Quando você ouve falar em Coca-Cola, provavelmente pensa logo em refrigerante, e não em fruta. Mas a Coca-Cola Brasil é um dos maiores compradores de frutas do país. Estamos falando de milhões de quilos por ano! São usadas em sucos, néctares, refrescos, refrigerantes...

Mas como a Coca-Cola Brasil escolhe e compra frutas para os seus produtos? Quem são os agricultores? Qual o caminho entre o pomar em algum lugar do país e o suco no seu copo? Como garantir que a bebida estará livre de defensivos agrícolas e terá sempre o mesmo sabor?

Para conhecer o roteiro percorrido pela imensa quantidade de frutas adquiridas pela Coca-Cola Brasil conversamos com Cyro Fernandes, diretor de Supply Chain da empresa, e com Mauricio de Sá Ferraz, gerente de Planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Leão Alimentos e Bebidas. O nome do cargo em inglês de Fernandes quer dizer que ele cuida das áreas de Logística e Produção na Coca-Cola Brasil. É o responsável pela estratégia de compras de todos os fornecedores, como agricultores, fabricantes de embalagem e transportadores de bebidas, entre outros.


Onde tudo começa: investimento em pequenos produtores

Pequenos e médios produtores são 80% dos fornecedores da cadeia de frutas da Coca-Cola Brasil. Além de comprar, a empresa investe em um trabalho de capacitação e qualificação, criando uma rede de apoio para os agricultores. “Trabalhamos para que os agricultores mais jovens permaneçam no campo, produzindo e gerando riqueza para as comunidades rurais no longo prazo. Sempre orientamos, por exemplo, os fornecedores da Trop Brasil, uma das fábricas de Del valle, para que usem as melhores técnicas agrícolas, para que saibam a quantidade que pretendemos comprar e quanto vamos pagar. Esse processo também nos ajuda, pois temos certeza de que vão entregar a fruta com a qualidade que queremos”, conta Fernandes.

Sá Ferraz ressalta que frutas, de um modo geral, são cultivadas por pequenos agricultores. Às vezes, o pequeno produtor é na realidade um microprodutor. “No caso do maracujá, por exemplo, temos agricultores que cultivam meio hectare de terra. Trabalhamos com uma imensidão de produtores, mais de 20 mil, e é fundamental ter responsabilidade ambiental e social. Fruta amadureceu, tem que colher e vender. Não dá para esperar o preço aumentar ou diminuir. Por isso, garantimos o preço para o agricultor, independentemente do volume da safra”.

Laranja tem uma produção mais profissional, porque o Brasil é um grande produtor. Já maracujá, manga e caju precisam ser acompanhados mais de perto, explica Fernandes: “No caso destas três frutas, compramos apenas de pequenos e médios fornecedores. É gratificante ver o resultado na economia local do nosso trabalho de apoio aos produtores”.

Além de frutas, a Coca-Cola Brasil também compra de agricultores café (uma parte é exportada para o Japão) e sementes de guaraná. O guaraná vem do Amazonas, com predomínio da agricultura familiar. “Os barcos percorrem os rios comprando e recolhendo as sementes. O trabalho que fazemos no Amazonas tem um impacto muito positivo nas comunidades ribeirinhas”, avalia Fernandes.


Controle de qualidade: frutas livres de pesticidas

Todas as frutas utilizadas pela Coca-Cola Brasil em seus produtos são isentas de defensivos agrícolas. “Antes de fabricar qualquer produto, testamos amostras de sucos concentrados, sucos e polpas de cada um dos lotes em um laboratório no Rio de Janeiro. Se tiver resíduo de pesticida, todo o lote daquele fornecedor é descartado”, garante Fernandes.

O Juice Quality Center (Centro de Qualidade de Sucos), ou JQC, é um dos quatro do mundo (os outros ficam nos Estados Unidos, na China e na França). No JQC são testadas amostras de sucos concentrados (quando é retirada a água), sucos e polpas a serem usados nos produtos da Coca-Cola Brasil. No caso da laranja, são examinados também sucos que serão vendidos para outros países. Cada amostra passa por cerca de 200 testes físicos e químicos.

A Coca-Cola tem ainda uma equipe especializada em fazer misturas (blends, no termo em inglês) para nivelar o sabor da fruta e diminuir a acidez, que pode variar de acordo com as chuvas. “A polpa e o suco só entram na nossa fábrica depois que tiverem sido aprovados pelo laboratório”, reforça Sá Ferraz. “Mas não precisamos ter uma fruta com aparência perfeita. Pelo contrário. Incentivamos os agricultores a venderem as mais bonitas para outros compradores, como frutas para serem consumidas frescas. Para nós o importante é a qualidade e o sabor do suco e da polpa”.


Processamento, conservação e planejamento

Assim que a fruta é colhida, tem que ser processada rapidamente. O objetivo é garantir que vai manter as características e não perderá as vitaminas. Somente então a polpa, suco ou suco concentrado começa sua viagem rumo às fábricas. Uma vez lá, a polpa e o suco extraídos podem ser armazenados na temperatura ambiente (sem contato com o ar), resfriado ou congelado, dependendo da fruta. Para a produção de Del Valle, a Coca-Cola Brasil compra polpas e sucos em várias fábricas espalhadas pelo país, incluindo a Trop Brasil, que fica em frente à Leão Alimentos e Bebidas. Ambas estão em Linhares, no Espírito Santo. “De um lado você tem a expectativa do consumidor; do outro, a natureza. A beleza do nosso trabalho está em sincronizar essas duas pontas e oferecer ao consumidor um produto de qualidade. Para isso trabalhamos com uma rede de especialistas locais e globais, temos estoques e fazemos blends”, diz Fernandes. “O objetivo é entregar o que o consumidor quer, mesmo se a natureza não nos for favorável. As safras podem ser diferentes, e a vontade do consumidor também pode mudar. Temos que pensar no longo prazo, e sempre atualizar as projeções”.

Sá Ferraz destaca que as frutas de 2017 não o preocupam. Ele agora está pensando na colheita de 2024: “Trabalhamos com uma frente de oito, dez anos. Fruta é um projeto de longo prazo. Para dar certo, a parceria com os nossos produtores é fundamental”.

E depois que a fruta vira polpa ou suco, o que acontece com o bagaço da laranja? Ou o do maracujá? “O da laranja é transformado em ração para animais. O do maracujá vira composto orgânico para a lavoura da própria fruta”, conta Sá Ferraz.

A laranja é a principal fruta na cesta de compras da Coca-Cola Brasil. Mas a lista inclui também uva, manga, goiaba, maçã, limão, maracujá, caju, abacaxi e pêssego, além de outras em menor quantidade. Elas são usadas em sucos 100%, néctares e refrescos Del Valle e também em refrigerantes como Fanta Laranja, Fanta Uva, Sprite e Schweppes Citrus.

Da gigantesca quantidade de frutas compradas pela empresa, 30% fica no país. Os outros 70% são distribuídos pela The Coca-Cola Company para outros lugares, como Estados Unidos e China, por exemplo. Se for preciso, a Coca-Cola Brasil também importa. Afinal, o objetivo é garantir que o consumidor tenha a sua bebida preferida, independentemente das variações climáticas, que podem prejudicar uma safra. As principais importações são cranberry e pêssego, mas não chegam a 5% do total de frutas comprados pela empresa.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico