O chef brasileiro David Hertz, criador da ONG Gastromotiva, conheceu em 2014, durante um evento em Copenhague, o italiano Massimo Bottura, chef número um do mundo segundo a atual lista The World’s 50 Best Restaurants. Lá, foi convidado pelo cozinheiro estrelado a participar do seu projeto de gastronomia social na Expo Milano 2015, o Refettorio Ambrosiano, onde cozinharia para pessoas de baixa renda e em situação de rua de Milão, na Itália. No ano seguinte, depois de participar da experiência, David teve certeza: “Preciso levar essa iniciativa para os Jogos Olímpicos Rio 2016”. A Coca-Cola Brasil apoia o projeto.

Fundada há dez anos por Hertz, a Gastromotiva promove transformações sociais por meio da gastronomia, com cursos profissionalizantes de auxiliar de cozinha para jovens de baixa renda no Rio de Janeiro, São Paulo, Salvador e Cidade do México. A ONG já trabalhou com pessoas em situação de vulnerabilidade social e detentos, mas essa será a primeira vez que atenderá os que estão em situação de rua. Com inauguração no dia 9 de agosto, o Refettorio Gastromotiva oferecerá refeições gratuitas para essa população durante e após os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016. E todo dia haverá um chef diferente cozinhando para os convidados.

“Queria contribuir com o legado dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos e, quando conheci o projeto do Refettorio Ambrosiano, comandado pela ONG Food For Soul, do Massimo, percebi que essa seria minha maneira de ajudar. Então, no fim do ano passado, mandei um e-mail para o Massimo, que topou na hora a ideia. Adaptamos seu conceito e, assim, nasceu o Refettorio Gastromotiva, uma parceria entre as duas organizações", conta Hertz.

O brasileiro só fez um pedido especial para o grande chef: queria que o restaurante tivesse exatamente 108 lugares. “Esse é um número especial em diversas religiões. Representa abundância, vida. Ainda fizemos uma parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, que nos cedeu um imóvel na Rua da Lapa 108”.

Dezenas de chefs renomados e projetos de gastronomia social de todo o mundo vão participar da empreitada, co-organizada pela jornalista de gastronomia Alexandra Forbes. Entre os confirmados estão alguns dos melhores cozinheiros do mundo: Alain Ducasse, Alex Atala, Mauro Colagreco, Quique Dacosta, Renzo Garibaldi, Virgilio Martinez, Andoni Aduriz, Joan Roca, Micha Tsumura e os brasileiros Alex Atala, Claude e Thomas Troisgros, Roberta Sudbrack, Rafa Costa e Silva, Kátia e Bianca Barbosa, Jan Santos, Alberto Landgraf e Felipe Bronze.

Os chefs vão criar menus a partir de ingredientes excedentes da preparação da empresa de alimentação Behind antes de irem para a Vila dos Atletas, Media Center ou para a força de trabalho da Rio 2016. Todas as manhãs, receberão os ingredientes e, na hora, decidirão o menu que será servido no jantar. Dessa forma, a iniciativa faz também um alerta contra o desperdício e estimula o aproveitamento integral dos alimentos, que está no DNA do projeto – refettorio, reficiere em latim, significa refazer ou restaurar.

“É emocionante ajudar a cidade, ajudar quem precisa, poder mudar um pouco a percepção geral do local e da população. A mensagem é: quem quer ajudar, pode e consegue. Tem muita gente passando por dificuldades e a lição do projeto Refettorio Gastromotiva é a de aproveitar o insumo como um todo. Serão usados ingredientes excedentes na produção das refeições. Tudo ainda completamente utilizável e de qualidade. É usar o alimento de forma inteligente”, afirma o chef Thomas Troisgros, animado para colocar a mão na massa.

Alberto Landgraf, outro jovem e renomado chef brasileiro, também não vê a hora de participar da experiência. “Fico muito feliz em colaborar com uma causa tão nobre e em saber que os benefícios serão duradouros. É muito bom fazer parte disso com grandes chefs que admiramos”, comenta Landgraf.

Vale ressaltar que, durante os Jogos, o Refettorio Gastromotiva servirá jantar todos os dias apenas para pessoas em situação de rua já cadastradas no programa. O processo de inscrição foi feito com a ajuda de ONGs que atuam no setor. Para quem não foi cadastrado, a única forma de provar os quitutes preparados pelos chefs é se voluntariar para servir as mesas durante os jantares pelo e-mail voluntarios@gastromotiva.org. Todo dia, sete voluntários trabalharão no salão e poderão, depois do serviço, provar também as refeições preparadas.

A diretora de Categorias da Coca-Cola Brasil, Andrea Mota, conta que a empresa entrou cedo na empreitada: “Acreditamos na ideia desde o primeiro momento. Sabemos da importância de apoiar iniciativas que fomentem uma alimentação digna e equilibrada e o momento dos Jogos Olímpicos é perfeito para trazer luz a esse debate tão relevante para a sociedade brasileira”.

Na quarta-feira 3 de agosto, durante o lançamento do Refettorio, Massimo contou aos jornalistas que, na visão dele, não é um projeto de caridade, mas cultural. “Precisamos de mais lugares que restaurem o corpo e a alma”.

Jovens talentos da Gastromotiva também integrarão a equipe do novo projeto, que, após os Jogos, continuará funcionando na Rua da Lapa por, pelo menos, dez anos, de acordo com a concessão da prefeitura. O local continuará atendendo as pessoas e se tornará também um restaurante-escola com o conceito “pague um almoço e deixe um jantar”. Além disso, vai oferecer workshops sobre alimentação saudável para famílias, merendeiras e gestores de escolas, além de oficinas sobre aproveitamento integral de alimentos.

“Queremos trazer uma transformação social para o bairro e a cidade. O restaurante-escola vai trabalhar com combate ao desperdício, à pobreza, com educação alimentar e ainda oferecendo comida gratuita de qualidade e capacitação para pessoas de baixa renda. Será um legado dos Jogos”, comenta Hertz, ressaltando que a Coca-Cola Brasil foi a primeira empresa a investir no projeto, abrindo as portas para outros investidores.