Quando falamos em um mentor, a primeira imagem que vem à cabeça é a de uma pessoa mais experiente, orientando alguém com menos tempo de estrada na profissão — ou na vida. No dicionário, a palavra é definida como “o indivíduo reverenciado como sábio conselheiro e orientador de alguém”. Essa descrição foi virada do avesso no programa de mentoria reversa da Coca-Cola Brasil, criado há dois anos. Na iniciativa, os mentores dos líderes mais experientes são jovens nascidos a partir dos anos 1980, chamados de geração Millennial.

Rino Abbondi, vice-presidente de Técnica e Logística da Coca-Cola Brasil, e Laiz El-Assad, gerente de Marketing, participaram do programa e, durante um ano, tiveram reuniões mensais. Ele, de 50 anos, é formado há 27 em engenharia de produção e está na companhia há 17. Ela, de 26 anos, é formada em administração e começou na empresa como estagiária, há seis anos. “Gosto de ouvir e de interagir com as pessoas. E nem sempre você tem a chance de receber um retorno sincero de alguém com um ponto de vista independente, muito diverso do seu”, diz Rino, que achou interessante não ter uma relação hierárquica com sua mentora. “O fato de ela trazer um ponto de vista diferente e de falar algumas verdades para mim me deixou confortável e seguro de que eu ia tirar algum benefício daquela interação”. Laiz acrescenta: “Essa inversão de papéis ajuda na construção de uma visão mais empática entre os envolvidos, o que tem um poder transformador nas relações de trabalho”.

Aumentar a integração entre as diferentes gerações, estimular um ambiente mais diverso, melhorar a produtividade, entender as aspirações dos jovens no trabalho e na vida, aprimorar a conexão entre os líderes da empresa e o time mais júnior são os principais objetivos dessa mentoria às avessas. A troca foi considerada positiva na primeira fase do programa, entre 2015 e 2016, e uma nova rodada está prevista para começar em 2017. A intenção é que seja um projeto permanente. Já as duplas, não necessariamente.

Mas como começou essa relação entre dois profissionais que só se conheciam de vista, do elevador? Gerente de Talento e Desenvolvimento da Coca-Cola Brasil, Vanessa Stocco conta que a primeira etapa foi apresentar o programa em um evento interno da empresa e fazer o convite a todos: “Quem quisesse participar, preencheria um formulário, com informações sobre suas paixões e expertises. Essas fichas preenchidas ficavam disponíveis para funcionários mais experientes, os futuros mentorados, que as escolhiam de acordo com seus interesses. Assim, foram criadas as duplas”. Entre os cerca de 20 executivos que aceitaram o convite, cinco eram vice-presidentes, como Rino.

Antes do início do programa, os mentores participaram de um workshop preparatório para evitar que o profissional mais experiente, por uma tendência natural, terminasse liderando a conversa. "A ideia era explicar como os mentores deveriam abordar os mentorados, levar proposições e se municiar de alguns cuidados para driblar a possibilidade de que a pessoa mais experiente tomasse conta da situação”, diz Vanessa, acrescentando que cada dupla definiu seu método, sua dinâmica. A duração máxima de mentoria foi de 18 meses.

Rino e Laiz, por exemplo, optaram por reuniões mensais, nas quais ele levava temas que considerava interessantes para seu desenvolvimento pessoal e para melhorar a forma de se relacionar com a equipe. “Um dos pontos abordados foi comunicação. Nós, da área técnica, temos um perfil mais fechado, mais introspectivo. Laiz me deu algumas dicas de como ser mais relaxado e trazer exemplos da minha vida pessoal. Isso faz com que a gente quebre o gelo e humanize mais o papel do líder no dia a dia”, conta o executivo, que sentiu a diferença no relacionamento com os integrantes de sua equipe.


A mentora admite ter ficado um pouco insegura antes de começar. “Eu pensava: o que eu, tão nova, vou agregar para o Rino? Mas assim que tivemos a primeira conversa tudo fluiu muito bem. Acho que ele conseguiu trazer para todos os encontros um tom muito informal. Então nossa relação foi crescendo e o tal frio na barriga passou nos primeiros cinco minutos”.

Após o término da primeira fase do programa, a Coca-Cola Brasil fez uma pesquisa com os participantes para avaliar pontos positivos e o que poderia ser aprimorado. Na opinião deles, foi bom compartilhar casos; ouvir perspectivas de alguém mais jovem, com outra experiência; o aprendizado mútuo; a confiança e transparência; poder abordar qualquer assunto; e o fato de mentores e mentorados de áreas diferentes terem a tendência a uma conversa mais aberta.

“Todos disseram que querem participar novamente. Alguns pretendem manter o mesmo mentor, outros preferem trocar”, diz Vanessa, adiantando que, em 2017, haverá uma plataforma em que os mentores vão se inscrever, e os mentorados irão eleger a sua dupla. A escolha será livre. Haverá uma cartilha com orientações aos mentores, para tornar mais clara a dinâmica do programa. “O sucesso desse processo é alcançado quando o mentorado tem muito claro o que quer da troca com esses jovens, dessa relação. E que ele veja como a perspectiva dessa geração pode ajudar nas tomadas de decisão”.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico