Quando você mata a sua sede e descarta a latinha da bebida que consumiu, ela cai num longo ciclo virtuoso: é coletada, passa pela reciclagem, pela fabricação do alumínio, por fabricantes de latas de bebidas, envasadores e vendedores, até chegar novamente às suas mãos na forma de um novo refrigerante, de um suco etc. Este processo, que gera emprego, renda e preserva o meio ambiente, é um dos exemplos mais bem-sucedidos de economia circular. No Brasil, 97% das latas de bebidas consumidas retornam à indústria para reciclagem, um dos maiores índices mundiais.

Em uma visita à fábrica Novelis, líder na fabricação de laminados de alumínio, é possível observar, na prática, todo o processo de reciclagem de uma latinha. Nesse modelo de ciclo fechado, há menos perdas e maior reaproveitamento de materiais no processo de produção, o que é valioso para preservar os recursos naturais num mundo com 7 bilhões de pessoas — devendo chegar a 9 bilhões até 2050.

“O conceito da economia circular confronta a lógica da economia tradicional do último século, que é linear, ou seja, os produtos são feitos a partir de recursos naturais, vendidos, consumidos e suas embalagens são descartadas na forma de resíduos”, explica a gerente de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil, Thais Vojvodic. “No entanto, a lógica linear é prejudicial a longo prazo, em termos ambientais e econômicos, justamente porque prevê perdas ao longo de toda a cadeia: encara recursos naturais como infinitos, gera resíduos e desperdiça materiais que poderiam ser reaproveitáveis. Garrafas PET e latas de alumínio, por exemplo, são 100% reaproveitáveis; se são descartadas de forma incorreta, estamos todos perdendo dinheiro e causando danos ambientais.”

Não foi um engenheiro ou um ambientalista que cunhou o conceito de economia circular. A ideia partiu da velejadora Ellen MacArthur, que, em 2005, bateu o recorde mundial de circunavegação do planeta, alcançando o feito em 72 dias. Durante todos aqueles dias sozinha, no mar, Ellen teve uma epifania: ela se deu conta de que seus recursos eram finitos e deveriam ser reaproveitados ao máximo, porque não poderiam ser repostos. Exatamente como no planeta Terra. De volta à terra firme, Ellen se dedicou a estudar o assunto, criando a fundação que leva seu nome.

“Na economia circular, a ideia é pensarmos o modelo de negócio, os materiais, os componentes, o produto, de forma a eliminar completamente a noção de resíduo desde o início”, explica Luisa Santiago, da Fundação Ellen MacArthur. “A lógica da economia circular é justamente a de evitar ao máximo as perdas na cadeia, reaproveitar tudo, de forma a aumentar a eficiência econômica do processo e reduzir o impacto ambiental dos descartes; ou seja, repensar toda a cadeia, desde o desenho da embalagem até o seu descarte. Esse é o pano de fundo de toda a estratégia de embalagens da Coca-Cola Brasil”, resume Thais.

‘A lógica da economia circular é justamente a de evitar ao máximo as perdas na cadeia, reaproveitar tudo’ – Thais Vojvodic, gerente de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil

Primeira parada: catadores

Ao ser descartada, a latinha é coletada pelos serviços de limpeza urbana ou por catadores e triadas em cooperativas. “Trabalhamos com 50 pessoas e reunimos de 80 a 90 toneladas de material para reciclagem, não apenas latinhas, por mês”, conta Cristiano Gonçalves Cardoso, do Recifavela, uma cooperativa de reciclagem da Vila Prudente, a mais antiga comunidade de São Paulo. “O nosso objetivo é dar oportunidade de trabalho a pessoas em situação de risco”, explica Cardoso, que tem entre os cooperados, além de moradores da comunidade, refugiados do Congo, da Guiné e do Haiti. Cada um recebe, ao menos, um salário mínimo por mês.

Das cooperativas, as latas seguem para os centros de coleta da Novelis.

Segunda parada: o caminho para a fábrica

A Novelis tem oito centros de coleta de sucata espalhados pelo país – cada um deles com a capacidade de processar 700 toneladas de sucata por mês - que enviam latas diretamente às instalações da fábrica em Pindamonhangaba, no estado de São Paulo. Lá são recicladas a grande maioria das latas de alumínio recuperadas em todo o Brasil — a fábrica tem capacidade de reciclar mensalmente 300 mil toneladas de sucata.

A fila a perder de vista de caminhões repletos de latinhas na porta da fábrica dá a dimensão do tamanho da operação. O dia de trabalho acaba de começar e já são dezenas de veículos esperando a vez de descarregar os fardos — grandes pacotes de até um metro de comprimento, com centenas de latinhas prensadas

“Todo o processo é muito bom sob os aspectos social, econômico e também ambiental”, explica o diretor da fábrica de Pindamonhangaba, Daniel Freitas. Além de gerar empregos – são pelo menos 250 mil pessoas envolvidas na reciclagem do alumínio, segundo a Associação Brasileira do Alumínio –, a reciclagem economiza nada menos que 95% da energia utilizada na produção do alumínio primário, o que tem um impacto significativo no meio ambiente. Em 2015, somente a etapa de coleta (compra de latas usadas) injetou cerca de R$ 730 milhões na economia nacional.

Terceira parada: preparação

A primeira etapa de todo o processo de reciclagem começa no centro de coleta (dentro da fábrica), onde as latinhas são separadas — o desenfardamento. Nessa fase, tudo o que não é alumínio (e eventualmente veio parar ali) é retirado com o auxílio de uma esteira e, eventualmente, manualmente.

As latas seguem, então, para uma máquina onde são lavadas e ficam livres de outros resíduos, como areia, terra e líquidos. Um outro equipamento retira o verniz utilizado na impressão dos rótulos

Quarta parada: forno

Neste ponto, as latas já estão prontas para irem ao forno, a temperaturas que chegam a inacreditáveis 760º Celsius, transformando-se em alumínio líquido e, logo depois, em gigantescas placas.

O processo de reciclagem utiliza apenas 5% da energia elétrica e libera somente 5% das emissões de gás de efeito estufa quando comparado com a produção de alumínio primário, segundo dados do International Aluminium Institute. Além disso, poupa-se a extração da bauxita, matéria-prima do alumínio e a questão sobre o que fazer com as latas descartadas é resolvida. Em 2015, por exemplo, o país reciclou 602 mil toneladas de alumínio. Desse total, 292,5 mil toneladas são referentes à sucata de latas de alumínio para bebidas.

Quinta parada: lâminas e bobinas

As placas de alumínio são novamente aquecidas e laminadas várias vezes, como numa gigantesca máquina de produzir macarrão, tornando-as cada vez mais finas. São as lâminas de alumínio que chegam a até 10 quilômetros de extensão e poucos milímetros de espessura e, ao final, são enroladas em imensas bobinas. São essas bobinas que seguem para as fábricas de embalagem para voltarem a se transformar em latinhas.

“Além de todas as outras vantagens, o alumínio pode ser reciclado de forma infinita”, diz Freire: “É diferente de outros materiais que até podem ser reciclados, mas não voltam 100% a sua forma original. Já o alumínio não perde as suas características. Por isso a lata é um grande caso de sucesso”, comemora.

Ainda há um longo caminho a percorrer, é certo. Mas o exemplo das latinhas está aí para provar que sempre é possível avançar. De mão em mão. De lata em lata.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico