Lais Souza classifica o dia 27 de janeiro de 2014, quando sofreu o acidente que a deixou tetraplégica, como a data de seu renascimento. “Ali surgiu uma nova Lais”, disse a ex-ginasta durante visita à sede da Coca-Cola Brasil, no Rio de Janeiro. Ela veio conversar com funcionários e colaboradores no Papo Aberto, série de encontros promovidos internamente para discussão de temas da empresa e da sociedade.

Não foi fácil começar a encarar de forma positiva a vida após o acidente, numa montanha em Salt Lake City, no estado de Utah, nos Estados Unidos. A jovem, que já havia disputado dois Jogos Olímpicos — Atenas (2004) e Pequim (2008) — se dedicava ao esqui e se preparava para os Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi, na Rússia, para os quais já estava classificada. Durante um treino, acabou se chocando com uma árvore. Levada de helicóptero para um hospital, foi operada e passou meses acoplada a um respirador mecânico.

Dois anos e oito meses depois, Lais consegue mover dos ombros para cima. No auditório da Coca-Cola Brasil, contou como encara a vida atualmente. “Comecei cedo na carreira de atleta, aos 4 anos. Tive a oportunidade de ir a três Jogos Olímpicos. Em Londres, fraturei a mão e não pude competir. Mas estava lá, participando junto com as meninas. A história que construí lá atrás me trouxe força”, avaliou. “Tive que bolar uma estratégia para conseguir passar por tudo da melhor forma possível. Com minha família e meus amigos, consegui formar alguns pilares. Foi dia após dia. E tive pequenas vitórias. Depois que saí do respirador, comecei uma outra vida”.

Lais Souza

Simone Marinho

Uma dessas vitórias aconteceu recentemente e foi citada no debate: foi exibida uma foto de Lais com a tocha olímpica, usando uma cadeira especial, que permitiu que ela ficasse de pé. Marina Peixoto, gerente de RH e de Engajamento do Sistema Coca-Cola para os Jogos Olímpicos, perguntou como foi aquele momento, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo. Lais relembrou: “Foi emocionante. Quando ainda estava me preparando, já tinha uma galera em volta, me chamando de guerreira, dando os parabéns. Estava com minha família, foi um momento único”.

Mas como ela chegou até aqui? Após sair do respirador, mergulhou na fisioterapia e se submeteu a um tratamento experimental, com células tronco, em Miami. Foram três aplicações. “Tive um pouco de melhora na sensibilidade. Hoje sinto bem o meu pé (na planta), minha mão, minha barriga... Minhas costas melhoraram muito em um ano. Mas estou falando de sensibilidade. O movimento é bem pouquinho”, detalha a jovem. Na palestra, estava acompanhada de Willian Campi, cuidador e amigo, que segurava o microfone para ela, ajeitava suas pernas na cadeira, os cabelos... “Digo que o Willian sou eu. A gente tem uma conexão meio bluetooth”, brincou. “Tenho também a minha mãe e o meu irmão, que me ajudam com tudo. Tive que aprender a ter um pouco mais de paciência. O acidente tem mais de dois anos e ainda não consegui me adaptar 100%”.

“Tive que aprender a ter um pouco mais de paciência. O acidente tem mais de dois anos e ainda não consegui me adaptar 100%”

A gerente de RH da Coca-Cola Brasil falou do exemplo que Lais e outros convidados do Papo Aberto dão sobre como lidar com a deficiência de maneira leve. “O humor é muito importante para quebrar barreiras. Será que se pode brincar com pessoas que têm alguma deficiência?”, perguntou Marina, referindo-se ao politicamente correto. Lais respondeu: “Eu sempre faço zoação comigo mesma. Não ligo que me façam perguntas, que entrem na minha vida particular”. Questionada por outra pessoa sobre acessibilidade, contou que já enfrentou problemas. “É bem chato. De repente, você se depara com um poste no meio da calçada e precisa descer para a rua. Passei por isso”.

Lais veio ao Rio acompanhar os Jogos Olímpicos, fazendo um trabalho para uma emissora de televisão. Agora, foi convidada pelo canal de TV a cabo para voltar, nos Jogos Paralímpicos, participando de reportagens. Ao acompanhar de perto os bastidores das competições, ela tem se inspirado com os grandes exemplos dos atletas. “Vi um cara na bocha que é campeão olímpico, o melhor da galáxia, e ele não se mexe. Quero ir atrás. Assim como agradeço à Coca-Cola Brasil, que está me dando essa oportunidade, a liberdade de estar aqui, me colocando na frente de vocês”.

Morando entre Ribeirão Preto, sua cidade natal, e a capital paulista, a ex-ginasta conta que a fase é de descobertas. “Estou aprendendo muito. Quando cheguei ao Rio, vi uma menina com uma cadeira animal (risos), já queria para mim... Tudo o que eu olho é novo. Estou me enriquecendo como pessoa”.

Lais Souza

Simone Marinho


Quem também deu seu depoimento foi Fabrício Nascimento do Egito, supervisor do Centro de Relacionamento com o Consumidor da Coca-Cola Brasil. Em 2009, ele sofreu um acidente de moto e nunca mais conseguiu dobrar a perna direita. No Papo Aberto, falou de sua recuperação e dos aprendizados, além da emoção de, recentemente, ter conduzido a tocha paralímpica. “Fiquei nervoso, mas foi muito bom”. Fabrício levou a tocha para o auditório e ela passou de mão em mão, permitindo que cada um experimentasse a emoção de segurar o símbolo dos Jogos Paralímpicos — e, claro, fazer muitos selfies.

Os participantes da conversa também estavam curiosos sobre a possibilidade de Lais voltar a praticar algum esporte. “Tudo que estou passando agora é mais um teste. Quero ver se consigo me adaptar à televisão, também quero muito conhecer a bocha adaptada, porque vi que há pessoas com o mesmo problema que o meu. E pretendo cursar uma faculdade de psicologia. Vou fazer vestibular”. Lais já experimentou o surfe adaptado e foi chamada por Henrique Saraiva, outro convidado do Papo Aberto, para repetir a experiência. Carioca, ele é sócio-fundador da Adaptsurf, ONG que promove aulas de surfe adaptado para pessoas com deficiência – nos bairros da Barra da Tijuca e do Leblon  — e luta pela acessibilidade nas praias. Em 1997, aos 18 anos, Henrique sofreu um assalto, não reagiu, mas levou um tiro. “A bala entrou pela barriga e se alojou na coluna. Fiquei sem movimento da cintura para baixo”, contou.

Hoje, ele anda de muletas. “Passei alguns anos esperando o momento em que eu fosse voltar a poder jogar bola com meus amigos”. Até que, incentivado por um deles, resolveu experimentar o surfe de joelhos. “Achava que não conseguiria de jeito algum. Quando peguei a primeira onda, mudou tudo para mim. Eu estava realmente apto a praticar um esporte. Não precisava esperar estar dentro de um campo de futebol. Estava dentro do mar, com meus amigos. Comecei a me sentir melhor, mais capaz”.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico