Para quem vive em centros urbanos, consumir alimentos fresquinhos – em especial legumes e verduras – pode ser um desafio se você não conhece o melhor feirante ou dia certo do supermercado. De acordo com o Censo de 2010, 84% dos brasileiros vivem em áreas urbanas. Longe da zona rural, o acesso a vegetais recém-colhidos é dificultado. Outro fenômeno é a cultura do desperdício, uma vez que nem sempre conseguimos nos planejar para usar tudo o que compramos naquele dia bom da feira.

Por isso, soluções têm surgido para tentar resolver o problema que especialistas já chamam de “desertos alimentares” – áreas em que o acesso a alimentos frescos é escasso. Uma dessas saídas são as hortas urbanas, que estão ganhando popularidade. Basta ter um terraço, uma varanda, um pátio ou até uma pequena jardineira perto da janela para cultivar temperos, legumes ou verduras.

No entanto, parte das pessoas que plantam alimentos em casa não conseguem consumir tudo o que produzem a acabam com excedente, que geralmente vai para o lixo. Esse era um problema que vez ou outra surgia na cabeça do apresentador Rodrigo Hilbert, que tem uma horta em sua casa e a vontade de doar o que sobra de sua produção. Mas como conectar produtores a pessoas interessadas em receber alimentos frescos? O questionamento levantado por Hilbert inspirou a marca Del Valle e seus parceiros – o grupo FLAGCX, a CI&T e a Niiez – a tentar encontrar uma solução.

Assim nasceu a plataforma FarmSquare: uma ferramenta social que conecta quem tem alimentos para fornecer com quem quer receber. É uma maneira de trocar frutas, verduras e legumes criada para combater o desperdício, melhorar a alimentação e reduzir o deslocamento em busca dos alimentos. E tudo com a ajuda da tecnologia.

Para fazer parte da comunidade FarmSquare basta acessar www.farmsquare.com.br, criar um perfil com informações básicas e começar a navegar. É possível ver as ofertas disponíveis perto de você ou buscar por alimentos específicos, além de, é claro, cadastrar os produtos que planeja doar ou trocar. Dá até para incluir uma foto bacana da sua iguaria. Depois, basta combinar as entregas diretamente com cada membro da comunidade, utilizando um chat. Toda a comunicação entre as duas partes é feita dentro do aplicativo.

O desenvolvimento da ferramenta só foi possível graças a uma colaboração entre empresas e experts em alimentação e inovação. Hilbert inspirou a Del Valle, especialista em frutas e cultivo, que por sua vez chamou a agência CUBOCC, do grupo FLAGCX, para fazer a direção criativa de toda a plataforma, e a CI&T para desenvolver a parte tecnológica. A Niiez foi responsável por divulgar a iniciativa junto a pequenos produtores. O chef David Hertz, fundador da ONG Gastromotiva, também agregou seus conhecimentos sobre desperdício e reutilização de alimentos ao projeto.

“Tem gente que observa de longe e pensa: o que a Coca-Cola Brasil tem a ver com isso? Bom, a companhia é hoje a maior compradora de frutas e polpas do país, trabalhando com diversos produtores e cooperativas. Portanto, é nossa vontade fazer parte das conversas sobre os grandes desafios do país. Ajudar no combate à obesidade, à subnutrição, ao desperdício de alimentos... Tudo isso nos interessa”, diz Andrea Mota, diretora de Estratégia de Categorias da Coca-Cola Brasil. “Para chegarmos a uma solução mais eficiente, chamamos parceiros com várias especialidades. Cada um trouxe seu conhecimento para a discussão, e acredito que conseguimos tornar mais fácil o acesso a frutas e vegetais frescos e encurtar as distâncias entre doadores e receptores”.

Para Roberto Martini, fundador do grupo FLAGCX, as pessoas conectadas dos grandes centros anseiam por uma vida mais equilibrada. “Ao mesmo tempo, é difícil encontrar alimentos frescos e se locomover nessas áreas. Por isso, precisamos pensar constantemente em como tornar as cidades mais sustentáveis e inteligentes”, comenta Martini, que considera a conectividade um bem precioso para contornar esse tipo de problema. “A conectividade está em todo lugar. Como conectar as pessoas certas é o grande desafio. Há gente produzindo alimentos e há quem queira esses produtos, mas uma parte interessada precisa conhecer a outra. Nosso trabalho é criar um canal para ligar essas duas pontas”, define Martini.

Por enquanto, a plataforma está disponível para moradores das cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo, mas a intenção é expandi-lo para outras áreas em breve. Além disso, o FarmSquare continuará a ser aprimorado nos próximos anos, com a entrada de novos usuários, funcionalidades e parceiros. No futuro, a ideia é que sejam feitas também trocas de grande porte entre empresas. Um supermercado, por exemplo, pode doar suas sobras para uma creche próxima.

“Nosso trabalho não terminou com o lançamento da plataforma. Esse foi apenas o primeiro passo”, afirma Leonardo Mattiazzi, vice-presidente de Inovação da CI&T. “Acredito que o FarmSquare irá longe. Para isso, primeiro, vamos garantir o sucesso da plataforma no Rio e em São Paulo. Mais importante do que um grande número de usuários é a concentração deles nos espaços, pois uma pessoa só vai trocar alimentos com outra que esteja perto dela. E se, de cara, ela conseguir efetivar o escambo, vai se sentir estimulada a fazer de novo”.

Mattiazzi tem razão. Julia Lucidi, funcionária da Coca-Cola Brasil, já fez sua primeira permuta e ficou tão empolgada que mal pode esperar pela próxima. Ela trocou uma batata-doce por folhas de capim-limão.

“Meu marido e eu tínhamos acabado de comprar algumas batatas-doces quando descobrimos que ele é alérgico a essa raiz. Então tive a ideia de usar o app para doar uma batata que havia sobrado. Algumas pessoas mostraram interesse, mas uma delas ofereceu um punhado de capim-limão em troca. Gostei da ideia e combinamos a troca. Foi muito fácil a comunicação. Fizemos tudo pelo próprio aplicativo”, conta Julia, especialista de Estratégia de Categorias. “Fiquei muito feliz. É recompensador pensar que algo que ia para o lixo foi aproveitado. E eu ainda ganhei algo em troca!”.

O próximo a ser trocado será um chuchu, já com foto e descrição cadastradas do FarmSquare. Vai um chuchu fresquinho?