A América Latina é uma região rica em água doce. Países como o Brasil, Colômbia e Peru estão entre aqueles com maior disponibilidade de recursos hídricos do planeta. Só que a abundância não garante acesso à água potável e boa. Muito pelo contrário. Dados do Banco Mundial (Bird) apontam para uma realidade alarmante: 106 milhões de latino-americanos não dispõem de banheiro em casa e outros 34 milhões não têm acesso constante a água potável.

As áreas rurais são as mais afetadas, o que faz com que a gestão da água se torne complexa em comunidades com pouca estrutura, como os assentamentos rurais ou nas zonas de periferia das cidades, especialmente aquelas de alta densidade populacional e escassa presença estatal. Em muitas localidades, a água que jorra do chafariz é a opção mais perto de casa, mas sua qualidade não é considerada adequada para o consumo humano.

Gestão comunitária incipiente no país

Para enfrentar o colapso na distribuição na região, cerca de 80 mil organizações, comitês de água ou associações gerenciam os escassos recursos hídricos dos moradores locais na Bolívia, Panamá, Paraguai, Chile... Enquanto nos países vizinhos é expressivo e cada vez maior o número de parceiros envolvidos nos esforços comunitários pelo acesso a água potável; no Brasil, esse movimento, além de incipiente, é invisível. É como se não existissem projetos de gestão comunitária da água em diferentes regiões do país. Só que eles existem, ainda que em número bem menor do que nos países vizinhos, e muitos deles são considerados sofisticados, do ponto de vista do arranjo montado para viabilizar o acesso.

O 1º Encontro Nacional de Gestão Comunitária de Água, realizado em parceria com o Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar), apoiado pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), foi uma forma de tirar estes projetos da invisibilidade – o evento ocorreu sete anos depois da realização do primeiro Encontro Latino-Americano de Gestão Comunitária da Água. “Precisamos mapear o Brasil, identificar os projetos e tirá-los do anonimato. Só assim será possível identificar as iniciativas bem-sucedidas e replicá-las país afora”, comenta a gerente programática da Fundação Avina, Telma Rocha. A entidade atua em 20 países, espalhados pela América Latina e África, articulando parceiros envolvidos em programas de acesso à água.

Tanto aqui quanto nos países vizinhos, a gestão da água em região de escassez hídrica é feita por Organizações Comunitárias de Sistemas de Água e Saneamento, as OCSAS. Constituídas por cidadãos comuns, sem visar ao lucro, e mesmo não contando com habilidades técnicas e o reconhecimento do Estado, essas instituições estão resolvendo um problema de segurança hídrica em pleno século XXI.

Brasil: 35 milhões sem água potável

De acordo com dados do Instituto Trata Brasil, 83,3% dos brasileiros são atendidos com abastecimento de água tratada. Isso significa que cerca de de 35 milhões de habitantes não têm acesso a este recurso.  A situação da coleta de esgoto ainda é pior:  100 milhões de pessoas não dispõem do serviço em suas residências, quase a metade da população. O resultado é uma ocorrência maior de doenças, como diarreia, dengue e leptospirose. Outro estudo do Trata Brasil fez uma comparação entre as dez melhores e as dez piores cidades do ranking do saneamento — também feito pelo instituto — em relação aos casos dessas doenças: nos municípios com menores redes de água e esgoto, os números de internações por diarreias foram 4,06 vezes maiores; por dengue 4,04 vezes superiores. A leptospirose, relacionada a locais com saneamento precário onde os roedores se proliferam, provocou 1.124 internações nas cidades com menor abastecimento de água tratada, enquanto nas dez melhores cidades houve 212 (5,3 vezes menos).

Amazonas: da abundância à escassez

Em comunidades isoladas do Amazonas, onde se encontra 80% das reservas de água doce, a maioria da população ribeirinha da floresta não tem água na torneira para lavar as mãos, beber ou cozinhar. Também não tem água no banheiro para dar descarga, nem chuveiro para tomar banho. As crianças matam a sede com a água do rio, que está duplamente contaminada com esgoto doméstico e resíduos da indústria mineral e da agropecuária.

O projeto Saúde e Alegria, que atua na região do Tapajós desde os anos 1980, construiu poços, instalou placas solares e, hoje, 12 mil pessoas, na região de Santarém, no Pará, passaram a ter acesso à água. Tudo feito em mutirão. Como as comunidades são em áreas de difícil acesso e distantes umas das outras, a opção foi descentralizar o abastecimento, num total de 38 sistemas independentes e com autogestão, feitos com a participação e controle dos moradores.

“Como a distribuição da água no Brasil não é equitativa, precisamos conhecer os projetos de gestão comunitária de água bem sucedidos, com o Sisar e o Saúde e Alegria e replicá-los no país”, conclui Telma.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico