Fernando Fernandes

Coca-Cola Brasil

“Grande Fernando!”, disse um admirador ao passar por Fernando Fernandes no Armazém 3 do Píer Mauá, no Centro do Rio de Janeiro. Era dia de lançamento da campanha da Coca-Cola Brasil para os Jogos Olímpicos Rio 2016, e o tetracampeão mundial de paracanoagem estava lá como embaixador da marca. Pouco depois de ter perdido a vaga nos Jogos Paralímpicos Rio 2016, Fernandes nem descansou e já encarou um novo desafio: cobrir o evento como repórter e comentarista de um canal de televisão.

“Estou na batalha todos os dias. Ter um paratleta participando da cobertura dos Jogos Olímpicos, não só da dos Paralímpicos, também é uma quebra de barreira. Vejo como um momento muito importante para mim e para outras pessoas que têm algum tipo de deficiência”, acredita ele.

Em seguida, Fernandes partirá para uma nova aventura: um programa de televisão em que fará longas travessias de caiaque. “Vou buscar minha reintegração com a natureza. Quero ir a lugares extremos do mundo, como o Xingu, na Amazônia, o Salar de Uyuni, na Bolívia e o deserto da Noruega. E não vou ter contato com ninguém. Seremos só meu parceiro da modalidade e eu acampando, cozinhando…”, conta.

Fernando Fernandes

Coca-Cola Brasil

Apaixonado por esportes desde a infância, quando sonhava ser jogador de futebol – ele jogou em um time da terceira divisão em São Paulo na adolescência –, o atleta conheceu a canoagem em 2009, pouco depois de sofrer um acidente de carro que o deixou paraplégico em consequência de uma lesão medular. À época, Fernandes fazia fisioterapia no centro de reabilitação do hospital Sarah Kubitschek, em Brasília: “Comecei a pesquisar sobre alguns esportes que pudesse praticar e, quando sentei num caiaque, foi uma descoberta. Ao começar a treinar, vi que remava mais forte do que o treinador e do que o educador físico, pessoas que tinham braços e pernas funcionando. E pensei: ‘Putz, é isso’. Nesse momento recuperei as sensações de liberdade e capacidade”, recorda-se.

Na época, a prática da paracanoagem ainda era novidade, como lembra o atleta: “Apenas quatro pessoas praticavam a canoagem adaptada no mundo. Quando participei do primeiro campeonato mundial, na Polônia, após um ano e meio da lesão, havia apenas oito competidores além de mim”.

Ele ajudou a dar visibilidade ao esporte. Dias depois do acidente, foi lançada uma campanha mundial de uma grife de roupas estrelada por ele, que então trabalhava como modelo. E o paulista, que também havia ganhado fama em um reality show, conseguiu direcionar toda essa atenção em favor da canoagem paralímpica. “Foram publicadas muitas reportagens dizendo que ‘o modelo que se lesionou, agora, era campeão de paracanoagem’. Comecei a divulgar o esporte nas redes sociais, ensinar as pessoas a remar, a adaptar um caiaque, e o crescimento de praticantes foi absurdo. De quatro atletas no mundo, hoje temos 150 só no Brasil. Acho que tive uma influência grande nisso”, lembra, com orgulho.

Fernandes lamenta, apenas, o desfecho dessa história. Ou melhor, deste primeiro capítulo: “Infelizmente, meu sonho paralímpico de anos foi por água abaixo, perdi a classificação nos últimos metros de prova. Fiquei um pouco decepcionado. Não comigo, porque eu dei a minha vida e alma por esse esporte. Só que a classificação era funcional, algo que fugia ao meu controle, não dependia de mim”.

A classificação funcional, adotada em esportes paralímpicos, agrupa os atletas de acordo com as suas limitações. No caso da canoagem, são feitos testes básicos, como pedir que o competidor mova o tronco para frente, para trás e para os lados. “Tive que administrar essa derrota que não é só minha, é da paracanoagem e do esporte paralímpico”, afirma.

Fernando Fernandes tem outra história de superação: com apenas três meses de lesão, oito pinos na coluna, resolveu participar da Corrida Internacional de São Silvestre (maratona de 15 quilômetros que ocorre anualmente em São Paulo todo dia 31 de dezembro) na cadeira de rodas. Ele teve só três meses para se preparar.

“Estava precisando me reencontrar como pessoa no mundo e numa cadeira de rodas. Enfrentei dificuldades durante a prova. O pneu da cadeira estourou, a luva que eu estava usando rasgou, mas consegui cruzar a linha de chegada em último lugar. Ali ocorreu uma transformação na minha vida. Vi que poderia ser quem eu quisesse, mesmo sentado”, reflete.
No dicionário de Fernandes, superação é a primeira palavra: “Eu sei que, para quem fica paraplégico, o buraco é fundo, cheio de pedras, dolorido. Mas, quem quer, sai dele. Basta ter vontade na vida, saber quem você é, independentemente de estar numa cadeira de rodas. O que importa é a sua essência”.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico