O bom humor e o amor pelo trabalho que desenvolve se destacam num primeiro encontro com a gerente-geral do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (R&D, na sigla em inglês) da Cidade do México, Shell Huang. Ela mistura o lado caloroso, característico dos chineses, com o senso de humor tipicamente americano, rápido e incisivo. É com esse humor peculiar que a Dra. Huang explica por que decidiu ficar nos Estados Unidos após concluir seus estudos na Universidade de Connecticut, onde conheceu o marido, também engenheiro de polímeros. “Ele é de Taiwan, eu da China. Ele não queria morar na China, eu não queria morar em Taiwan. Então ficamos nos Estados Unidos”. Isso foi há 30 anos. Agora, ela enfrenta um novo desafio, tanto profissional quanto pessoal: mudou-se para a Cidade do México há apenas cinco meses, após trabalhar 11 anos em Atlanta, para dirigir o centro de R&D responsável por toda a América Latina. “Certamente não é pouca coisa, mas estou adorando aprender espanhol e conhecer a verdadeira cozinha mexicana”, diz ela. A gerente-geral anunciou que o Brasil terá um laboratório-satélite de R&D, que irá contribuir para o sucesso da The Coca-Cola Company e a satisfação dos consumidores na região, os dois grandes objetivos de sua área.

Há quanto tempo a senhora trabalha para a The Coca-Cola Company?

Comecei na The Coca-Cola Company há 11 anos. Antes, eu trabalhei para um fornecedor de garrafas PET da empresa, por isso eu me sinto como se tivesse trabalhado para empresa a vida toda! Ingressei na companhia em 2005 para me tornar a responsável por R&D de embalagens de garrafas plásticas em Atlanta. Ao longo da minha carreira trabalhei muito com ciência da embalagem, sou uma cientista de polímeros.

Fale um pouco, por favor, sobre a área de R&D para que possamos apresentá-la aos nossos leitores.

R&D é uma parte muito, muito importante da companhia, que impulsiona e possibilita a inovação. Atualmente, todo mundo está tentando inovar, e as empresas têm que inovar para sobreviver. Dessa forma, a área de R&D, com seus engenheiros e cientistas, tem como papel possibilitar a inovação. Por exemplo, se você quer uma garrafa plástica reciclável, a primeira pergunta é: que material eu devo utilizar? Você precisa dos engenheiros e cientistas de R&D para desenvolver a tecnologia que vai possibilitar vencer cada desafio. Hoje em dia o ambiente de negócios é extremamente competitivo; se você não inova, morre. Se sua empresa precisa crescer rapidamente, você tem que apresentar alguma coisa diferente. A inovação promove o crescimento, e a área de R&D possibilita a inovação. Temos seis centros de R&D no mundo: dois nos Estados Unidos, um em Atlanta (Georgia) e outro em Apopka (Florida); na Cidade do México, em Xangai (China), em Tóquio (Japão) e Bruxelas (Bélgica). Sou líder do Centro de R&D na Cidade do México, que é responsável pelo desenvolvimento de todos os novos produtos e pelo impulsionamento da inovação em toda a América Latina. Nós os chamamos de centros de R&D, mas todos têm laboratórios. Nós fazemos experimentos e protótipos, então precisamos de laboratórios.

Pode descrever como são esses laboratórios e como as equipes trabalham nesses locais?

É claro que nós usamos jalecos, mas não é como um laboratório “CSI”! Começamos a entender as tendências nas preferências dos consumidores a partir do Marketing. Nós também temos um escopo de pesquisa técnica com os consumidores na área de R&D. Vou dar um exemplo hipotético de como buscamos identificar as tendências de preferência dos consumidores: suponha que eles queiram uma bebida que tenha pequenos pedaços de frutas flutuando no líquido. Não apenas o sabor da fruta, mas pequenos pedaços. Faremos, então, um protótipo no laboratório e vamos desenvolver pequenos pedaços que sejam consistentes com aquilo que é desejado, nem tão grandes nem tão pequenos, que flutuem de um jeito bacana, tenham uma boa aparência e, então, serão feitos novos testes com os consumidores.  Vamos trabalhar com o Marketing e a cadeia de fornecedores até o momento em que possamos dizer: ok, isto está perfeito, nossos consumidores gostaram, e este pode ser mais um investimento que vai trazer bilhões de dólares! Resumindo, de um jeito simples, isso é o que fazemos em nossos laboratórios, nós desenvolvemos todos os novos produtos.

'Se sua empresa precisa crescer rapidamente, você tem que apresentar alguma coisa diferente. A inovação promove o crescimento'

Quantas pessoas trabalham nos centros de R&D ao redor do mundo?

Os centros de R&D geralmente têm entre 50 e 100 empregados. O que eu lidero, na Cidade do México, tem 53 pessoas; o de Xangai deve ter em torno de 100 pessoas.

Há um pequeno laboratório no Brasil, mas não é um centro de R&D?

Sim, tivemos um centro de R&D no Brasil, mas suas funções foram transferidas para o México há dois anos. Foi uma decisão de negócio. Agora estamos finalizando os planos para a instalação de um laboratório-satélite de R&D aqui no Brasil. O laboratório principal continuará na Cidade do México, mas o laboratório-satélite vai nos ajudar a agilizar os trabalhos. Porque fazemos muitas coisas na área de R&D. O esforço em busca da inovação é uma delas, a outra é proteger nossas marcas. A terceira questão com que lidamos é a redução de custos com melhoria de produtividade. Por exemplo, se há uma oportunidade de tornar a garrafa de PET mais leve, com menos plástico e mais conteúdo amigável para o meio ambiente, nossa área terá que desenvolver essa garrafa, redesenhá-la para que tenha essas características mas também seja agradável para o consumidor segurar, que tenha um toque aceitável nas mãos, que seja funcional. Então, são três coisas fundamentais para os times de R&D: o esforço em busca da inovação, a proteção de nossas marcas e a possibilidade de incrementar a produtividade.

Há muita variedade de profissionais nos centros de R&D? Que tipo de especialistas vocês têm nos laboratórios?

Nós temos uma ampla variedade de disciplinas nos centros de R&D. Temos quatro plataformas principais para R&D: ingredientes, embalagem, equipamentos e processos. Equipamentos são os coolers, refrigeradores, dispensers etc., em outras palavras, como entregamos nossos produtos aos consumidores. A área de R&D é responsável por toda a especificação técnica, ainda que tenhamos outras pessoas fazendo os equipamentos para nós. Nós desenhamos e os fornecedores fabricam. Já os processos se referem à forma como fazemos as coisas. Por exemplo, como extraímos o sabor das folhas de chá. Mesmo quando o fornecedor é responsável por manusear o ingrediente, como no caso da stevia, por exemplo, nós somos responsáveis pelas especificações.

Então, para os ingredientes nós temos engenheiros alimentícios e cientistas alimentícios. Para embalagens, cientistas de polímeros, como no meu caso, que sou dessa área, que se refere aos plásticos. Mas temos outros cientistas para outros materiais, como embalagens de metal, de vidro, e temos ainda engenheiros de embalagens. Para os equipamentos, trabalhamos com os engenheiros mecânicos. No caso da máquina Free Style (que mistura sabores aos refrigerantes e outras bebidas), temos engenheiros de classe mundial, inclusive da NASA, pessoas que trabalhavam como cientistas espaciais, de foguetes. Eles estão nos ajudando com as máquinas Free Style, que são muito sofisticadas. Para a plataforma de processos, temos engenheiros químicos, mas também alimentícios e mecânicos. Ou seja, são áreas fronteiriças. Na área de R&D do corporativo, em Atlanta, temos mais PhDs.

Uma vez minha irmã me disse: “Por que você precisa de um PhD para trabalhar com garrafas plásticas?”. E eu respondi: “Bem, não sou só eu com PhD, há um monte de doutores trabalhando com garrafas plásticas!”. Porque são complexas, não são fáceis. Especialmente para as bebidas carbonatadas. Elas são finas e precisam segurar quatro volumes de CO2 por três meses. Segurar o gás lá dentro é um imenso desafio! A garrafa não pode explodir no seu carro, e você quer que ela seja leve, fácil de carregar. Também precisamos pesquisar materiais que não sejam muito caros, pensar no fechamento, na temperatura, em tudo. Eu tenho mais de 35 patentes em meu nome, principalmente em PET, que é minha área de formação. Há patentes que podem fazer o PET mais forte, outras mais leve, outra mais barato. Uma dessas 35 patentes é a da plant-bottle. Também tenho uma patente relacionada à garrafa de água Dasani, é de uma molécula que ajuda a reduzir aquele gosto residual do plástico, porque para modelá-lo é preciso aquecer, aí resta uma pequena molécula que é inofensiva, mas você pode sentir o cheiro dela, o que influencia no gosto. Então inventamos um aditivo, igualmente inofensivo, que, adicionado ao plástico, captura a molécula que causa o cheiro. Nessa época eu trabalhava para um fornecedor da The Coca-Cola Company. Essa patente fez com que os consumidores achassem a Dasani mais limpa que as outras, ou seja, deu ao produto uma vantagem competitiva. Para encontrar essa molécula nós estudamos mais de 200 delas.  

Eu realmente gosto de R&D! Me sinto desafiada o tempo todo a buscar soluções e a sensação de achar a solução, de vencer o desafio técnico, é melhor do que tudo! É a sensação de realização e de recompensa! Como no caso da plant-bottle. Agora ela está em mais de 30 países, é mais um projeto recompensador.

A senhora disse que é chinesa, onde nasceu?

Cresci em Pequim. Cursei química na Universidade de Pequim. Após me graduar, queria muito fazer a pós-graduação e obter meu PhD. Me inscrevi em universidades americanas e a de Connecticut me aceitou. Me deram uma bolsa de estudos integral, eu fui para os Estados Unidos e obtive meu título. Conheci meu marido na universidade. Ele é de Taiwan, eu sou da China. Ele não queria viver na China, eu não queria ir para Taiwan, então decidimos ficar nos Estados Unidos. Com o passar do tempo começamos a gostar mais e mais dos Estados Unidos, tivemos dois filhos. No começo foi um choque cultural muito grande, pensamos até em voltar para a Ásia. Mas, olhando para trás, vejo que foi a decisão mais acertada ficar nos Estados Unidos porque nós dois temos PhD em ciência dos polímeros e tivemos lá a oportunidade de dar uma contribuição em nossa área, especialmente se considerarmos que isso aconteceu há 30 anos. A China não era tão desenvolvida quanto é hoje. Depois da universidade, eu trabalhei para uma empresa de embalagens PET e, depois, na The Coca-Cola Company.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico