Impossível decifrar, naquela mesa sempre à beira do caos (apelidada pelo dono de “bagunçódromo”), no 11º andar do prédio-sede da Coca-Cola Brasil, quanto há de sabedoria. O sorridente despojamento de seu ocupante tampouco fornece pistas — mas não se engane: o homem de gestos mansos e temperamento pacato guarda trajetória admirável, vivida em nome do conhecimento científico.

E agora, com vocês, o “mestre da água”.

Se a vida fosse filme, Sérgio Viegas seria um mutante, com a habilidade de manejar o líquido precioso, fundamental para a existência — dos humanos e da Coca-Cola Brasil. O químico, hoje com 62 anos, além de  especialista em tratamento de água, também desenvolveu na década de 1990 uma fórmula que se tornou padrão para o ajuste da concentração da bebida durante o processo de engarrafamento. Para o orgulho de Viegas, mesmo que o tempo tenha passado e a revolução tecnológica trazido novos equipamentos, mudando completamente a cara da indústria, “a tal fórmula” desenvolvida por ele segue atual, sendo utilizada até hoje pelos fabricantes do Sistema Coca-Cola Brasil.

“Sempre primei pelo perfeccionismo", afirma o mestre, referindo-se à missão preciosa de assegurar a qualidade dos produtos da companhia. “No laboratório de Asseguração de Qualidade, onde comecei minha carreira na Coca-Cola como estagiário, trabalhei por mais de 15 anos na análise de bebidas e no desafio de identificar não-conformidades em matérias-primas ou outros defeitos que pudessem afetar o exigente padrão de qualidade The Coca-Cola Company”.

Com os conhecimentos adquiridos em água, açúcar e em outros produtos auxiliares — como carvão, filtrantes, detergentes, aditivos etc —, somados a muito estudo, Viegas idealizou um programa de melhorias que na década de 90 foi imprescindível para aprimorar os ajustes nos processos de fabricação. Devido ao trabalho desenvolvido, e sobretudo pelo conhecimento em química analítica e industrial, ele começou a viajar pelo país visitando e atendendo os muitos engarrafadores do Sistema.

Numa dessas viagens, desembarcou em Porto Alegre (RS) para ajudar uma fábrica que, às vésperas da inauguração, sofria com problemas técnicos que inviabilizavam o funcionamento da estação de tratamento de água. A empresa responsável pela construção da estrutura decretara falência e seu único engenheiro havia morrido repentinamente.

Diante do inusitado desafio, o “cientista da Coca-Cola” — como também é conhecido —, após se trancar em uma sala e estudar o projeto, propôs uma solução. Com a estratégia de conserto definida e sob orientação de Viegas, a equipe local formada por quatro engenheiros colocou o plano em prática e, em poucos dias, a estação passou a funcionar. “O defeito estava em uma inadequação da estrutura interna e no sistema de mistura rápida”, recorda o químico, que conseguiu virar o jogo com apoio da equipe e deixou por lá uma legião de amigos. “Em Fortaleza, num trabalho semelhante, ganhei até festa com direito a bolo e salgadinhos”, alegra-se ele, num sorriso tímido.

Onde tudo começou

A engenhosidade está no DNA do carioca nascido no Engenho Novo, bairro da Zona Norte da cidade, que, ainda criança, ganhou do pai o apelido de Professor Pardal. O inventor dos quadrinhos define à perfeição a personalidade de Viegas, que, pequeno, era mais interessado em como os brinquedos funcionavam do que em simplesmente usá-los. Filho de um controlador de voo e de uma “guerreira” empreendedora, Viegas cresceu com outros dois irmãos, numa família feliz, na qual o estudo era prioridade absoluta.

Chegou ao laboratório de Asseguração de Qualidade em 1978, enquanto cursava a faculdade de Química. “Foi o tempo em que trabalhar era como fazer poesia”, compara, saudoso da época do Telex e da máquina de escrever. Sua tarefa naquele tempo consistia em avaliar amostras de bebidas coletadas em pontos de venda e dar retorno aos fabricantes sobre a qualidade dos produtos.

Desde sempre, Viegas acostumou-se a uma jornada extra de trabalho. Ficava, por conta própria, pelo menos mais cinco horas diárias no laboratório, noite adentro, para estudar e pesquisar assuntos de natureza técnica. "Fiz muitas experiências. Quase explodi, literalmente, a minha casa", brinca. "Quando eu trabalhava no laboratório da companhia, raramente algum equipamento ia para conserto, pois eu mesmo gostava de fazer a manutenção", lembra Viegas, que guarda, até hoje, num arquivo precioso, todas as suas anotações (à exceção de alguns cadernos, levados com o carro num assalto, anos atrás).

‘Sempre primei pelo perfeccionismo’ — Sérgio Viegas, especialista em tratamento de água

A simplicidade e o jeito modesto são citados como os principais traços da personalidade de Viegas por quem o conhece. Hoje gerente de comercialização de produtos, Pawell Keller foi estagiário do “mestre da água” por mais de dois anos entre 1995 e 1997. Além de uma amizade que vai durar para sempre, ficou a memória da convivência com alguém especial. “Sérgio é um ser humano iluminado, sempre pronto a ajudar de maneira incansável e com sua particular didática professoral”, exalta Keller. “Uma mente brilhante, com conhecimentos analíticos muito profundos”, arremata, lembrando que, nas últimas duas décadas, recorreu ao mestre várias vezes, quando precisou de um “cientista” ou de uma ‘biblioteca ambulante”.

Água+ Acesso: um novo capítulo

O conhecimento vai pautar o novo capítulo da vida de Viegas. No fim de abril, ele se aposentou — ou recomeçou, dependendo do lado que se olha. Em meados de março deste ano, conheceu — em conversa com o diretor de Valor Compartilhado, Pedro Massa — o programa Água+ Acesso, uma aliança da Coca-Cola Brasil com organizações do setor público e da sociedade civil, com objetivo de levar água potável a comunidades. Logo o mestre foi cativado.

Naquela noite, já em casa, reuniu a mulher e as filhas para contar o que pretendia fazer. À Deise, companheira da vida inteira, confidenciou seu projeto: ser voluntário no programa da Coca-Cola Brasil. “Quero servir”, resumiu, e levou ao diretor a decisão já aprovada pela família. “Na verdade, quem está sendo premiado sou eu”, traduz.

Viegas será um dos especialistas responsáveis por avaliar as propostas inscritas no edital da plataforma Movimento Coletivo relacionado ao Água +, que pretende viabilizar soluções inovadoras para o acesso e tratamento de água para consumo. Além disso, acompanhará os projetos-piloto em campo e a capacitação de parceiros. Sorte das comunidades, que receberão água potável com a chancela de um mestre no assunto.

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Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico