Orlando Duque bateu um recorde. Em 1º de julho, completou 64 anos de trabalho na Confeitaria Colombo, patrimônio histórico e artístico do Rio. O último a alcançar tal façanha se aposentou no dia seguinte, o que está fora dos planos desse carioca nascido no bairro da Saúde. Nos salões em estilo art nouveau, ele serviu personalidades como Getúlio Vargas, Tancredo Neves e a Rainha Elizabeth, e viu a transformação da cidade acontecer diante de seus olhos, por cima de bandejas, muitas delas repletas de garrafinhas de Coca-Cola.

“Se eu parar de trabalhar, vou morrer. A Colombo me dá vida e foi aqui que conheci minha mulher. Ela era cliente e, de tanto tomar Coca-Cola, acabou se casando comigo (risos)”, conta ele, já avô de três netos.


A confeitaria foi um dos primeiros estabelecimentos comerciais do Rio a vender o refrigerante logo após a chegada da Coca-Cola ao país, em 1941. Orlando lembra que a bebida chegou à confeitaria pelas mãos de Antônio Ribeiro França, um dos proprietários à época. Dono de uma fazenda em Porto Real, no Sul fluminense, Seu França, como era conhecido, foi vizinho da Companhia Fluminense de Refrigerantes, que engarrafava a bebida. A coincidência ajudou. A família de Seu França comandou a confeitaria até os anos 1990 e ele ainda é homenageado no cardápio com o sanduíche de baguete, brie, peito de peru defumado, geleia de damasco e rúcula.

“Cheguei aqui e a Coca-Cola já ganhava dos outros refrigerantes. Era mais consumida no almoço e lanche. Mas hoje já tem muita gente que pede de manhã, no chá colonial... Virou uma bebida de todos os horários”, atesta o garçom.

Quando a Coca-Cola aportou na Colombo, o hábito era acompanhar as refeições e os lanches com bebidas quentes ou em temperatura ambiente. A maior parte das geladeiras domésticas da época não produzia gelo e era restrita às camadas médias urbanas e à elite – apenas em 1947 foi produzido o primeiro refrigerador brasileiro. Também acreditava-se que alimentos gelados provocavam gripes. Mas, diferentemente dos costumes e crenças da época, a recomendação do fabricante era que o refrigerante fosse consumido gelado.


Um dos primeiros estabelecimentos comerciais cariocas a dispor de energia elétrica, a Colombo estava preparada para atender à demanda. “A Colombo realmente estava na vanguarda da refrigeração, isso porque já havia uma larga experiência com o tratamento dos sorvetes. Foi um diferencial. Na década de 1950, as pessoas não estavam acostumadas a beber água gelada porque havia uma série de preconceitos ligados a doenças, principalmente na garganta e nos dentes, até alterações mentais”, explica o historiador e autor do livro “Confeitaria Colombo – Sabores de uma cidade” (Casa da Palavra), Antonio Edmilson Martins.

A vaca preta e a Colombo

O consumo das garrafinhas de 185ml, conhecidas como Mae West, em referência às curvas do corpo da atriz hollywoodiana, também cresceu impulsionado pela sede por produtos americanos. O cardápio da Colombo era marcado pelo sucesso de pratos como salada Waldorf, coquetel de camarão, filé de frango à Maryland, peru à Califórnia e molho de cranberry. Nas bancas de jornal, as revistas traziam receitas típicas do país, como a coluna “Menus da madame”, da “Revista Seleta”.

“O impacto provocado pela diferença entre as temperaturas do refrigerante gelado com os salgadinhos quentinhos provocava uma bela sensação decorrente da harmonização por contraste. A partir daí, os refrigerantes nacionais, refrescos, sucos de frutas naturais e marmelada dissolvida em água ganharam um novo concorrente”, afirma trecho do livro “Confeitaria Colombo – Sabores de uma cidade”.


No pós-guerra, inspirada nos hábitos de consumo dos Estados Unidos, a Colombo passou a servir milk-shakes à base de sorvete de creme e do refrigerante. A vaca preta era um sucesso, recorda-se Orlando: “É uma pena que a gente não faça mais a vaca preta. Saía muito, a rapaziada adorava. A cuba libre em festas também era muito pedida. De vez em quando, tem gente que pede ainda”.

Atualmente, a Coca-Cola é servida apenas na versão em garrafa de vidro, em sintonia com o estilo retrô da confeitaria. Cerca de 6 mil são consumidas por mês.