Os números assustam. Uma em cada três brasileiras diz ter sido vítima de violência no último ano. O Brasil é o quinto país no ranking mundial de assassinato de mulheres, por outro lado, é o 85º colocado no índice da igualdade de gênero. Em 2014, mulheres receberam 74,5% do salário dos homens. Já a mulher negra ganha 40% da renda de um homem branco no Brasil. Todos esses índices — apresentados pela representante do escritório da ONU Mulheres no Brasil, Nadine Gasman, em uma palestra na sede da Coca-Cola Brasil, na semana em que se celebrou o Dia Internacional das Mulheres — fazem lembrar por que, muito além de uma comemoração das conquistas das mulheres, o 8 de Março se tornou símbolo da luta por igualdade de gênero.

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Apesar dos avanços dos últimos anos, as mulheres ainda são alvo de violência, assédio e  desigualdade em diferentes âmbitos, ressalta Nadine, que também foi diretora regional da campanha UNA-SE pelo Fim da Violência contra as Mulheres para a América Latina e o Caribe e está no Brasil há três anos. Se continuar nesse ritmo, o Brasil levará 70 anos para alcançar o fim da desigualdade salarial de gênero, por exemplo, de acordo com relatório da Organização Internacional do Trabalho.

“O tema da desigualdade salarial tem sido muito abordado pelas organizações de mulheres, pelas atrizes de Hollywood e outras profissionais da indústria do entretenimento. E precisamos debater sobre igualdade de gênero dentro das empresas. As mulheres jovens correm maior risco de desemprego, por exemplo, as profissionais também têm trabalhos mais precários e ainda há uma diferença grande na distribuição das tarefas domésticas. As mulheres trabalham, em média, 7,5 horas a mais que os homens por semana devido à dupla jornada”, alertou Nadine, citando um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2015, que destaca que as mulheres trabalham 53,6 horas por semana, e os homens, 46,1. “A responsabilidade do trabalho doméstico ainda recai muito sobre as mulheres e impede que elas entrem no mercado de trabalho ou, no mínimo, que elas fiquem muito sobrecarregadas e não possam se desenvolver com a mesma facilidade que um homem”, analisa.

‘Não é só uma questão de justiça, é também um bom negócio para as corporações. Índices comprovam que as empresas que apresentam maior diversidade no seu quadro de funcionários saem-se melhor’ — Nadine Gasman

Nadine apontou, ainda, as desigualdades de gênero e raça no mundo do trabalho. “Em 2015, as mulheres negras representavam 55,6 milhões de brasileiras. O alto grau de exclusão motivado pelo racismo se revela no mercado de trabalho. A renda média de trabalho de uma mulher negra no Brasil é de R$ 1.027,50 contra R$ 1.517,70 de uma mulher branca. A renda média de um homem negro é de R$ 1.256,90 contra R$ 2.262,30 de um homem branco”, disse.

Para Nadine, as soluções para o problema passam pela criação de políticas públicas e de programas que permitam o acesso das mulheres aos empregos. “Não é só uma questão de justiça, é também um bom negócio para as corporações. Índices comprovam que as empresas que apresentam maior diversidade no seu quadro de funcionários saem-se melhor. De acordo com um estudo da consultoria McKinsey, a paridade entre os gêneros elevaria em US$ 12 trilhões o produto interno bruto (PIB) mundial até 2025, podendo chegar a US$ 28 trilhões caso haja perfeita paridade entre homens e mulheres”, explica a representante da ONU Mulheres Brasil.

Os Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs, na sigla em inglês), dos quais a The Coca-Cola Company, em nível global, e a Coca-Cola Brasil são signatárias, são peças-chave nessa batalha pela inserção da mulher no mercado de trabalho. Nesse conjunto de orientações sobre ações práticas estão: estabelecer liderança corporativa sensível à igualdade de gênero; tratar todas as mulheres e homens de forma justa no trabalho; promover políticas de empoderamento das mulheres; e promover a igualdade de gênero através de iniciativas à comunidade; entre outras iniciativas.

Nadine Gasman
Nadine destacou que as mulheres ainda são alvo de violência, assédio e desigualdade em diferentes âmbitos

Zô Guimarães

“Desde que somos crianças, muitas de nós ouvimos que não somos capazes de lidar com números, negócios ou somos levadas a escolher profissões relacionadas ao cuidado com os outros. Além disso, os índices de violência contra as mulheres só reforçam o estereótipo de que nós temos que ficar em casa. Mas, graças aos movimentos de mulheres, estamos quebrando essas barreiras e tomando novos espaços. As meninas de hoje já têm ideias diferentes das que minha avó ou minha mãe tiveram. Todos os espaços têm que ser seguros para nós, e elas sabem disso”, observa Nadine. “Lugar de mulher é onde ela quiser”, completa, citando a frase muito utilizada pelos movimentos feministas.

A PhD em medicina, com doutorado em Gerenciamento e Políticas da Saúde pela Universidade Johns Hopkins, esclareceu que criar políticas de acesso ao mercado de trabalho não significa dar vantagem a uma mulher sobre um homem. “É apenas uma tentativa de tirar algumas barreiras para que elas possam competir em pé de igualdade, porque, atualmente, elas competem com muitas desvantagens, e isso é injusto”, afirmou.

Antes de encerrar a conversa com os funcionários da Coca-Cola Brasil, que trabalha em parceria com a ONU Mulheres para criar políticas de empoderamento feminino na empresa, Nadine deixou um recado para os homens que são líderes de organizações: é preciso pensar nas questões de gênero e raça o tempo todo. “Será que estou dando oportunidades para jovens mulheres e para negras entrarem na minha empresa? Estou capacitando aprendizes? Quando uma mulher fala em uma reunião, ela é ouvida da mesma forma que um homem? Estou abrindo espaço para que elas me digam do que precisam? O que mais posso fazer? Todas essas perguntas precisam habitar a cabeça de quem comanda uma grande companhia”, ressaltou Nadine.

A The Coca-Cola Company tem um Comitê Internacional de Mulheres, com braços em diversos países. No Brasil, um núcleo foi criado em 2012, ano em que a empresa assinou os Princípios de Empoderamento das Mulheres, do Pacto Global e da ONU Mulheres. Hoje, a versão atualizada desse grupo chama-se Liderança para o Futuro e discute questões de gênero, de preconceito racial, de orientação sexual ou contra pessoas com deficiência.