A vice-presidente global para Assuntos Científicos e Regulatórios na The Coca-Cola Company, chefe de um departamento que reúne mais de 140 empregados de diferentes países, sabe do que se está falando quando alguém menciona uma fruta exótica como jabuticaba, que só existe no Brasil. A doutora Wamwari Waichungo tem o costume de provar comidas e produtos locais, uma forma, diz ela, de vivenciar as diferentes culturas e, claro, descobrir novos sabores que podem ser levados para todo o mundo.

Nascida em uma pequena cidade na região central do Quênia, Tumutumu, a vice-presidente, que tem PhD em Ciência dos Alimentos, visitou, no fim de outubro, alguns dos locais da cidade que marcaram os Jogos Olímpicos Rio 2016. No Museu do Amanhã, ela tirou uma foto para mandar para sua família caminhando pela mesma rota percorrida pelo maratonista queniano Eluid Kipchoge, que conquistou a medalha de ouro para seu país em agosto.

Depois de trabalhar em seis diferentes países – sem contar as inúmeras viagens que faz ao redor do mundo –, a doutora Wamwari gosta de enfatizar o que as pessoas têm em comum, em vez de salientar diferenças. “A família, por exemplo, é importante para todo mundo”, destaca. E, claro, ela adorou jabuticaba!

É sempre inspirador para as brasileiras conhecer uma mulher em uma posição de liderança como a sua. Hoje, você lidera uma equipe de mais de 140 pessoas de diferentes países do mundo. Qual foi sua trajetória dentro da The Coca-Cola Company?

Wamwari Waichungo: Eu tenho PhD em Ciência dos Alimentos, portanto tenho o conhecimento técnico necessário. Estou na The Coca-Cola Company há 16 anos, trabalhei em diferentes funções e em diferentes localidades. Comecei minha carreira na empresa no Marketing, o que as pessoas acham interessante, mas passei a maior parte da minha carreira na área de Estratégia e Planejamento. Ingressei na companhia ainda no Quênia, e logo passei para a área de Estratégia e Planejamento, tendo trabalhado em Lagos, Cairo, Joanesburgo e, agora, nesta função técnica, em Atlanta. Também passei alguns anos em Londres, como assistente-executiva do presidente para a África. Acredito que minha experiência prática e o fato de ter trabalhado em diferentes localidades e funções me deram a qualificação necessária para chegar a esta posição na empresa. Além disso, estou constantemente tentando aprender mais, sempre levanto a minha mão quando a empresa necessita de um voluntário. E, claro, tenho um pouco de sorte. Estar no lugar certo na hora certa é parte disso. Ser ambiciosa é igualmente importante!

Onde você nasceu?

Nasci e fui criada no Quênia. Na verdade, nasci numa pequena cidade chamada Tumutumu, na região central do país, e cresci na capital, Nairóbi. Fui para os Estados Unidos para cursar a universidade, lá fiz o mestrado e obtive meu PhD. Antes de entrar para a The Coca-Cola Company, trabalhei em duas outras empresas.


Como a The Coca-Cola Company lida com as diferentes normas e regulamentações ao redor do mundo para manter a qualidade e o padrão de sabor de suas bebidas?

Uma das principais responsabilidades do departamento que lidero é garantir que nossos produtos, nossas bebidas, embalagens e ingredientes sejam seguros e aderentes à regulamentação local. Isso é crítico. A regulamentação pode ser diferente de um país para o outro não apenas no que diz respeito aos ingredientes aprovados para uso, mas também em relação às quantidades desses ingredientes que podem ser usadas. Frequentemente, a regulamentação é diferente, porque nem todos os países conseguem renovar e manter atualizadas suas normas relativas à comida e à bebida.  Estados Unidos, Europa, Austrália e Canadá, por exemplo, investem pesadamente para garantir que suas regulamentações estejam sempre atualizadas. Mas países em desenvolvimento nem sempre têm os recursos necessários para implantar sua própria regulamentação, e, por isso, elas podem estar incompletas. Muitos países usam o Codex, que é um conjunto de padrões globais (Codex Alimentarius, ou “Food Code”, foi criado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação e pela Organização Mundial de Saúde para desenvolver padrões alimentícios internacionais), enquanto outros países podem usar um código que os representa. Vários países africanos, por exemplo, usam o código da União Europeia como referência. Trabalhamos forte para promover uma harmonização da regulamentação porque, como uma grande empresa – vendemos nossos produtos em mais de 200 países –, é mais fácil para nós ter regulamentação padronizada, em vez de desenvolver fórmulas individuais para cada país. Assegurar que estamos seguindo a regulamentação local e colaborando como indústria para garantir uma regulação uniforme, completa, é essencial para o desenvolvimento do nosso negócio. No Brasil, por exemplo, até o ano passado não se podia adicionar qualquer ingrediente a um suco 100%, mesmo que fosse funcional, benéfico. Os produtos alimentícios são fortificados para fornecer vitaminas ou minerais em situações em que haja deficiência deles na dieta local, e podem ser disponibilizados por meio de comida e bebida que sejam mais frequentemente consumidos. Nos Estados Unidos, o leite é fortificado com vitaminas A e D, e um dos nossos produtos mais vendidos é um suco ao qual adicionamos cálcio (Minute Maid Calcium). No ano passado, o time de Assuntos Científicos e Regulatórios do Brasil trabalhou com a Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e de Bebidas não Alcoólicas (ABIR) junto aos reguladores para mostrar a eles regulamentações de outros países que permitem fortificar sucos 100%. Queríamos ajudá-los a entender que a fortificação pode ser vantajosa. Isso resultou numa emenda à regulamentação que, hoje, permite a fortificação e possibilitou o lançamento de novos produtos no Brasil.

Algumas pessoas têm dúvidas sobre por que a empresa usa xarope de milho, nos Estados Unidos, para adoçar as bebidas, e de cana de açúcar, no Brasil. Ou têm ainda questões como: “Os produtos americanos são melhores que os nossos?”. Como você explicaria para os  consumidores, que não são especialistas em regulamentação, a variedade de ingredientes?

A qualidade de nossos produtos é nossa prioridade mais alta, e é função do setor em que trabalho assegurar que todos os ingredientes e produtos  sejam seguros e sigam a regulamentação local. Essa regulamentação local às vezes determina a escolha dos ingredientes que usamos em nossos produtos. Alguns ingredientes são aprovados em determinados países, mas em outros não, por isso, às vezes, temos que mudar a fórmula. Há ainda a questão da disponibilidade dos ingredientes na cadeia de fornecedores. A preferência dos consumidores também influencia a nossa escolha de ingredientes e produtos. Os consumidores americanos, por exemplo, preferem suco de laranja, enquanto os indianos preferem manga. Então, a escolha dos ingredientes baseia-se em múltiplas razões, que incluem a preferência dos consumidores, regulamentação, cadeia de fornecedores e o perfil de sabor.


Em termos de inovação, o que os consumidores brasileiros podem esperar?

Uma das coisas mais empolgantes sobre a The Coca-Cola Company é a nossa longa história na oferta de produtos excelentes e inovadores. Uma de nossas mais importantes estratégias é, de fato, fornecer aos consumidores um portfólio variado – de refrigerantes a água, sucos, assim como chás e café – para suprir todas as suas necessidades relativas a bebidas. No Brasil, adquirimos recentemente bebidas à base de soja. Temos grandes negócios de laticínios no México, Panamá, Equador e nos Estados Unidos. A inovação continuará a ser nosso foco enquanto avançamos. Precisamos saber o que os consumidores desejam para o futuro. O que vão querer nos próximos 10 anos, 15 anos? Precisamos pensar sobre isso. Aqui no Brasil, experimentei frutas locais como cajá, caju, cupuaçu e jabuticaba. Isso abre as portas para que façamos bebidas à base de jabuticaba para as pessoas nos Estados Unidos e na Europa! Veja a stevia: veio do Paraguai e, agora, é consumida em todo o mundo. Não é uma chance de inovação apenas para o Brasil, mas também para que o Brasil exporte essa inovação para outras partes do mundo. O mostruário de inovações aqui é muito estimulante, eu me senti gratificada por poder provar essas deliciosas frutas locais.

Como a empresa garante a qualidade dos produtos dentro da empresa?

O papel do setor de Assuntos Científicos e Regulatórios é assegurar que os ingredientes sejam exaustivamente testados, e que tenham sido avaliados pelas autoridades regulatórias locais, como por exemplo a EFSA - European Food and Safety Authority, o FDA - US Food and Drug Administration, e o FSANZ - Food Standards Australia New Zealand. Nós usamos apenas ingredientes avaliados e que passaram por rigorosos testes de aprovação. Eu posso assegurar aos nossos consumidores e associados que todos os ingredientes são exaustivamente testados, e que são seguros e aprovados pelas autoridades regulatórias locais.  Também é importante ouvir as preferências dos consumidores. Algumas pessoas gostam de bebidas com açúcar, outras sem açúcar; algumas preferem bebidas com cafeína, outras não querem cafeína. Além de usarmos ingredientes de alta qualidade, seguros e aprovados pelas autoridades regulatórias, devemos considerar as necessidades dos consumidores.

O que os consumidores brasileiros podem esperar da empresa em relação à inovação na área de embalagens?

Nós estamos sempre criando formas inovadoras para atender à demanda dos consumidores em termos de tamanho e tipo de embalagem, inclusive mais leve, que é mais sustentável. No Brasil, um dos países com as melhores práticas de coleta e reciclagem, temos o programa Coletivo Reciclagem. Usamos conteúdo reciclado em nossas garrafas PET, além do PET virgem. A empresa está sempre procurando por inovação nesta área.

Como é a experiência de trabalhar com mais de 140 pessoas em todo o planeta?

Nós pensamos que somos muito diferentes, mas, na verdade, temos muitas similaridades. Trabalhar em diferentes culturas e em diferentes localidades tem me mostrado que nós temos muito em comum. O conceito de família é importante para todo mundo ao redor do planeta, e as pessoas geralmente são amigáveis e acolhedoras. A cultura da The Coca-Cola Company reflete essas qualidades – familiar, amigável, acolhedora. Eu tento sempre curtir a cultura e a comida local. Experimento tudo o que me oferecem nos lugares que visito e sempre acho fácil me adequar.

Tem algum conselho para jovens profissionais?

O que sempre digo é que carreiras têm estações: às vezes é verão, às vezes é inverno. Todo mundo tem estações em suas carreiras, até o mais sênior dos executivos pode olhar para trás e pensar: “Houve um tempo na minha carreira em que as coisas não estavam indo bem”. Eu sempre aconselho as pessoas a tentarem entender em que estação elas estão, e a usá-la como vantagem. Se você acha que está no verão, o que você pode fazer para prolongá-lo? Se está no inverno, o que você pode fazer para sair do frio? Eu tive invernos, mas a ideia é não se deixar abater e sim agir positivamente.

Gostou de sua estada no Rio?

Sim! É uma cidade extremamente bela. As pessoas são amáveis, a comida é excelente. A sede da Coca-Cola Brasil tem a melhor vista do mundo: a Praia de Botafogo à frente e o Corcovado atrás. Fui à Praça Mauá e visitei o Museu do Amanhã, que é incrível. E caminhei ao redor do Museu, assim como Eluid Kipchoge, o queniano que ganhou a medalha de ouro na maratona dos Jogos Olímpicos Rio 2016! Eu lembro de ter visto na TV, então tirei uma foto e mandei para a minha família no Quênia, para mostrar que eu estava andando sobre o mesmo caminho do vencedor da medalha de ouro!

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico