Na teoria, as empresas estão sempre abertas ao diálogo e a receber opiniões variadas sobre suas condutas. Na prática, porém, construir um diálogo franco, aberto a contribuições da sociedade é um dos grandes desafios de comunicação da vida corporativa. Depois de morar na Índia e trabalhar com projetos de desenvolvimento humano no Brasil, Senegal, Portugal e Estados Unidos, a empreendedora social Denise Chaer fundou o Novos Urbanos, uma iniciativa que se dedica justamente a facilitar o diálogo entre a sociedade civil, governo e empresas. Os temas de diálogos são escolhidos a partir da demanda da sociedade. “Não somos uma empresa nem um instituto, o Novos Urbanos é uma plataforma de diálogo para a inovação social. Acreditamos que é a partir do encontro entre atores divergentes que nascem as soluções inovadoras, com potencial de impacto e escala”, explica Denise.

A plataforma promove ciclos de diálogos e laboratórios de inovação social, nos quais, a partir de um tema-base, são reunidas diferentes vozes sobre o tema investigado. Com a Coca-Cola Brasil e outras empresas do setor de alimentos e bebidas, Denise tem promovido diálogos voltados para assuntos de alimentação e nutrição baseados em temas relevantes para o setor, como questões nutricionais, consumo consciente, prevenção da obesidade infantil e restrição da publicidade. “Para produzir um diálogo efetivo, é preciso criar uma jornada com uma agenda prática. Dois ou três encontros isolados não são capazes de construir a confiança necessária para uma colaboração entre diversos setores ou entre agentes de um mesmo setor. Um diálogo profundo, que leve a mudanças efetivas, requer comprometimento com essa jornada”, explica.


A metodologia usada pelo Novos Urbanos para conduzir essas oficinas de diálogo é a Teoria U, uma tecnologia social de aprendizado coletivo idealizada pelo pesquisador Otto Scharmer, doutor em economia e professor do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos. O método, baseado em promover um mergulho profundo, individual e coletivo, sobre determinado tema, engloba as fases Sentir, Presenciar e Realizar, partindo da premissa de que são diferentes pontos de vista que constroem a realidade. Para Denise, abrir um espaço de diálogo requer maturidade: tanto da empresa, que se coloca em um espaço de vulnerabilidade, de escuta, quanto da sociedade, que não deve ficar só na culpabilização. “Enquanto ficarmos procurando culpados, não avançaremos no diálogo e nas soluções”, diz.

‘Enquanto ficarmos procurando culpados, não avançaremos no diálogo e nas soluções’ – Denise Chaer, inovadora social do Novos Urbanos

Por isso, os diálogos fomentados dentro da metodologia não estão a salvo de polêmicas — pelo contrário. A própria Denise precisou se desarmar de seus próprios conceitos e de uma posição mais ativista contra a indústria alimentícia para conduzir as conversas sem fazer julgamentos. O avanço da obesidade e de doenças crônicas ligadas à má alimentação no Brasil tem levado a sociedade a cobrar ações de quem produz alimentos e bebidas com teores mais altos de açúcar, gordura e sal. A última pesquisa do Ministério da Saúde, divulgada em abril de 2017, mostra um total de 18,9 % da população com obesidade, 8,9% sofrendo de diabetes (aumento de 61,8% nos últimos dez anos) e 25,7% dos brasileiros com hipertensão — 14,2% a mais do que em 2006. O quadro torna-se mais preocupante porque o sobrepeso também cresce entre as crianças. Uma das metas do Ministério da Saúde é reduzir o consumo de refrigerantes e sucos artificiais entre a população adulta em no mínimo 30% até 2019.

Esse novo ambiente vai demandar empenho da indústria em abordar questões delicadas, como mudanças no portfólio de produtos e restrição da publicidade e venda de refrigerantes nas escolas, por exemplo. A partir desse diálogo com a sociedade, a Coca-Cola Brasil tomou a iniciativa de retirar os produtos com açúcar adicionado das cantinas escolares em 2016 e, desde 2013, não realiza publicidade voltada ao público infantil. Além disso, nos últimos três anos, 40 bebidas já foram modificadas, incluindo as linhas Del Valle Néctar, Del Valle Frut e guaranás regionais, com o objetivo de reduzir o teor de açúcar dos produtos. “Eu estou me surpreendendo, porque entendo que dialogar é uma decisão em construção na companhia. Dá para sentir o apoio da liderança nesse processo, mesmo sendo uma gigante. Você não consegue pegar um transatlântico e dar um cavalo de pau nele, é preciso tempo para mudar a direção”, reflete.

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Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico