Sheila Valente, chamada carinhosamente de Dona Sheila pelos colegas da cooperativa de catadores onde trabalha, na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, começou a trabalhar com coleta seletiva de lixo quando se viu desempregada, em 2002. Tinha passado três meses internada em um hospital de Nova Iguaçu, também na Baixada, com um quadro sério de meningite. Sem encontrar emprego como enfermeira, função que exercia até então, foi saber com os vizinhos o que poderia fazer para ganhar dinheiro.

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“Eu tinha algumas amigas catadoras, então resolvi ir para a rua com elas. Elas me perguntaram: ‘Mas o que a sua família vai pensar? Você era enfermeira!’. Mas fui assim mesmo. Saía de casa às 5h para catar material na rua e, às 10h, já estava na porta do ferro-velho, com a minha carroça, vendendo o que tinha coletado. Era uma vida muito dura”, lembra Dona Sheila, de 57 anos, que agora tem uma rotina bem diferente da de 14 anos atrás.

Hoje ela trabalha das 8h às 17h em um galpão da cooperativa. Lá ela tem café da manhã, almoço e um ambiente de trabalho seguro. Também faz questão de ir às reuniões da associação e aos encontros promovidos pelo Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR). “Tomei tanto sol na cabeça, tanta chuva... Passava o dia enfiando a mão em latão de lixo. Era um desespero”, conta. “Mas, graças ao MNCR, à nossa persistência e às empresas que apoiam a gente, hoje temos cursos de qualificação, material de trabalho, um galpão e boas condições de vida”.

 Durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos 2016, Dona Sheila tem trocado o galpão na Baixada Fluminense pelo Parque Olímpico da Barra da Tijuca, onde faz o trabalho de triagem e destinação dos resíduos gerados pelo público e também promove educação ambiental, orientando as pessoas a separarem os materiais na hora do descarte. A ação, que envolve ao todo 240 catadores e também acontece no Complexo Esportivo de Deodoro e no Maracanã, é uma parceria entre a Coca-Cola Brasil, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana do Rio (Comlurb), a Secretaria Estadual do Ambiente (SEA), a Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), a Rio 2016 e o MNCR. O Instituto Coca-Cola Brasil também apoia mais de 300 cooperativas de coleta seletiva por meio do programa Coletivo Reciclagem.

Se quando começou no ofício de catadora Dona Sheila só pensava em ganhar um bom dinheiro para sustentar a família, hoje sua consciência ecológica também fica satisfeita com o trabalho. “Sei que nossa atuação tem uma importância grande para o meio ambiente. O dinheiro é legal, mas a preservação do planeta é maior do que a gente. É bom demais fazer parte disso. Fico imaginando para onde iria esse monte de plástico, metal, papel e vidro se não fôssemos nós”, questiona, olhando para as caçambas cheias de materiais recicláveis que ela e seus colegas já separaram no Parque Olímpico. “Sinto que nós, catadores, estamos deixando um presentão para a cidade. E espero que os cariocas aprendam com a gente a reciclar para valer”.