio para quem dança é sempre buscar o melhor, independentemente se há deficiência ou não. Eu sempre crio a partir do meu corpo, propondo movimentos para o bailarino, e é sempre um desafio ver se é possível executar cada movimento inventado por mim. No caso dos bailarinos com alguma deficiência, o processo de trabalho foi igual. Não fiquei pensando se conseguiriam ou não executar o que foi idealizado. Mas, realmente, depois de duas ou três tentativas, percebemos que era possível realizar o movimento pedido. Acredito que limite é uma questão pessoal. Quem quer superar o limite tem muita chance de conseguir. A questão está em acreditar. Depois da experiência com artistas e atletas paralímpicos, estou com vontade de fazer cada vez mais coisas difíceis. É inspirador ver a alegria de viver de pessoas com deficiência. Não tem como não relativizar nossos próprios problemas. A deficiência não paralisa, as pessoas são felizes e lidam bem com as suas questões. É uma força de viver que inspira. São pessoas que treinam e batem recordes como todos os demais artistas e atletas.

Você já disse que será uma cerimônia que vai pegar pelo coração. Como emocionar sem vitimizar, algo infelizmente muito comum quando se trata de falar de pessoas com deficiência?

Cassi: Vamos pegar pela beleza. Se ninguém falar que o bailarino tem deficiência, será impossível perceber. Estamos muito longe da vitimização e mais perto de apreciar o momento pela beleza que oferece. Quando as pessoas descobrirem que existe uma limitação real de certos artistas, vão se surpreender ainda mais. Somos todos iguais. O “coitadismo” não existe para nós. Não tivemos que mudar nenhuma ideia. Como coreógrafa, meu grande feeling é tirar daquele profissional o melhor que seu corpo pode oferecer. E aqui, de novo, estou replicando essa ideia de troca. O importante é entender as capacidades de cada um, tirando o melhor de cada um, sem colocar o bailarino no lugar de vítima. Meu trabalho é deixar vir à tona o melhor de cada pessoa. A cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos terá muitos recursos tecnológicos, porque o showbiz atualmente tem muita tecnologia, mas nossa grande aposta é nas pessoas, nos artistas.

O Grupo Corpo, companhia de dança mineira da qual você faz parte, tem como marca uma dança que bebe na fonte da cultura brasileira, de múltiplas formas. Nas cerimônias de abertura e de encerramento dos Jogos Olímpicos Rio 2016 houve forte aposta também na cultura brasileira e, não por acaso, o Grupo Corpo foi uma das atrações da festa de fechamento. Essa brasilidade será vista também no dia 7 de setembro?

Cassi: O Brasil, claro, está aqui na nossa cerimônia, estamos respirando brasilidade, mas queremos falar também para o mundo todo. É a nossa gente, o nosso sangue, unidos com gente de fora, para que todos se reconheçam como um só, independentemente de deficiência, nacionalidade ou idioma. Nossa busca é para que todas as pessoas tenham as mesmas sensações.

Como impactar milhões de pessoas ao redor do mundo com a cerimônia de abertura dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, de forma a deixar um legado de fato?

Cassi: Nosso desejo é que o maior legado seja a ideia de superação e de igualdade. Queremos mostrar que todos nós temos defeitos e qualidades. Nosso sonho é que quem estiver no Maracanã, no Nordeste do Brasil ou nos Estados Unidos seja tocado pelo coração, pela vontade de fazer parte de um mundo só. Espero que todos nós consigamos nos ver como iguais. Queremos atingir os corações, independentemente da geografia.

Como tem sido comandar uma equipe de duas mil pessoas?

Cassi: Além dos artistas principais, nós contratamos 78 bailarinos para abrilhantar a cerimônia junto com os voluntários. Também vamos contar com duas companhias de dança que trabalham com a inclusão, com dançarinos cadeirantes e não cadeirantes – o núcleo Corpo em Movimento, da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), e a mineira Araxá Dance Company. Tenho dez assistentes, além da experiência de uma grega linda, a Dimitra Kitidrike, que coreografa multidões. Esse timaço está trabalhando com cerca de duas mil pessoas, que vão se revezar no gramado do Maracanã durante toda a cerimônia. Fico pensando que, talvez, nunca mais tenha na vida uma outra experiência como esta. Tem sido muito gratificante. Já sou outra pessoa.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico