A Coca-Cola Brasil adaptou seu cardápio de produtos vendidos às cantinas das escolas com alunos até 12 anos de idade. As crianças estão na escola sem a companhia dos pais e responsáveis, que devem tomar a decisão sobre o que seus filhos vão consumir. Por isso, a empresa não venderá os produtos com adição de açúcar ou adoçante e oferecerá as bebidas que mais contribuem para a hidratação e a nutrição das crianças.

A Coca-Cola Brasil não está sozinha: Ambev e a PepsiCo Brasil também vão mudar o portfólio. No caso da Coca-Cola Brasil, a empresa vai vender às cantinas de escolas para alunos até 12 anos — e às que têm a maior parte de seus estudantes até essa idade — apenas água mineral e suco 100%. O suco 100% é feito basicamente com o suco da fruta, sem adição de outros ingredientes, e é reforçado com fibras e vitaminas.

Nesta entrevista, a diretora de Categorias da Coca-Cola Brasil, Andrea Mota, detalha como a decisão foi tomada e enfatiza que não é uma iniciativa isolada. “Foi a continuidade de uma política de muitos anos, de não fazer marketing para menores de 12 anos”, explica. 

Que motivos levaram a Coca-Cola Brasil a decidir vender nas cantinas de escolas do ensino fundamental apenas sucos 100% e água?

Existe hoje uma questão muito séria, que é a epidemia de obesidade. Um problema complexo, com muitas causas, entre elas a ingestão excessiva de açúcares e gorduras. A solução para isso também não é simples, mas nós queremos fazer parte dela. Conversamos muito com especialistas em direitos das crianças, saúde pública, nutricionistas, educadores e consumidores. Concluímos que, até os 12 anos, a criança está em formação, tanto física quando emocional. São os pais que devem decidir por ela. Mas, na escola, elas estão sozinhas, os pais e responsáveis não estão lá. Então decidimos oferecer apenas água e suco 100%. É uma forma de reduzir a ingestão do açúcar das crianças e de contribuir com a hidratação – sabemos que as crianças bebem pouca água – e com a nutrição.

E essa decisão está valendo a partir de quando?

Em agosto, na volta às aulas, já está valendo. Estamos treinando nossa força de vendas nos fabricantes e distribuidores autorizados, ajustando nossa operação para que possamos implementar a nova política da mesma forma em todo o território brasileiro. Também vamos fazer um trabalho de conscientização das pessoas responsáveis pelas cantinas das escolas. Muitas vezes as cantinas se abastecem em supermercados e atacadistas e não temos ingerência sobre isso. Então temos que conversar com todo mundo.

Como surgiu essa ideia?

Para a Coca-Cola Brasil é a continuidade de uma política de muitos anos, de não fazer marketing para menores de 12 anos. É uma política global, que foi publicamente anunciada em 2009 e vem sendo atualizada de forma constante. É em decorrência dessa nossa política que não anunciamos para crianças até 12 anos. No caso do Brasil, isso vinha sendo discutido na Associação Brasileira das Indústrias de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (Abir). Debatemos muito com a sociedade, especialistas, pessoas do governo sobre como atuar para ter um impacto maior. Então decidimos fazer esse ajuste na gama de produtos que oferecemos e decidimos vender apenas água ou suco 100% (no caso da Coca-Cola Brasil).

Vocês acreditam que isso possa servir de exemplo para outras iniciativas similares?

Sim, claro. Fizemos um movimento em conjunto com Ambev e PepsiCo para ajustar nosso portfólio para escolas. Uma ação desse tamanho pode abrir caminho para um movimento ainda maior e não só de bebidas, mas de outros segmentos, para toda a indústria de alimentos.

Essa limitação dos produtos oferecidos a menores de 12 anos em cantinas já ocorre em outros países?

Sim, nos Estados Unidos, no México, na Argentina, em muitos outros. São acordos diferentes, com pequenas variações. O conceito que norteia a ideia é o de que crianças de até 12 anos não têm maturidade para fazer escolhas sozinhas. É uma mudança que respeita e valoriza o papel dos pais e responsáveis como decisores do quanto seus filhos vão consumir e em que momento.

O que vai acontecer em escolas que têm alunos de diferentes idades?

Temos duas abordagens. Nas escolas de ensino fundamental, onde só existem alunos com menos de 12 anos, é mais fácil. Nas escolas mistas, se a maioria das crianças estiver abaixo dos 12 anos, fica valendo a mesma regra para todos. Mas, se a maioria dos alunos for maior de 12 anos, vendemos todos os produtos normalmente, porém vamos priorizar as embalagens de 250 ml, para ajudar na questão da quantidade. Acreditamos que, com essas decisões, estamos cobrindo a maior parte das crianças de até 12 anos.

A empresa perde receita com essa decisão, não?

Isso é algo muito importante a ser destacado. Esta não é uma decisão comercial, há um propósito por trás. É claro que, como empresa, nos preocupamos em perder parte da receita, mas, neste caso, nem entramos nessa discussão porque temos uma preocupação genuína em fazer aquilo em que acreditamos.

O perfil nutricional desses alimentos que deixam de ser oferecidos nas cantinas pode causar algum problema às crianças de modo geral?

Este é um segundo ponto muito importante a deixar claro. O anúncio não tem relação com o perfil nutricional dos produtos. As crianças podem consumir todos eles sem problema. A decisão está ancorada na falta de maturidade, de discernimento, de uma criança de 12 anos, que ainda não consegue fazer escolhas de consumo de forma equilibrada. Além do mais, nosso movimento ajuda os pais num desafio diário – que é fazer a criança beber mais água e ingerir mais nutrientes.

Texto produzido pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico