Quando os Jogos Olímpicos Rio 2016 acabarem, depois que as últimas delegações estrangeiras partirem, levando ou não as medalhas que sonham conquistar, a festa vai continuar na Zona Norte da cidade. Milhares de moradores de Deodoro e de pelo menos 11 bairros vizinhos terão motivos para continuar comemorando. Afinal, uma das maiores conquistas daquela região é um patrimônio chamado de Parque Radical.

Uma área com 490 mil metros quadrados — onde havia apenas mato, focos de mosquitos, insegurança e onde garotos entravam escondidos para soltar pipa — foi totalmente transformada para receber três das 11 competições que estão acontecendo no Complexo Esportivo de Deodoro: o Centro Olímpico de BMX, o Estádio de Canoagem Slalom e a Pista de Mountain Bike. O Parque Radical leva esse nome, inclusive, em função da natureza dos esportes que ali foram praticados durante os Jogos. Mas radical mesmo foi a mudança da paisagem.

Verde, parque aquático e trilhas

O matagal sitiado por cercas de arame, com cartazes do tipo “área militar — entrada proibida”, deu lugar a um espaço planejado, com 60% de área verde, trilhas e um estádio aquático que comporta 25 milhões de litros de água distribuídos em dois canais em forma de corredeira: um com 250 metros e outro de 200m. No novo cenário, ainda existe uma pista permanente de bicicross, com percurso entre 300m e 400m, onde está funcionando o Centro Olímpico de BMX. Ainda há a trilha de Mountain Bike, com 5,4 quilômetros de extensão.

Deodoro

Antônio Carlos Hilário Barbosa, de 56 anos, morador de Deodoro há 22 anos: “Eu conheci o ‘piscinão’. É show de bola!”

Gustavo Stephan

O legado vai além do esporte. O Parque Radical foi planejado para se transformar em uma das maiores áreas de lazer da cidade. Uma meta que fez parte do acordo entre o Ministério do Esporte, a prefeitura do Rio, o Exército brasileiro e a Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa). No futuro, haverá uso compartilhado com os atletas da canoagem. O Parque Radical será o segundo maior parque público do Rio de Janeiro, superado apenas pelo Aterro do Flamengo, que ocupa área superior a um milhão de metros quadrados na Zona Sul da cidade.

Entre as áreas que recebem eventos dos Jogos, Deodoro é a menos desenvolvida. Bairro localizado a 30 quilômetros do Centro do Rio e distante dos principais cartões postais da cidade maravilhosa, ocupa o 50º lugar entre os 160 do município no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH). Bem distante de outros locais de provas, como a Barra da Tijuca e Copacabana, oitavo e 11º no ranking do IDH respectivamente. O Maracanã é o 14º, e o Engenho de Dentro, 48º.

Área foi aberta ao público, com grande sucesso

Os planos são animadores. De acordo com a prefeitura, após os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, o parque terá opções de recreação, prática esportiva e equipamentos sociais. A previsão é a de que sejam instaladas quadras poliesportivas, ciclovia, pista de skate, trilhas ecológicas e equipamentos de ginástica. Entretanto, se bater preguiça ou fome, o frequentador do parque poderá usar quiosques, espaços com churrasqueiras e mirante. Também será instalada uma clínica da família e outros equipamentos públicos.

Deodoro

O projeto que mais empolga, no entanto, é a transformação do circuito de canoagem em uma imensa e refrescante piscina pública. “Eu conheci o ‘piscinão’. É show de bola!”, afirma com animação o comerciante Antônio Carlos Hilário Barbosa, de 56 anos, morador de Deodoro há 22 anos. Barbosa conheceu o parque no período em que esteve aberto à população, entre dezembro e março de 2014, uma espécie de “legado antecipado”. “Gostei muito. A família foi, todo mundo. Minha mulher foi só para caminhar, não entrou na água”, contou o comerciante, que tem dois filhos, de 36 e 22 anos.

Outro morador da região, o técnico em eletrônica Ricardo Ribeiro de Carvalho, de 50 anos, não teve oportunidade de conhecer o Parque Radical, mas disse que, certamente, vai dar um mergulho com o neto por lá. “Acho que foi bom para os moradores. Aqui não tinha área de lazer.”, contou Carvalho, que joga futebol aos domingos com os amigos em um campinho da área militar.

O “legado antecipado” começou em 23 de dezembro, quando o Estádio de Canoagem Slalom foi inaugurado. O parque ficou à disposição da população até 1º de março, aniversário de 451 anos do Rio e depois foi entregue ao Comitê Organizador Rio 2016. Para receber a população, a área mais funda do “piscinão” foi fechada ao público. Apenas um espaço de meio metro de profundidade foi reservado para os banhistas. Mesmo assim, havia salva-vidas em toda a extensão, inclusive dentro d'água.

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A entrada era gratuita com lotação de até três mil pessoas por dia, com controle de acesso e segurança por roletas. Havia chuveiros, espreguiçadeiras, boias, guarda-sol e bebedouros à disposição. Além de oito banheiros masculinos e femininos. O parque funcionou de quarta a domingo, de 8h às 18h.

“Não sei se vou usar no domingão, porque enche muito”, diz seu Antonio Carlos Hilário Barbosa, lembrando do sucesso do parque. “Veio gente de tudo quanto é lado. Até ônibus de excursão parou aqui na porta. Foi uma farra danada”.

Bem diferente do tempo em que só havia mato.

Texto produzido pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico