“A desigualdade no Brasil tem cor e, para combatê-la na direção de uma sociedade mais justa, a questão da equidade racial deve ser encarada”. A frase de Selma Moreira, diretora-executiva do Baobá – Fundo para a Equidade Racial, resume o espírito do trabalho que, desde 2011, a instituição vem desenvolvendo. Um dos poucos dedicados ao financiamento de ações que promovam a equidade racial, o Baobá organiza-se como um fundo patrimonial, uma categoria nova no Brasil, mas já bastante disseminada em países como Estados Unidos e Inglaterra, onde são conhecidos como endowment funds.

São entidades para obter e administrar recursos que serão usados para financiar organizações sem fins lucrativos. As universidades americanas Harvard e Yale, por exemplo, têm fundos patrimoniais voltados para a educação, com forte e reconhecida atuação. O Baobá nasceu justamente com o apoio de um endowment fund, a Fundação Kellogg.

“Já investimos em 38 projetos de 20 estados, mas agora, em parceria com a Coca-Cola Brasil, lançamos nosso primeiro edital com foco na promoção da cultura negra, nas suas mais diversas linguagens”, explica a diretora-executiva da entidade.

Edital de R$ 400 mil financiado pela Coca-Cola Brasil foi dividido por dez iniciativas

O “Cultura Negra em Foco”, edital integralmente financiado pela Coca-Cola Brasil, teve como objetivo selecionar organizações para desenvolver projetos inovadores na divulgação da cultura e da identidade negras. “É importante destacar a presença de afrodescendentes na coordenação e no desenvolvimento dos projetos porque faz parte de nossa essência fortalecer o protagonismo. Queremos a população negra na liderança do processo”, diz Selma.

O edital, amplamente divulgado em mais de 30 sites e em redes sociais, teve forte adesão. O montante total para o financiamento dos projetos foi de R$ 400 mil, dividido por dez iniciativas selecionadas segundo rígidos critérios técnicos. O audiovisual foi o segmento que recebeu mais propostas. De acordo com Selma, o número de propostas recebidas superou as expectativas, o que motiva o Baobá a seguir com o trabalho e procurar beneficiar mais pessoas no futuro.

Selma reafirma a importância de patrocínios para que seja atingida a meta de formar um patrimônio de US$ 25 milhões para o Fundo Baobá investir em projetos.

“O compromisso da Fundação Kellogg para a formação do fundo patrimonial é doar R$ 1 para cada R$ 1 que nossa organização venha a captar para investimento para o apoio a projetos, e R$ 2 para cada R$ 1 que conseguir como doação para formar o fundo propriamente dito”, explica Selma. “As estatísticas, os indicadores, tudo aponta para o fato de que a população negra é a mais afetada pela desigualdade no Brasil. Por isso, é fundamental a construção de um fundo patrimonial com esse viés”, afirma a diretora-executiva do Baobá. “Isso é muito importante para dar sustentabilidade às ações porque, com um fundo desse tipo, não ficamos dependentes apenas de verbas públicas ou de empresas para apoiar iniciativas em todo o País”, completa.

No caso da equidade racial, que, mais de um século após a abolição da escravidão no Brasil ainda é uma questão a ser resolvida em seus mais amplos aspectos, as ações realizadas pelo Baobá – Fundo para Equidade Racial vão desde o apoio a grupos quilombolas que lutam pela regularização fundiária de suas terras até projetos que contribuam para conter a evasão de jovens negros do ensino secundário. No caso deste último, um projeto apoiado pelo Baobá em Criciúma, com financiamento privado, foi tão bem-sucedido que está se expandindo da escola onde está sendo executado e deve ser abraçado pela própria secretaria de Educação da cidade.

Processo deve ser mais acessível

Outro aspecto importante refere-se à dificuldade de pequenos grupos, como o de quilombolas situados em áreas distantes de grandes centros urbanos, de participar de editais para obter financiamento. “Essa é uma preocupação que temos, de tornar o processo mais acessível, de modo que os recursos possam ser distribuídos de forma mais equânime”, diz a diretora-executiva do Baobá. Mais uma vitória colhida pela instituição: o apoio dado a um grupo quilombola do Amapá resultou no seu fortalecimento de tal ordem que passaram a trabalhar em conjunto com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) na questão fundiária relativa às terras dessas comunidades. 

A história do Baobá – Fundo para a Equidade Racial, bem como discussões conceituais que dizem respeito à criação de uma organização focada no trabalho de promoção da equidade racial, estão no livro "Memórias do Baobá — raízes e sementes na luta por equidade racial no Brasil". Lançado no dia 3 de junho em São Paulo, o livro está disponível para download no site do Baobá.

Reportagem produzida pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico