Poderia ter sido um dia como outro qualquer. Costumamos viver no automático, expressamos verbetes de senso comum, falamos demais, ouvimos de menos. Dormimos pensando no amanhã, analisamos o passado para prever comportamentos futuros. Esquecemos do presente que é sentir a si mesmo e ao outro.

Ao ser convidada a participar da experiência de almoçar com os olhos vendados no restaurante da Coca-Cola Brasil, não esperava nada muito diferente do que eu já havia sentido ao conhecer pessoas com algum tipo de deficiência.

Fazia tempo que eu não era verbo, só adjunto. Se verbo é tempo, me falta. Sentir é verbo irregular e, ao mesmo tempo, único. Só quando em particípio passado é que realmente passa a ser sentido

Almoço às escuras

Camila Leite e Roberto Paixão montam seus pratos no restaurante dos funcionários da Coca-Cola Brasil

Adriana Lorete

Fui apresentada ao Roberto Paixão e iniciamos a nossa conversa no restaurante. Eu, na posição de quem ajuda; e ele, na condição metafórica de quem necessita da minha presença. Ao servi-lo, tive o cuidado em detalhar as porções, a aparência. “Olha só, o que você prefere?”, rimos juntos. Ele, essa paixão de ser humano, abriu um sorriso de quem já sabe lidar com a inexperiência do outro.

Sentamos e, antes de tudo, Roberto me deu um conselho: “Corte a carne antes de vendar os olhos, senão espalha comida para todo o lado”. E, com humildade, pediu que eu fizesse isso por ele. “Não precisa, eu tenho três filhos e o que eu mais sei é cortar carne”. Que falta de sensibilidade, a minha.

Ao fechar e vendar os olhos, começamos nossa conversa. Entrei no escuro mais iluminado que já estive. Eu não via nada e, ao mesmo tempo, enxergava tudo. Eu estava realmente presente e estabelecemos uma conexão que me fez esquecer, inclusive, de como eu havia distribuído a comida no meu prato. Várias garfadas vazias, vários pedaços de carne desproporcionais que me fizeram perder toda a elegância adquirida por persistência de minha mãe. Uma moça mineira e de berço.

Almoço às escuras

Com a venda, é difícil principalmente cortar a comida em pedaços

Adriana Lorete

Falamos sobre profissão, como é difícil viver em absoluta conexão com você mesmo e de frustrações e preconceitos. Porque esses assuntos não pertencem só a quem não enxerga, são do cotidiano de qualquer pessoa. Enquanto nós buscamos refúgio na falta de tempo e nas obrigações diárias, ele é um super-herói que desenvolve outras formas de sentir a vida e amplia a sua percepção do outro e de si mesmo.

O aprendizado: construa pontes com as pessoas. Olhe nos olhos. As melhores experiências estão nos momentos mais simples. Não há melhor maneira de entender a realidade do outro quando você se permite sentir.

Almoço às escuras

Camila Leite, depois de almoçar vendada

Adriana Lorete

Roberto Paixão é atleta de judô, 39 anos, separado e tem um filho. Conquistou o 3º lugar (bronze) nos Jogos Parapan-Americanos de 2007. É professor de judô para crianças e consultor de acessibilidade na Urece Esporte e Cultura para Cegos. Sonha com um mundo mais acessível e faz da sua rotina uma ferramenta de mudança.

Pode ser que ele não saiba, mas, no breve intervalo de um almoço de 40 minutos, quem aprendeu mais fui eu. 

Camila Leite é responsável pela Comunicação Interna da Coca-Cola Brasil e participou da ação promovida na sede da companhia, no Rio de Janeiro, durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016.