“Logo você verá a garrafa que leva alegria mundo afora!”, proclamava uma série de anúncios em jornais de Bagdá em 1950. A maioria desses anúncios mostrava a famosa garrafa de Coca-Cola como peça central para propagar o interesse e a demanda, declarando ao mesmo tempo que a “deliciosa e refrescante Coca-Cola está a caminho de Bagdá”. 

Levar as mundialmente famosas garrafas de Coca-Cola para o Iraque foi um desafio e tanto para Naim Dangoor e Ahmed Safwat, os primeiros engarrafadores de Coca-Cola no país. Eles venceram inúmeras dificuldades para importar a maquinaria de engarrafamento e concluir a construção de seu prédio, perto do centro da cidade de Bagdá.

Naim Dangoor (à esquerda) e Ahmed Safwat, em Nice, França,nos anos 1940.

Por fim os dois conseguiram iniciar as operações, no verão de 1950. As garrafas contour originais que eles encheram traziam gravadas a escrita de Coca-Cola em árabe e em inglês e uma tampinha em que se lia: “Engarrafado no Iraque”. Os anúncios nos jornais após o lançamento declaravam: “Depois de meses de espera, ela está conosco agora!” – uma indicação de que houvera, de fato, um atraso e tanto no lançamento. 

Ironicamente, assim como a icônica garrafa de Coca-Cola, Naim Dangoor é um homem centenário, nascido em Bagdá. Seu filho, David, compartilhou conosco alguns antigos e detalhados planos de negócios de seu pai com os quais ele se deparou durante uma arrumação. Embora saibamos que nos Estados Unidos a Coca-Cola custou um níquel (cinco centavos de dólar) durante mais de setenta anos, os documentos nos dão uma ideia de como o preço de varejo inicial de garrafas de Coca-Cola foi determinado no Iraque.

“Ele estava tentando resolver qual seria o preço de venda ideal para a Coca-Cola”, explicou-me David Dangoor enquanto examinávamos tabelas e gráficos que seu pai desenhou por volta de 1950.

Naim Dangoor sugeriu o preço de 14 fils para uma garrafa deCoca-Cola.

Embora o escritório central da Coca-Cola tenha sugerido 20 fils como preço de varejo, Naim Dangoor concluiu que a venda por 14 fils lhe daria muito mais lucro, com base na previsão de receita estimada antes do lançamento. Muito antes das planilhas de computador, Dangoor criou intricadas tabelas e gráficos para convencer a The Coca-Cola Company de que sua proposta era o caminho certo.

“Você pode ver que ele foi muito metódico ao decidir qual deveria ser o preço”, observou David ao mostrar análises – redigidas a mão – de preços em relação a custo de mercadoria, propaganda, aluguel, imposto predial, salários, refrigeradores, engradados, garrafas e ingredientes.

Talvez seu pai fosse muito metódico devido a seus estudos de engenharia na Universidade de Londres. Nos anos 1930, ele fez uma viagem de cinco dias de Bagdá a Londres para se matricular na universidade, aos 17 anos. Depois de se formar, voltou para o Iraque, onde acabaria fundando a Eastern Industries Ltd. com seu sócio Ahmed Safwat, um colega iraquiano também formado na Universidade de Londres.

Naim Dangoor comemora seu aniversário de cem anos com afamília e os amigos.

Depois de empreendimentos bem-sucedidos em imóveis e manufaturas, os dois decidiram se candidatar a uma franquia de engarrafamento de Coca-Cola no Iraque. A Coca-Cola era relativamente nova na região, tendo sido lançada no Egito em 1946, e no Líbano no mesmo ano do Iraque, em 1950. Na parte de baixo de cada anúncio impresso publicado em jornais do Iraque havia uma observação de que as Eastern Industries Ltd. eram a engarrafadora autorizada da Coca-Cola. Dangoor continuou sendo o responsável pelo engarrafamento de Coca-Cola no Iraque depois dos anos 1950.

Naim Dangoor, judeu, e Ahmed Safwat, muçulmano, conheceram-se num treinamento militar no Iraque. “Imediatamente eles se deram bem e decidiram que tinham de fazer um negócio juntos”, contou David. 

Naim Dangoor, 2015.

Quando analisávamos uma foto em preto e branco de seu pai e do senhor Safwat no fim dos anos 1940, David disse: “Em meu coração, a Coca-Cola era esse símbolo de harmonia comum. A campanha ‘Eu gostaria de ensinar o mundo a cantar’ foi uma coisa e tanto na prática. Não foi apenas um anúncio. Aqui você tinha duas pessoas de comunidades diferentes de mãos dadas, e aqui elas estavam trabalhando juntas por algo que é hoje um símbolo universal. Para eles, a Coca-Cola era o símbolo de uma nova oportunidade. Espero que esse símbolo inspire novas harmonias”.

Aos cem anos, Naim Dangoor ainda se dedica cada vez mais ao trabalho beneficente com foco em educação em Londres, onde ele vive desde meados dos anos 1960. Ele também continuou trabalhando com imóveis, e seus quatro filhos o acompanharam nos negócios.

*Jamal Booker é gerente de comunicação de herança na The Coca-Cola Company.