Reflorestamento e conservação de bacias hidrográficas são questões já abordadas pelo Sistema Coca-Cola Brasil por meio de programas que atingem mais de 103 mil hectares no país. Em 2017, a companhia dá um passo além, com a construção de uma aliança inédita com as principais organizações de acesso à água no Brasil e o lançamento do programa Água+. A partir de agora, todas as iniciativas do Sistema relacionadas ao recurso mais valioso para a vida humana serão reunidas na mesma plataforma, organizada em três pilares: Água+ Eficiência, Água+ Preservação e Água+ Acesso.

“Eficiência e Preservação a Coca-Cola Brasil já faz com sucesso. O Água+ Acesso surge da observação do nosso cotidiano, junto com os parceiros locais. A poucos quilômetros da operação ou do ponto de venda vê-se comunidades sem água potável. Não podemos ser indiferentes a essa situação”, explica Rodrigo Brito, gerente de Operações do Instituto Coca-Cola Brasil, que coordena esse novo pilar.  Até 2020, a Coca-Cola Brasil e os atuais parceiros investirão R$ 20 milhões para contribuir com o acesso à água em comunidades urbanas e rurais de baixa renda, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.

Formado em administração, especialista em empreendedorismo social, Rodrigo chegou à Coca-Cola Brasil no início deste ano e, pela primeira vez, tem um crachá. “Eu sempre trabalhei nas organizações que co-criei, num clima de muita empolgação, criatividade, que favorecem a inovação. Para minha alegria, encontrei a mesma cultura aqui no Instituto Coca-Cola Brasil”, diz ele. Nesta entrevista, entre outros assuntos, Brito fala sobre os motivos pelos quais a companhia resolveu trabalhar a questão do acesso à água; os papéis e a busca por novos parceiros; a conexão do Água + com o 8º Fórum Mundial da Água; e o projeto piloto que dá o pontapé inicial ao Água+Acesso, na comunidade de Coqueiro, em Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza. Em abril, será realizada uma chamada pública de inovação, em que cinco projetos serão escolhidos para serem implantados em 2017. O piloto, em Caucaia, já está em fase de teste.

Por que a Coca-Cola Brasil e seus parceiros resolveram trabalhar a questão do acesso à água?

Dentro da estratégia da plataforma de água da empresa, olhamos três pontos. Com o Água+ Eficiência, buscamos meios de usar cada vez menos água nos nossos processos produtivos, então esse programa é mais voltado para os processos internos. O Água+ Preservação busca garantir a reposição de fontes para assegurar que todos tenhamos água, nós e as comunidades com as quais nos relacionamos. Esses dois, a Coca-Cola Brasil já conduz com sucesso.

O Água+ Acesso surgiu da observação do nosso cotidiano, junto com os parceiros locais. A poucos quilômetros das unidades de operação ou dos pontos de venda vê-se comunidades sem água. Como produzir com escala, eficiência, e ver os seus consumidores sem acesso à água? Não podemos ser indiferentes a essa situação. Mas não dá para fazer sozinho, porque é uma tarefa grande e complexa, e a Coca-Cola Brasil não quer substituir o papel do Estado. Por isso, escolhemos nos unir às organizações da sociedade civil de maior relevância no país que já tratam a questão da água e que já têm capilaridade, conhecimento, rede e reputação, e focar em melhorar o impacto dessas organizações por meio da inovação. A gente quer conectar talentos inovadores, startups, empreendedores, com essas organizações, colocar em pauta o assunto.

Qual é o papel de cada parceiro?

Temos quatro pilares no Água+ Acesso: integrar, inovar, impulsionar (que significa elevar as escalas) e influenciar (governos, políticas públicas, comunidades). Essa é a visão geral do programa. Entre os parceiros já confirmados nessa coalizão estão: no Norte, a Fundação Amazonas Sustentável, que já atua em mais de 500 comunidades de várias formas, não só com acesso à água, e a ONG Projeto Saúde Alegria, que está em 250 comunidades na região amazônica; No Nordeste, o Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar), que é uma organização apoiada pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece). Devemos ter um trabalho na Bahia e mais um projeto para o Sudeste, mas os parceiros ainda não estão definidos. O SISAR atua em mais de 1.100 localidades, atendendo 530 mil pessoas. Essas são as que chamamos “organizações de acesso”.

Temos ainda a World-Transforming Technologies (WTT), especializada em avaliar, comparar e selecionar tecnologias para impacto socioambiental. A Fundação Avina, que trabalha desde 2004 na questão do acesso à água na América Latina e é parceira da Coca-Cola Brasil em outros países. O Instituto Trata Brasil fará um “raio x” do acesso à água no país. Vai acompanhar todo o programa e trabalhar com essa linha de estudo para sistematizar o aprendizado — o que deu certo, o que deu errado — para influenciar políticas públicas, pautar agenda. O Banco do Nordeste tem o hub de inovação do Nordeste, investe forte nesse segmento, tem financiamento para soluções em água e vai aplicar R$ 10 milhões no projeto, assim como a Coca-Cola Brasil. É gente com muita bagagem, muita reputação!

O que é mais importante para termos soluções mais eficientes e baratas, que garantam água de melhor qualidade para as pessoas?

São vários os problemas relacionados às soluções tecnológicas inovadoras, assim como as oportunidades de melhoria. Um “nó clássico” de acesso à água é a observância do contexto local: esta comunidade está preparada para aquela tecnologia? Uma solução de alta tecnologia, que só é operada por uma empresa, difícil de mexer, de consertar, é de difícil adoção. É preciso buscar a simplicidade. Olhamos — nós, Coca-Cola Brasil, e os parceiros — com mais atenção para as soluções que são comunitárias, ou as tecnologias familiares, e não aquelas individualizadas.

É preciso, por exemplo, ter atenção ao consumo de energia. As comunidades ribeirinhas do Norte não têm energia elétrica, então é preciso pensar em fontes renováveis. O sol também pode ser utilizado para outros objetivos, além do uso como fonte de energia. Já temos cisternas que fazem com que a água seja condensada dentro delas usando a luz do sol. Obtém-se, assim, uma água não-salobra. Também há variados tipos de filtros, mas o mais importante é saber o que é simples, o que é durável, o que fácil de aprender a operar, o que é fácil de consertar e o que é de baixo custo de instalação, aquisição e operação. E, claro, quais contaminantes determinada tecnologia elimina.

Por que a união destes parceiros é tão relevante e quais conhecimentos cada um traz para a plataforma?

Temos muita gente boa e muitas organizações sérias já atuando em diversas áreas. Aliás, muitos aspectos poderão ser trabalhados com essa aliança do Água+ Acesso. Essas organizações sabem umas das outras, mas nunca tiveram uma sistemática de encontros, de integração, de trocas. Com o programa, elas terão oportunidade de passar cinco anos convivendo, trocando. Esse é o ponto mais importante. Em termos de prioridade, é importante destacar que o programa está mais centrado em investir em soluções escaláveis, em tecnologia.

‘A mistura proporciona ideias com DNA novo. Claro que investimento é importante, mas estamos integrando, juntando investimento com talento e comunicação’ — Rodrigo Brito, gerente de Operações do Instituto Coca-Cola Brasil

Na verdade, essas organizações têm diferentes expertises que se somam, e esse é um diferencial muito importante no programa. O Sisar, do Ceará, por exemplo, é muito bom em tornar o modelo autossustentável financeiramente. Isso é importante porque não queremos criar um programa que dependa sempre de doações. Não adianta criar um programa de cinco anos que depois acaba porque não tem mais recursos. Todos os investimentos que estamos fazendo partem da premissa de autossustentabilidade.

Já o Projeto Saúde e Alegria, que está na Região Amazônica, com sede em Santarém, é muito bom em formação, organização e educação comunitária. São mestres da inovação comunitária, têm circo, rádio, internet, barcos-hospitais, tudo no meio da floresta. Eles acabaram de formar a primeira turma de técnicos comunitários em energia solar. A Fundação Amazonas Sustentável, que trabalha no Amazonas, é muito boa na articulação de parceiros e faz um trabalho gigante em escolas, de educação, de mudança de hábitos.

Por que razão escolheu-se a comunidade de Coqueiro, em Caucaia, para fazer o projeto-piloto do programa Água+ Acesso?

Caucaia é uma comunidade que atende a um conjunto de critérios definidos para o programa: ter um parceiro local, no caso, o Sisar, que indicou a comunidade; ter associação de moradores bem constituída, um operador local; ter água já encanada, pré-tratada, mas ruim para consumo, e famílias pobres gastando dinheiro com esse recurso. Por ser um piloto, a proximidade com Fortaleza facilita o acompanhamento, e é uma comunidade de 150 famílias, 500 pessoas, com mais 200 alunos de uma escola. A área geográfica também é pequena, o que permite uma avaliação do impacto do projeto mais acurada, com encontro dos moradores. Caucaia é representativa de várias localidades, é um laboratório: a solução tecnológica vai ser testada, avaliada. Os moradores já foram informados de que deverão avaliar gosto, sabor, saúde, preço.

Conte um pouco da sua história, da sua formação.

Eu sou um empreendedor social. É a primeira vez na vida que tenho um crachá! Minha formação é em administração, e eu sempre co-criei as organizações em que trabalhei. A primeira foi a Aliança Empreendedora, que começou num café, único lugar que tinha wi-fi grátis, em 2005. Hoje já orienta e treina mais de 30 mil empreendedores de baixa renda e está em vários outros países, como Tanzânia, Quênia e Chile. Já formou mais de 100 outras ONGs, e hoje trabalha com várias empresas em modelos de negócios inclusivos. Depois co-criei a Ink, que criou um programa chamado Laboratório para a Fundação Estudar e se tornou uma plataforma de formação para jovens que querem mudar o Brasil.

Mas eu não queria trabalhar só com empreendedorismo, queria trabalhar também com inovação tecnológica. Fui para a WTT, onde criamos o embrião deste programa que agora estamos desenvolvendo. Na WTT olhamos 150 tecnologias de água, selecionamos a que está sendo implantada em Caucaia e desenhamos a primeira ideia do Água+ Acesso. Curioso é que a equipe do Instituto Coca-Cola Brasil tem uma cultura, um clima muito parecido com o da Aliança Empreendedora. Não é porque é uma grande empresa que precisa ser burocrática, rígida. É um ambiente que facilita e promove a inovação. Estou achando ótimo empreender numa estrutura como esta.

Qual o papel da Coca-Cola Brasil no mundo do empreendedorismo social?

O Instituto Coca-Cola não quer ser visto e não age como uma “carteira gigante”. Queremos integrar o ator público, inovadores da ciência, gente da área de água para bater cabeça e criar algo novo. Como diz o [autor] Matt Ridley, “inovação é quando as ideias fazem sexo”. A mistura proporciona ideias com DNA novo. Claro que investimento é superimportante, mas estamos integrando, convidando, juntando investimento com talento e comunicação. Em Caucaia, desde o primeiro dia, contamos com a equipe da Solar BR, a engarrafadora local, fazendo coleta para análise da água em laboratório, com a equipe de Marketing envolvida. A Solar BR tem contato todos os dias com a comunidade, e não é para dizer “olha o que nós, Coca-Cola, estamos fazendo”, mas sim: “olha o que você pode fazer com a água”.

‘O trabalho em rede permite que aproveitemos os conhecimentos de cada organização e potencializemos suas atuações. A onda que começa agora tem que continuar e se expandir’

A Coca-Cola Brasil tem o compromisso de fazer um programa de cinco anos, buscar co-investidores, alavancar os R$ 10 milhões do Banco do Nordeste, buscar outros parceiros. E acredito que isso não seria possível se a companhia não tivesse investido os primeiros R$ 10 milhões e não tivesse abraçado a ideia, o que foi uma ação muito corajosa, diga-se de passagem. Com esse projeto vem uma enorme responsabilidade, pois a água é um recurso muito sensível. Afinal, as comunidades vão tomar uma água cujo tratamento foi incentivado pela empresa. Precisamos ter certeza de que essa água é segura. Seria mais confortável para a Coca-Cola atuar em outra área, mas preferimos ser corajosos.

Em março do ano que vem o Brasil vai sediar o 8º Fórum Mundial da Água. Qual a conexão do Água+ Acesso com esse evento?

O Fórum Mundial da Água deve receber cerca de 8 mil pessoas de todo o mundo, mas não estamos fazendo o programa por causa dele. Porém, iniciá-lo já, com a perspectiva do Fórum, potencializa a iniciativa, tanto em termos de aprendizado como na ampliação dos contatos que poderemos fazer. Existe ainda uma razão forte para acreditar nesse casamento do fórum com o Água+ Acesso: internacionalmente, e mesmo aqui dentro, muita gente acha que o Brasil não tem problema de água. “No Brasil pode faltar tudo, mas água não vai faltar nunca”. Já ouvi esta frase de uma diretora de um organismo multilateral. E vê-se, em Caucaia, pessoas muito pobres pagando R$ 18 por mês para ter uma água encanada que não podem usar sequer para tomar banho. E ainda gastam de R$ 16 a R$ 48 mensalmente para comprar galões de água potável.

Se olhamos para a região amazônica, veremos que o que não falta é água, mas sua condição não é apropriada. Gera surtos de diarreia todos os anos, há muitos anos. Isso tem impacto nos custos de saúde, faz as crianças perderam dias na escola, adultos perdem dias de trabalho. O fórum, portanto, dará oportunidade de o Brasil olhar suas questões relativas a esse recurso tão precioso e entender que o problema não é só do governo, ou das empresas de saneamento. A sociedade civil, as ONGs, os geradores de soluções, os empreendedores e os inovadores terão que descobrir como se cria uma grande aliança para, juntos, desenvolverem melhores soluções. Nesse sentido, vamos aprender com o fórum e apresentar a primeira experiência com o Água+ Acesso.

Reunir esses parceiros com o objetivo de olhar cada comunidade de forma cuidadosa é uma mudança de atitude, certo?

Formar uma aliança significa garantir que serão criadas as condições para a iniciativa crescer, trazer mais parceiros, mais investidores, e não depender apenas da Coca-Cola Brasil. Além disso, o trabalho em rede permite que aproveitemos os conhecimentos de cada organização e potencializemos suas atuações. A onda que começa agora tem que continuar e se expandir.

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Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico