A igualdade universal de gênero ainda é uma utopia. Apesar dos avanços dos últimos anos, as mulheres ainda são alvo de piadas de mau gosto, assédio, violência e desigualdade em diferentes âmbitos. A Conferência de Pequim, de 1995, pode ser considerada um divisor de águas no movimento feminista e na luta pelo empoderamento da mulher, mas para Nadine Gasman, que está à frente do escritório ONU Mulheres no Brasil, “ainda não temos as leis que queremos, mas avançamos bastante”. Nadine está no Brasil há três anos, depois de passar pelo Panamá, onde foi diretora regional do Secretariado Geral do Comitê das Mulheres para a América Latina e o Caribe. Leia a entrevista sobre igualdade de gênero.

Coca-Cola Brasil: Quais foram os avanços e retrocessos dos últimos 21 anos na luta pelo empoderamento feminino?

Nadine Gasman: Diria que, desde a Conferência de Pequim, em 1995, mudou bastante a situação da mulher no mundo. O empoderamento feminino e outras questões centrais da vida das mulheres entraram na vida pública. As mulheres saíram de casa e estão representadas na política, na economia, na academia, nos esportes, na mídia... As questões de gênero e do empoderamento das mulheres entraram na agenda pública, o que ajuda os direitos humanos das mulheres. Hoje já existe um reconhecimento de que as mulheres podem e devem ser votadas, podem e devem ocupar cargos públicos, podem e devem disputar cargos públicos. Isso é uma mudança muito positiva. Não temos ainda as leis que queremos, mas avançamos bastante.

E os retrocessos?

Nadine: Publicamos em 2015 o relatório “O Progresso das Mulheres no Mundo 2015-2016: transformar as economias para realizar direitos”. A conclusão é a de que as economias falharam em garantir às mulheres o seu empoderamento e o pleno exercício dos seus direitos econômicos e sociais, tanto em países ricos como em países pobres. Para que os direitos das mulheres se tornem realidade precisamos de políticas econômicas e de direitos humanos que promovam mudanças de grande alcance. É o grande o desafio que temos pela frente. No mundo, somente metade das mulheres faz parte da força de trabalho em comparação com os três quartos dos homens. A participação das mulheres da América Latina e Caribe no mercado de trabalho teve o maior aumento entre todas as regiões em âmbito global: de 40% a 54% entre 1990 e 2013, mas está muito distante da participação dos homens (80%). Na região, 59% dos empregos das mulheres são gerados no mercado informal, sem amparo na legislação trabalhista nem proteção social. Além disso, 17 em cada 100 mulheres latino-americanas economicamente ativas são trabalhadoras domésticas remuneradas. Isso sem falar na remuneração. As mulheres ganham em média 24% do salário dos homens; na América Latina e Caribe, essa diferença é de 19%.

E na ONU, existe paridade de gênero e de salários?

Nadine: Existe, sim. Se a mulher ocupar um cargo igual do homem, tem garantindo salário igual. Mas isso não é suficiente. Precisamos ter paridade de gênero em todos os níveis, o que significa ter um corpo de funcionários composto 50% por homens e o restante por mulheres. No último Dia Internacional das Mulheres, lançamos “Por um planeta 50-50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”. É disso que estamos falando. No Brasil, por exemplo, 52% da população são de mulheres. Temos que estar em igualdade de condições em todos os âmbitos.

Reportagem produzida pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico