Essa cidade singular chamada Rio de Janeiro é o reino plural não de um, mas de dois carnavais. Blocos e escolas de samba dividem pacificamente o território para mergulhar na alegria que enfeitiça o mundo. Aqui tem festa em dobro!

A celebração em dose dupla ganhou vidas independentes em estilo e ambição, formato e demanda, tamanho e protocolo. Os protagonistas realizam seus espetáculos simultaneamente, com a solitária coincidência determinada pelo calendário. Mangueira, Salgueiro, Beija-Flor, Portela e as outras escolas (perto de 60!) aqui; Simpatia é Quase Amor, Timoneiros da Viola, Bola Preta, Cacique de Ramos e centenas de blocos grandes, médios e pequenos, ali, acolá — e viva a pacata dicotomia do ziriguidum!

A explicação das diferenças parte do conceito — ou como diz aquela antiga rainha de bateria, é cada qual com seu cada qual. As deusas maravilhosas e soberanas da Passarela do Samba empenham-se até a alma numa competição cercada de limites. O show realiza-se sob regras draconianas, com tamanho, tempo e objetivos rigidamente determinados. Agora em 2017, serão aproximadamente 3.500 componentes em cada uma das 12 integrantes da elite do paticumbum, que desfilarão sob tempo cronometrado, em busca das notas dos jurados, no sonho do título a ser revelado na Quarta-Feira de Cinzas.

Na verdade, a passagem pelo altar iluminado dos bambas marca o fim da odisseia. Antes, são meses de ensaios semanais, a confecção de fantasias e alegorias, dedicação xiita em nome do objetivo maior. Na hora, convém não atrasar nem exagerar na bebida, além de, óbvio!, estar com o samba tatuado na alma. Mas experimente perguntar a algum daqueles milhares de artistas se ele cogita abandonar a devoção.

Para decifrar a gênese do espetáculo tão apaixonante que, sozinho, garante identidade única no mundo — a nossa proposta de civilização —, nada melhor do que... um samba! Nem precisa voltar radicalmente no tempo, porque a tradução está “ali” em 1989.

“Ê, Boi Ápis

Lá no Egito, festa de Ísis

Ê Deus Baco, bebe sem mágoa

Você pensa que esse vinho é água

É primavera

Na Lei de Roma

A alegria é que impera

Oh! Que beleza

Máscara negra

No Baile de Veneza”

Os versos do samba de J. Brito, Bujão e Franco para o enredo “Festa profana”, da União da Ilha, listam as referências formadoras das escolas de samba. De Egito, Grécia, Roma e Veneza vieram itens que se uniram ao batuque sincopado dos escravos trazidos d’África. Da mistura, surgiu o cortejo cheio de ritmo e dança que se espalhou subúrbio adentro, para se reunir novamente na avenida, a partir dos anos 1930.

No essencial “Livro de ouro do carnaval brasileiro”, Felipe Ferreira ensina que o evento “exerceu, por diversas razões, papel centralizador e determinante para a formatação da folia nacional”. Naqueles processos, ocorridos nas ruas da então capital do país, as tensões entre a diversão sonhada pela elite e as brincadeiras do povo arremataram a obra. “A partir da primeira década do século XX, a festa carnavalesca carioca tornava-se o local simbólico da folia mestiça, transformando-se em paradigma cultural popular da nação”, retrata o autor, professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) e um dos mais profundos conhecedores do tema no Brasil.

Até hoje — agora com o carnaval de rua, a democrática apoteose que enfeitiça a cidade inteira, em mais de 450 blocos. Democrática e plural, aceita todo mundo, a qualquer hora, de qualquer jeito. Toca de rock a sertanejo, marchinhas e, claro, samba — tudo de graça, no meio da rua, é só “cariocamente” chegar.

Os blocos, explica o historiador Luiz Antonio Simas, ratificam a vocação da cultura popular brasileira e suas manifestações em cortejo. São parentes dos ternos de Reis, das procissões católicas, dos afoxés, da festa de Nossa Senhora do Rosário. Surgiram no Rio de Janeiro da Primeira República, como grupos carnavalescos no meio do caminho entre os ranchos — vistos como manifestações respeitáveis, com enredos, apresentações solenes para presidentes da República e outros poderosos — e os cordões, a tradução do carnaval das “classes perigosas”. “Os blocos nem eram 'respeitáveis' como os ranchos tampouco altamente perigosos e violentos como os cordões”, analisa Simas. “Formavam-se quase espontaneamente, a partir de turmas de bairro, que queriam sair para brincar e eventualmente arrumar alguma confusão”.

Alguns deles transformaram-se em escolas de samba — olha o parentesco aí, gente! — quando decidiram enveredar por uma organização mais rigorosa. Aconteceu com as Baianinhas de Oswaldo Cruz, embrião da Portela, e o Bloco dos Arengueiros, berço da Mangueira.

Todos, blocos e escolas de samba, para materializar o milagre anual da terra encantada dos dois carnavais. Que assim seja, para sempre.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico