No mundo, a promoção da igualdade de condições de trabalho para as mulheres aumentaria o Produto Interno Bruto (PIB) em US$ 28 trilhões até 2025. De acordo com a consultoria McKinsey, autora do estudo, no caso do Brasil, a economia ganharia US$ 850 bilhões (R$ 2,5 trilhões) nos próximos oito anos, ou um crescimento de 30% do PIB nacional. Apesar de resultados como esses, a igualdade de gênero no mercado do trabalho não é uma realidade. No Brasil, onde 51,4% da população é composta por mulheres, apenas 13,6% dos cargos de liderança são ocupados por elas nas 500 maiores empresas brasileiras, segundo estudo feito pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e pelo Instituto Ethos.

Para entender as barreiras e trocar boas práticas para acelerar essa mudança, 12 empresas se uniram em 2015 para criar o Movimento Mulher 360 (MM360): Coca-Cola Brasil, Bombril, Cargill, DelRio, Diageo, Johnson&Johnson, Natura, Nestlé, Pepsico, Santander, Unilever e Walmart. A estratégia de criar uma associação empresarial independente e sem fins lucrativos é inédita no mundo. Hoje já são 23 empresas signatárias e comprometidas a estimular a igualdade de gênero, abordar maneiras de incorporar a questão na estratégia do negócio, identificar boas práticas que possam ser replicadas e fornecer ferramentas para mensurar avanços.

‘Estamos programando um treinamento no segundo semestre, começando pela liderança, mas com a participação tanto de homens quanto mulheres, pois a agenda da diversidade é de todos’ — Natalia Freire, gerente de Desenvolvimento de Mercado da Coca-Cola Brasil

“A Coca-Cola Brasil é uma das empresas referência no tema, com políticas claras para incentivar a mulher a crescer na carreira. Desde 2014, aumentamos a licença-maternidade e o valor do auxílio-creche, promovemos o sediamento flexível para aumentar a mobilidade e tivemos palestras e treinamentos sobre o assunto. Além do desenvolvimento interno, a companhia também investe em programas sociais que estimulam o trabalho feminino nas comunidades. No último ano, aumentamos a participação de mulheres em níveis sênior e recentemente tivemos a promoção de duas mulheres à vice-presidência, para liderar pilares estratégicos de crescimento, um reconhecimento ao trabalho que já vinham exercendo há anos na empresa”, diz Natalia Freire, gerente de Desenvolvimento de Mercado da Coca-Cola Brasil. Para ela, fazer parte do movimento ajuda a entender quais as práticas que outras empresas estão seguindo e qual está sendo o impacto de cada uma.

Natalia Freire
Para Natalia, fazer parte do movimento ajuda a entender quais as práticas que outras empresas estão seguindo e qual está sendo o impacto de cada uma

Ricardo Matsukawa

Preconceito invisível

Mas, quais fatores ainda impedem que mulheres alcancem posições de liderança? Para Juliana Sztrajtman, diretora da área de Estratégia de Shopper e Canais da Johnson&Johnson e diretora do movimento, o preconceito invisível é uma das principais barreiras a serem superadas. “O enfrentamento desse desafio passa por profundas mudanças culturais e pelo investimento robusto em educação, tanto por parte da iniciativa privada como da pública. Isso significa dar mais incentivos à formação e desenvolvimento das mulheres, implementar políticas que equiparem direitos e deveres, além de, sobretudo, adotar estratégias e práticas empresariais no combate aos vieses de gênero e na promoção da maior representatividade feminina nos cargos de liderança”, ela destaca.

E vários estudos comprovam o que Juliana diz.

Em parceria com a The Female Quotient (TQF), a Unilever, signatária do MM360, realizou, em dezembro de 2016, a pesquisa “The Unstereotyped Mindset” (Pensamento Livre de Estereótipos). O estudo — realizado com mais de 9 mil pessoas de Argentina, Brasil, Estados Unidos, Índia, Indonésia, Quênia, Turquia e Reino Unido, sendo 50% homens e 50% mulheres — mostra que os estereótipos de gênero, as convenções sociais e os vieses inconscientes são os principais obstáculos para acelerar o processo de igualdade de gênero. Segundo o levantamento, enquanto 47% das mulheres afirmam que a distribuição desigual das tarefas domésticas e dos cuidados com os filhos é um obstáculo para a equidade, apenas 36% dos homens concordam com isso. Além disso, 61% dos entrevistados acreditam que as mulheres se distraem, com frequência, por questões relacionadas a família/filhos — a porcentagem cai para 29% em relação aos homens.

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Vieses inconscientes são mecanismos do cérebro que fazem com que as pessoas tomem decisões de forma automática. Ou seja, preferências que ficam escondidas no inconsciente e que influenciam as atitudes, as percepções, os julgamentos e as ações das pessoas sem que elas percebam que estão dando vantagem para um determinado aspecto. Um bom exemplo para ilustrar essa questão é uma pesquisa realizada com professores de uma das mais consagradas universidades nos Estados Unidos. Dois candidatos com formação na área de ciências, um homem e uma mulher, apresentaram o mesmo currículo para uma vaga de gerente de laboratório. Foram avaliados por 127 professores. O resultado da mulher foi pior em todos os quesitos de avaliação e ela recebeu ofertas salariais inferiores.

“Os vieses inconscientes estão presentes no dia a dia e são vieses não apenas de gênero, mas de todas as diversidades (como raça, etnia, orientação sexual etc). Na Coca-Cola Brasil formamos um Comitê “Lideranças para o Futuro” com o objetivo de valorizar e discutir a diversidade na companhia. Estamos programando um treinamento sobre vieses no segundo semestre de 2017, começando pela liderança, mas com a participação tanto de homens quanto mulheres, pois a agenda da diversidade é de todos”, ressalta Natalia.

O cenário da desigualdade em números

E o papel do homem?

Coordenadora de Desenvolvimento Organizacional da Unilever e também diretora do MM360, Barbara Galvão concorda que, tendo em vista que a mudança passa pela transformação na sociedade, os homens não podem ficar de fora desse debate. “Quando falamos em empoderamento, falamos da responsabilidade de homens e mulheres na transformação. Nem todos os homens são machistas, assim como nem todas as mulheres são progressistas. No MM360 e na Unilever discutimos abertamente o papel do homem. Por exemplo, falamos do aumento do tempo da licença-paternidade. Por que, em 2017, eles ainda têm apenas cinco dias de licença [mínimo garantido pela lei federal brasileira] e mulheres e homens se conformam com isso? O empoderamento precisa existir para todos, seja em casa, seja no mercado de trabalho”, destaca Barbara.

“Numa organização, vários aspectos são levados em consideração ao formatar o piso salarial, tais como: experiência, formação, entrega de resultados etc. A grande pergunta que fica — e que temos discutido no MM360 — é: como levar em consideração aspectos individuais sem cair na armadilha dos estereótipos?”, ela questiona.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico