O derradeiro domingo da primavera de 2016 amanheceu com cara e temperatura de verão, para emoldurar uma jornada de reconstrução mata (urbana) adentro. Um grupo de brasileiros se uniu para realizar o plantio de mudas em um trecho incendiado da Floresta da Tijuca, uma das belezas supremas do Rio de Janeiro.


A iniciativa, chamada Dá Pé, reuniu cerca de cem pessoas na manhã do dia 18, para, a uma semana do Natal, presentear a floresta com novas mudas numa área de 1,5 hectare (algo como um campo e meio de futebol), no Morro do Visconde. Diante da vista espetacular do Mirante da Cascatinha, vão crescer exemplares de árvores típicas da Mata Atlântica, como pau-viola, orelha-de-nego, pau-ferro, jequitibá.

Ainda dá tempo de contribuir para o reflorestamento da área comprando uma muda na plataforma de crowdfunding do Dá Pé, por R$ 20, até o dia 23. Quem “patrocina” a mudinha ainda garante sua manutenção por cinco anos. A meta é plantar três mil mudas na área danificada pelo incêndio na Floresta da Tijuca e assegurar mais 17 mil plantas às margens do Rio Una, no Vale do Paraíba do Sul, no estado de São Paulo, e em áreas próximas, nas quais há nascentes e olhos d’água que formam esse rio. A Coca-Cola Brasil apoiou a campanha do Dá Pé do ano passado mas, agora, participa com um diferencial: a cada árvore que você plantar com a sua doação, a empresa planta outra, até chegar a cinco mil árvores.

Destruído por um incêndio e hoje tomado de capim-navalha, espécie oportunista que destrói a vegetação nativa, o trecho em recuperação fica no fim de um quilômetro de trilha, a partir do Centro de Visitantes. O grupo participante do replantio se divertiu no cenário improvável e exuberante da Mata Atlântica, plantando algumas das 4 mil mudas necessárias à reconstituição daquela área. Assim, os voluntários se tornaram jardineiros por um dia, dando continuidade ao trabalho de reflorestamento da Floresta da Tijuca que começou no tempo do Império – já no século XIX a floresta estava devastada. Criador do Dá Pé, o diretor e produtor de cinema Estevão Ciavatta festejou o trabalho bem-sucedido. “Além de criar consciência pela comunicação, buscamos ação mais literal e objetiva. Daí, a ideia de plantar”, explicou ele.

O Dá Pé nasceu nos 15 anos do “Um pé de quê?”, programa criado por Estevão no Canal Futura, e apresentado por sua mulher, Regina Casé. Em 2015, com a parceria da Coca-Cola Brasil, foram plantadas 20 mil árvores e, via redes sociais, 3,8 milhões de pessoas receberam alertas sobre a relação do desmatamento com a crise hídrica e a poluição do ar. "Agora, vai haver financiamento coletivo, para que mais pessoas participem do plantio e deem, assim, uma contribuição concreta ao meio ambiente", planejou ele.

No domingo, os "jardineiros" voluntários já plantaram parte das mudas doadas pela iniciativa, vencendo a lama deixada pela chuva da véspera. Quando chegaram ao destino, plantaram dezenas de mudas, que serão monitoradas pelos voluntários e funcionários do Parque Nacional da Tijuca. “Precisamos tomar conta para que o capim não se espalhe novamente”, comentou o biólogo João Felipe Martins, um dos responsáveis pela conservação da floresta, confiante na recuperação do trecho.

Se depender da mobilização dos arregimentados pelo Dá Pé, o capim-navalha vai levar uma goleada. “A família aqui planta unida”, brincou Regina Casé, sentada na terra, com uma muda de ipê-rosa a caminho da “cova” (o buraco no chão onde ficará a futura árvore). A seu lado, Roque, o filho caçula, não parava quieto, animado com a brincadeira inédita.

“A melhor forma de proteger o parque é ter mais e mais pessoas envolvidas com ele”, argumentou Mário Mantovani, da SOS Mata Atlântica, ONG que supervisionou o trabalho de reflorestamento. “Durante muito tempo, a floresta foi lugar de medo e mistério, cenário de histórias folclóricas, de bruxas e seres mitológicos. Hoje, o entendimento mudou e temos de mobilizar mais gente para sua conservação”.

Além de frutas, ar puro e beleza, a mata também oferece poesia. A documentarista Raquel Valadares, que participou da aventura de domingo, revisitou uma história familiar. “Peguei uma muda e, quando fui ver, era um jequitibá”, contou ela, referindo-se à árvore vigorosa, sinônimo de força e longevidade. “Foi o símbolo do aniversário de cem anos da minha avó, que comemorou bodas de jequitibá, algo muito raro”, completou, num sorriso sereno e agradecido pelo presente (mais um) dado pela floresta.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico