O desafio está posto: em 2050, a população mundial deverá alcançar 9 bilhões de pessoas, e para garantir o acesso de todos à alimentação, será preciso rever a estrutura de produção agrícola, segundo a FAO, órgão das Nações Unidas para agricultura e alimentação. A demanda por recursos naturais como água e energia também crescerá na mesma proporção, ainda mais com o agravante de que o mundo enfrentará as incertezas decorrentes das mudanças climáticas, que afetam de maneira direta a produção de alimentos.

Aumentar a produtividade da agricultura e torná-la menos dependente de insumos químicos são alguns dos principais desafios que o setor enfrentará para tornar a produção de alimentos mais sustentável, na avaliação de Laura de Santis Prada, agrônoma e secretária executiva do Imaflora, organização que promove a conservação e o uso sustentável dos recursos naturais. Além disso, será preciso fazer a transição para técnicas de produção com menor impacto ambiental. “Pensando num cenário em que as mudanças climáticas estão acontecendo e estão impactando diretamente os recursos naturais — entre eles, os que são fundamentais para a produção de alimentos, como clima, água e solos —, então a agroecologia é o único caminho”, diz Laura.

A agricultura sustentável compreende diferentes conceitos e técnicas de produção. Uma delas é a agricultura orgânica, na qual não são utilizados insumos químicos para adubação e controle de pragas, com o objetivo de preservar a saúde do solo e da água. Na agricultura de baixo carbono, a intenção é minimizar as emissões de gases de efeito estufa decorrentes da produção, com menor uso de fertilizantes nitrogenados e utilização de técnicas específicas como o plantio direto e integração entre lavouras, criação de animais e florestas.

Todas as práticas de agricultura sustentável, no entanto, convergem para um ponto: a implantação dos chamados sistemas agroflorestais, nos quais é possível combinar os cultivos de plantas agrícolas com a manutenção de áreas de matas nativas. O conceito traz benefícios como a preservação da biodiversidade nas fazendas, manutenção dos microorganismos presentes no solo, o que se traduz em uma terra mais saudável. “Dentro de uma perspectiva de agricultura alinhada com os conceitos de sustentabilidade, é cada vez mais necessário que os sistemas convencionais de produção migrem para sistemas ecológicos como o agroflorestal”, diz Laura.

No Brasil, a agricultura sustentável, em seus diferentes formatos, vem ganhando espaço nos últimos anos. Hoje 22,5% dos municípios brasileiras possuem áreas destinadas à agricultura orgânica, segundo o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento — culturas como café, hortaliças, frutas e carne estão buscando cada vez a certificação. Esse mercado cresce em média 30% ao ano, motivado pelo interesse do consumidor de buscar produtos mais saudáveis e com menor pegada ambiental. E engana-se quem pensa que a agricultura orgânica só pode ser praticada em pequena escala: o Brasil já abriga a maior plantação de cana-de-açúcar orgânica do mundo, com 21,6 mil hectares de manejo orgânico certificado em Sertãozinho (SP), destinados à produção de açúcar e álcool.

Mesmo com bons exemplos, o desafio da agricultura sustentável no Brasil é ganhar escala — os primeiros selos verdes foram emitidos há 20 anos, mas estima-se que o percentual da agricultura brasileira que receba alguma certificação socioambiental não chegue a 1% do total. “Apesar de as certificações para produtos agrícolas estarem consolidadas, ainda é um percentual pequeno perto do montante que temos de produção. Existe um grande caminho a ser percorrido na certificação como garantia de boas práticas agrícolas”, diz Laura. No Imaflora, que trabalha com certificações voltadas a várias cadeias produtivas, um dos selos mais demandados é o Rainforest Alliance Certified, da Rede de Agricultura Sustentável, muito procurado pelo setor cafeeiro e produtores de grãos e carne, produtos voltados à exportação. Outra tendência que surgiu nos últimos anos, segundo Laura, são os produtos da agrobiodiversidade, como guaraná e açaí, que vêm ganhando espaço no mercado.

Um exemplo nesse sentido é o projeto “Olhos da Floresta”, realizado pela Coca-Cola Brasil em parceria com o Imaflora. Lançado no ano passado em Presidente Figueiredo (AM), a iniciativa vem trabalhando em apoio técnico e capacitação de agricultores familiares para produção de guaraná dentro de sistemas agroflorestais, combinando o cultivo do fruto amazônico com outras espécies amazônicas. Para os agricultores, o programa, que pretende beneficiar 350 famílias até 2020, ajudará a diminuir a dependência de uma só cultura, com previsão de aumento da renda. Ao mesmo tempo, traz benefícios ambientais, como a transformação de áreas degradadas em férteis e manutenção da biodiversidade. “É um mito dizer que só vamos sobreviver e alimentar os atuais 7 bilhões de pessoas com o agronegócio de modelo exploratório, baseado em monoculturas e uso intensivo de insumos químicos”, diz Laura. “Agroecologia e desenvolvimento sustentável na agricultura estão diretamente ligados à diversidade, que é a palavra chave para enfrentarmos esse desafio”, conclui.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico