O que há em comum entre a atriz Taís Araújo e o fotógrafo nonagenário German Lorca? E entre a médica de Campina Grande (PB) Adriana Melo e o atleta de paracanoagem Fernando Fernandes? Os quatro, de alguma forma, impactaram positivamente a sociedade brasileira. Eles e outras sete pessoas de áreas como direitos humanos, gastronomia, fotografia, artes plásticas, esportes e medicina foram homenageados na 10ª edição do Prêmio Trip Transformadores, patrocinado pela Coca-Cola Brasil e realizado na última segunda-feira (8/11), no Auditório do Ibirapuera, em São Paulo.

Paulo Lima, fundador e editor da Trip Editora, abriu a noite com um retrospecto da trajetória e dos propósitos da premiação. "O prêmio surgiu há uma década, quando a Trip comemorava seus 20 anos. Na época, achávamos que seria difícil encontrar personagens relevantes socialmente para futuras edições", relembra Lima. "O que mais há no Brasil hoje são pessoas que se doam, de diferentes classes sociais. Queremos dar visibilidade a quem faz diferença na sociedade e aos seus trabalhos. Precisamos difundir o conceito de interdependência. É difícil uma pessoa sair desse auditório do mesmo jeito que entrou, são histórias muito inspiradoras", disse ao Journey.

Uma dessas histórias é de Adriana Melo, a primeira médica a associar o vírus da zika à microcefalia em bebês. A servidora pública de Campina Grande disse que a homenagem é um estímulo para continuar sua pesquisa sobre a doença. "Me sinto honrada. Na verdade, quem merece esse prêmio são as mães guerreiras que fizeram o possível para que a gente pudesse entender essa doença, se doando para pesquisas", comentou, emocionada.

Taís Araújo

A atriz Taís Araújo foi homenageada por sua batalha contra o preconceito racial

Caio Ferrari

Taís Araújo foi a primeira protagonista negra de uma novela da Rede Globo e é casada com Lázaro Ramos, outro ator de destaque, com quem tem dois filhos. Mas ter uma carreira estelar na TV não a poupou de ser alvo de racismo. Em 2015, ao postar uma foto pessoal na internet, recebeu ofensas preconceituosas, respondeu e decidiu ir à Justiça para punir os culpados. O processo ainda não teve conclusão. Ao lado da jornalista Adriana Couto, a vice-presidente de Relações Corporativas da Coca-Cola Brasil, Claudia Lorenzo, entregou o prêmio a Taís por sua batalha contra o preconceito racial.

"É a causa da minha vida. Sou negra, mãe de dois negros e casada com um negro. O primeiro passo é assumir o preconceito e discutir isso. Não existe solução, mas há um caminho: o respeito. Já vejo uma melhora, mas ainda existe um abismo gigante. O mundo para os meus filhos vai ser melhor do que foi para mim, mas ainda não vai ser o ideal", afirmou a atriz ao Journey. No palco, já com o troféu nas mãos, Taís ainda fez outros agradecimentos: "Esse prêmio não é só meu porque nunca estive sozinha. É de cada mulher negra e de cada homem negro. É de todos que de alguma forma lutam contra o preconceito".

'O primeiro passo é assumir o preconceito e discutir isso. Não existe solução, mas há um caminho: o respeito. Já vejo uma melhora, mas ainda existe um abismo gigante', Taís Araújo.


Aplaudido pela plateia de pé, German Lorca recebeu o prêmio pelo conjunto de sua carreira. Aos 94 anos, ele é o único fotógrafo brasileiro vivo a ter sete obras expostas no acervo permanente do Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMa), além de seguir na ativa com uma mostra no Sesc Pompeia e outra a caminho para 2017. "Comecei aos 12 anos de idade. São muitos anos de vida e de profissão. Vou fazer mais uma exposição e me aposentar. Ganhei vários prêmios, trabalhei em todos os setores da fotografia: publicidade, social, industrial, até em casamentos. Estou muito satisfeito com minha trajetória e de ter registrado tantos momentos da História para mantê-la viva", disse o fotógrafo.

O esporte é um dos grandes responsáveis pela inclusão. Foi pensando nisso que Fernando Fernandes, após sofrer um acidente de carro que o impossibilitou de andar novamente, decidiu praticar a canoagem. Hoje atleta paralímpico consagrado, ele comanda um instituto que busca promover inclusão, com 12 mil pessoas já atendidas. Ele recebeu o prêmio das mãos de dois ídolos do esporte: Flavio Canto e Lars Grael. Ex-judoca e medalhista olímpico, que também já foi homenageado pela Trip Transformadores, Canto comentou que "o esporte é democrático, traz autoestima e autoconfiança". E foi seguindo essa ideia que Fernandes declarou: "Comecei a ver o peso que a minha profissão tinha para a sociedade. Percebi que mudando a minha postura, eu também poderia ajudar quem está ao redor. Esse prêmio é a melhor medalha de ouro que já ganhei na minha vida. Já ganhei muitas como atleta, mas essa representa a minha vitória como ser humano. Essa homenagem dá um pique para fazer ainda mais pelo coletivo".

Prêmio Trip Transformadores

Sandra Annenberg afirmou estar feliz de entregar seu prêmio a Luiz Alberto Mendes, ex-presidiário que virou escritor

Caio Ferrari


A jornalista e âncora do "Jornal Hoje", Sandra Annenberg, afirmou estar feliz de entregar seu prêmio a Luiz Alberto Mendes, por se tratar de uma história que a inspirou pessoalmente: "Me emocionou porque ele superou o sistema carcerário. De ex-presidiário virou escritor e mudou o cenário ao seu redor. Preciso ler os livros dele". Mendes cumpriu pena de 31 anos e está livre há 13. Ainda na prisão, aprendeu a ler e já tem seis livros publicados, além de ser colunista da Trip. Um deles, "Memórias de um sobrevivente" (Cia das Letras), foi finalista do prêmio Jabuti.

"Eles me condenaram, e eu tinha que viver. O que mais eu poderia fazer? Era uma questão de decisão. Os meus valores não serviam para a vida social. Então passei a fazer uma mudança na minha vida. Aprendi a ler, a escrever e passei a dar aulas na cadeia. Mas já estou livre há 13 anos e até hoje sou chamado de ex-presidiário", desabafou Mendes.

Também foram premiados Antonio Moraes Neto e Daniel Izzo, do Vox Capital, um fundo de investimento impacto social; Hans Dieter Temp, fundador da ONG Cidades sem Fome; a paraibana Marinalva Dantas, por sua luta para acabar com o trabalho escravo e infantil no Brasil; a cineasta Estela Renner, que produz documentários de cunho educativo sobre a infância, com assuntos e debates relevantes, como a obesidade; e a artista plástica Berna Reale.

Entre as premiações, houve ainda apresentações de dança e música. Sidney Magal, Leny Andrade e Nãnan Matos fizeram números individuais e encerraram a festa cantando juntos "Chega de saudade", de Tom Jobim, enquanto a Cia Base de dança contemporânea fazia performances.