Apesar dos avanços das últimas décadas na busca por mais igualdade entre gêneros no mercado de trabalho, ainda há um longo caminho para atingir o equilíbrio entre homens e mulheres. No Brasil, elas ainda são minoria entre os ocupantes de altos cargos executivos. Há, porém, profissionais que ajudam a inverter essa estatística aos poucos – não somente por ocuparem posições de destaque mas também por promoverem debates e práticas igualitárias nas companhias onde trabalham.

Adriana Knackfuss, diretora de Comunicação Integrada de Marketing da Coca-Cola Brasil, é uma dessas pessoas. Este ano ela entrou na lista "Women to Watch in Brazil", organizada desde 2013 pelo Meio & Mensagem. A iniciativa destaca mulheres que, com seu talento e estilo de gestão, vêm conseguindo qualificar os trabalhos de agências, anunciantes e veículos de comunicação. A seleção de seis personalidades da área foi feita após uma pesquisa de opinião promovida no próprio mercado de comunicação, seguida de uma avaliação do Meio & Mensagem.

Além de encarar o desafio de comunicar marcas do peso da Coca-Cola Brasil para consumidores, Adriana também estuda o empoderamento feminino no mundo dos negócios há anos. Saiba o que ela pensa sobre a posição da mulher no mercado de trabalho e no meio da Comunicação.

Coca-Cola Brasil: Hoje mais mulheres saem das universidades do que homens no país, mas elas ainda são minoria em cargos de liderança. Por que isso acontece?

Adriana Knackfuss: Esse cenário vem mudando, mas a realidade ainda está distante da ideal. Quanto mais alta a posição dentro de uma empresa, menor a chance de se encontrar uma mulher lá. Muitos fatores entram nessa equação. Existem barreiras externas e internas que influenciam esta situação. Sobre as externas, elas geralmente vêm da sociedade e às vezes das próprias empresas, que não criam condições para encorajar e desenvolver os talentos femininos. Um bom exemplo é a familiaridade com números. Existe uma crença equivocada da sociedade de que mulheres não são boas com números, e as meninas crescem acreditando nisso. Elas não são encorajadas a pensar e lidar com negócios desde cedo. Porém as posições mais altas dentro das companhias exigem que os profissionais tenham conhecimentos básicos de finanças e isso, em algum ponto da carreira, faz diferença no crescimento profissional. Sobre as barreiras internas, muitas mulheres não se sentem seguras e capazes de exercer cargos de liderança. Se dizem pouco ambiciosas e muitas vezes acham que precisam escolher entre ser mãe e ser uma profissional no mercado de trabalho. A Coca-Cola Brasil busca enfrentar essas barreiras com políticas de estímulo à promoção de mulheres para altos cargos, o que também acontece em outros países onde a companhia atua. 

A maternidade ainda é encarada como um obstáculo de crescimento para as mulheres?

Adriana: Basta observamos as estruturas das empresas. Geralmente vemos muitas mulheres em cargos de gerência. Mas, ao olharmos para os cargos mais altos, elas não estão mais lá. O que acontece justamente nesse intervalo? Parte delas opta por ter filhos e, a partir daí, entende que não será possível conciliar o trabalho com as crianças e o crescimento na carreira. Isso acontece por diversos motivos: o trabalho de criar os filhos normalmente recai sobre elas; os maridos não dividem as tarefas domésticas; e muitas temem não dar conta de serem mães e profissionais, por isso, abandonam as carreiras. A cobrança interna, da própria mulher, pesa. Eu, por exemplo, acho engraçado quando perguntam: seu marido ajuda com as crianças? É como se a responsabilidade de criar os filhos fosse toda minha e ele estivesse me fazendo um favor. Eu respondo: bom, ele não me ajuda, ele divide as tarefas comigo. É possível conciliar carreira promissora com maternidade e família. 

Quais são outros obstáculos para o crescimentos das mulheres no mercado?

Adriana: Networking é uma das ferramentas mais importantes para o crescimento profissional, e o homem faz isso com mais facilidade. Ele fortalece seus contatos no futebol, bebendo um chope com os amigos... Já da mulher ainda espera-se que, depois do trabalho, esteja em casa com os filhos. É preciso encontrar formas alternativas de cultivar contatos, de conhecer pessoas novas que expandam seu networking.

No que já evoluímos?

Adriana: Existiu, no passado, uma ideia de que as mulheres, para crescerem dentro das companhias, precisavam se masculinizar, negar sua feminilidade. Hoje acredito que estamos avançando bastante nesta frente.

E como você se sente sendo, hoje, um modelo para jovens que desejam trabalhar com negócios?

Adriana: Quando fui promovida para esta posição, me dei conta de que tinha uma responsabilidade enorme de ser um exemplo e também de contribuir com o debate sobre empoderamento feminino. Por isso procurei literatura sobre o assunto, entrei em grupos de discussão, fiz contato com outras profissionais, passei a discutir sobre o tema com meu time, em rodas de conversa fora da companhia... Hoje acompanho o grupo Leadership and Women (é preciso ter feito login no Facebook para acessar o link), que promove a inserção de mulheres em cargos de liderança. Quero fazer o que estiver ao meu alcance para incentivar as mulheres no mercado de trabalho.

Em seu processo de recrutamento, a Coca-Cola Brasil adota práticas que visam promover uma maior igualdade entre os gêneros?

Adriana: Metade do painel de entrevistadores, por exemplo, é formado por mulheres. Metade dos candidatos a cada vaga é sempre do sexo feminino. Se há dois candidatos igualmente qualificados para um cargo, a prioridade é da mulher. Além disso, o que chamamos de "Sediamento Flexível" facilita que funcionários, homens e mulheres, se mudem sem precisar levar suas famílias para seu novo local de trabalho – eles trocam parte da verba que seria para moradia por passagens aéreas. Assim, é possível garantir que o profissional continue se desenvolvendo sem que a família precise mudar sua rotina em função dele. Esse esquema ajuda a gestão de carreira do casal, pois um não precisa abandonar seu emprego em função do outro.