Um dia acordei me sentindo um pouco triste com o céu cinza e estressante de São Paulo. Sempre acreditei que apenas duas coisas são problemas reais na vida: questões de saúde ou morte. Se o seu “problema” não está relacionado a um desses assuntos, levante-se e enfrente a vida com a melhor maquiagem que você pode usar: um enorme sorriso! Comecei a praticar meditação e decidi que era hora de realizar um sonho, em vez de ficar observando o céu cinzento. Chequei minha “lista de coisas para fazer antes de morrer” (sim, eu tenho uma que atualizo sempre) e percebi que era o momento perfeito para viver um dos meus maiores sonhos: ser paraquedista!


Desde o meu primeiro salto tandem (aquele que você salta com um paraquedista profissional) em Brasília, em 2009, eu não consegui parar de sonhar ser paraquedista. Na época saltei com um grande amigo que era bombeiro e paraquedista. Quando pousamos, a primeira coisa que ele disse foi: “Garota, você não tem medo, não? Eu não acredito no quão calma e feliz você ficou todo o tempo. Você nasceu para ser paraquedista. Você tem que ser paraquedista!”. Nem preciso dizer que, desde então, não tive dúvidas de que meu lugar era no céu.

Sonhos começando a levantar voo

Dois anos depois desse primeiro salto, eu finalmente decidi que era hora de realizar meu grande sonho. Me lembro como se fosse hoje. A capital do paraquedismo no Brasil é Boituva, que fica a uma hora de carro de São Paulo. Fiz uma pesquisa extensa no Google sobre as melhores escolas para um curso de Queda Livre Acelerada (AFF) e marquei logo minha primeira aula teórica. Na semana seguinte ao curso, já estava pronta para praticar o primeiro nível, saltando com o meu próprio paraquedas (ok, eu recebi ajuda de dois instrutores para sair do avião, mas, no momento em que meu paraquedas abriu, era só eu, eu mesma, e o equipamento de rádio que me auxiliou no meu primeiro pouso).



É muito difícil resumir o que eu senti durante esta primeira experiência. Foi incrível lidar com as “borboletas” dentro do meu estômago enquanto o avião levantava voo e, ao mesmo tempo, ficar ciente e consciente de todos os passos que eu precisava realizar durante o salto para completar o nível I. Amei ficar na porta do avião. Chorei de felicidade quando o meu paraquedas abriu. Meu primeiro voo sozinha foi repleto de gratidão e satisfação. Por último, mas não menos importante, quando meus pés tocaram o chão pela primeira vez eu só pude agradecer, agradecer e agradecer por a vida ser tão incrível. Foi uma mistura de realização e orgulho, mas, ao mesmo tempo, eu sabia que ainda tinha um longo caminho a percorrer e que, na vida, não importa onde chegamos, estamos sempre aprendendo.

Quanto mais eu avançava nos níveis do curso (oito, no total), mais eu aproveitava meus momentos e aprendia que a vida é realmente uma jornada, não um destino. Então decidi que não queria apressar o fim do processo, porque, na verdade, eu estava ali para aprender sobre mim mesma e para sentir emoções cruas como medo, ansiedade, adrenalina e, especialmente, como a vida pode ser surpreendente quando você consegue superar algo – não importa o quê! Ser paraquedista, na verdade, acabou se tornando secundário naquele momento.

Cinquenta saltos e contando…

Minha paixão por voar foi crescendo cada dia mais. Eu amava saltar e, sem dúvida, foi o momento mais incrível e transcendental da minha vida: o medo se tornou uma abstração. Meu processo de aprendizagem foi tão intenso que a única coisa em que eu conseguia pensar naquela época era em quando eu poderia programar o meu próximo salto. Acabei saltando mais de 50 vezes e fiquei tão profundamente envolvida com o estilo de vida do paraquedismo que pensei seriamente em largar tudo para me tornar uma paraquedista profissional.


Aprendi na prática algumas lições muito importantes que já conhecia na teoria – eu sempre brinco que eu poderia escrever um livro sobre “paraquedismo e filosofia”. Para ser um grande paraquedista você deve manter três princípios básicos em mente: em primeiro lugar, você só consegue cair corretamente em queda livre se você fixar o olhar em um ponto específico no horizonte (sim, é possível fazer isso caindo a 250 km/h). Em segundo lugar, você precisa relaxar seu corpo durante a queda livre, ou ficará balançando o tempo todo. Em terceiro lugar, você precisa sorrir e aproveitar a jornada.

Assim como em qualquer desafio da vida, temos que olhar o horizonte lá na frente, temos que ter uma referência e precisamos ser amigáveis e agradáveis não só com as pessoas ao nosso redor, mas principalmente com nós mesmos. Quando percebemos isso e incorporamos essas atitudes em nosso dia a dia, aprendemos o que é realmente importante na vida. E milagres começam a acontecer porque você simplesmente compreende que nada pode parar alguém que está realmente preparado e, ao mesmo tempo, é humilde o suficiente para saber que, na verdade, não está no controle de nada. O único poder que realmente temos é o de fazer o bem e o de ser uma boa pessoa. Como Steve Jobs diz: “Lembrar que você vai morrer é a melhor maneira que eu conheço para evitar a armadilha de pensar que você tem algo a perder. Você já está nu. Não existe razão para não seguir o seu coração”.


Avante, para cima e para dentro!

Em um certo momento percebi que a minha vida “real” na área de relações governamentais na Coca-Cola Brasil era igualmente impressionante e cheia de adrenalina. Na verdade, aqui na companhia nunca sabemos quando os nossos paraquedas vão se abrir – assim como na vida. E a única coisa que posso dizer é que a mesma paixão que me levou à minha “vida no céu” é a mesma que continua aqui dentro do meu coração.

Citando Jobs mais uma vez, “nós só podemos ligar os pontos olhando para trás”. Li um excelente livro da Arianna Huffington, “A terceira medida do sucesso”. Foi maravilhoso perceber que a minha entrada para a terceira métrica citada pela autora foi a minha jornada como paraquedista. Desde então ampliei minha perspectiva sobre o que realmente importa na minha vida.



Durante a queda livre aprendi os verdadeiros significados de “mindfulness/heartfulness" e tenho levado uma vida muito mais saudável, equilibrada e com significado. Como ela diz, “encontre seu lugar – seu lugar de sabedoria, paz e força. E, a partir desse lugar, refaça o mundo à sua própria imagem, de acordo com sua própria definição de sucesso, de modo que todos nós, homens e mulheres, possamos prosperar e viver nossas vidas com mais graça, mais alegria, mais compaixão, mais gratidão, e, sim, mais amor. Avante, para cima e para dentro!”.

Portanto, escolha os aviões nos quais você quer entrar, se jogue deles, relaxe, sorria e tenha confiança de que seu paraquedas sempre vai abrir. A vida é muito curta para se ser tão sério: seja grato e viva-a ao máximo!

*Giovana Araújo é gerente de Governo e Alianças Estratégicas da Coca-Cola Brasil