Maure Pessanha

Maure Pessanha é diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira em negócios de impacto social no Brasil

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Reunir dois sonhos em um só: contribuir para um mundo mais justo, com chances iguais para todos, e, de quebra, montar o seu próprio negócio. O que soa como utopia para alguns pode se concretizar em três letras: NIS, para os íntimos, ou Negócio de Impacto Social. O negócio de impacto social não deve ser confundido com outras três letras também cheias de boas intenções: ONG, organização sem fins lucrativos. Quem explica a diferença fundamental é Maure Pessanha, diretora-executiva da Artemisia, organização pioneira no fomento dessas iniciativas no país: “Um negócio de impacto social é uma empresa que vende um produto ou um serviço e não depende de doações, como uma ONG. O NIS tem como intenção maior a transformação social, mas também tem um modelo que garante a rentabilidade”, resume, destacando que a Artemisia se baseou não só nos estudos de Yunus, mas também em outros acadêmicos para criar o seu próprio conceito de NIS.

Em 12 anos de atividades, mais de cem empresas voltadas para o impacto social em diversas áreas foram apoiadas pela Artemisia. Atualmente o foco da organização é em negócios dedicados a setores fundamentais para o desenvolvimento social de um país: educação, serviços financeiros, saúde, habitação, empregabilidade, saneamento e infraestrutura, além de sustentabilidade.

“Nos últimos cinco anos foram 79 empresas aceleradas”, destaca Maure, formada em Administração. Hoje, o foco da Artemisia é centrado na trajetória empreendedora, apoiando desde negócios prontos para crescerem rapidamente, via o Programa Aceleradora, àqueles em fase embrionária (nos ‘labs’ de pré-aceleração), além de oferecer um curso on-line sobre NIS para quem quer entender mais sobre o conceito e se inspirar no tema. “Nosso objetivo, nosso sonho, é trabalhar para que todas as pessoas de nosso país tenham poder de escolhas, tenham uma vida plena. Que toda a sociedade possa escolher, por exemplo, entre botar o filho em escola pública ou particular”, define Maure, que, com experiência de mais uma década no trabalho, descomplica cinco pontos sobre os NIS.

‘O negócio de impacto social tem como intenção maior a transformação social, mas também tem um modelo que garante a rentabilidade’


1. Lucro do bem

Numa visão bastante superficial, o objetivo de ganhar dinheiro seria incompatível com ações que melhorem a vida das pessoas de baixa renda. Aí reside a beleza de um negócio de impacto social: lucrar e também fazer a diferença no mundo. “Se não visasse ao lucro, seria uma ONG. Mas é essencial ter esse o foco em causar um impacto social positivo na população de baixa renda”, destaca Maure. Um bom exemplo é a startup Geekie, que desenvolveu uma plataforma de tecnologia de ensino adaptativo que ajuda na preparação dos estudantes que vão fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). “É um professor particular para quem não pode pagar. Para cada escola particular para qual vendem os serviços, oferecem o serviço para uma escola pública”, conta Maure, destacando que a empresa se tornou até uma política pública e é oferecida por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).

2. De boas intenções...

Melhorar a vida da população em situação vulnerável, promover a equidade social para pessoas das classes C, D e E ou preservar o meio ambiente devem estar na gênese do negócio, essa precisa ser a intenção, o objetivo do empreendedor. “A pessoa não pode, por exemplo, querer ganhar dinheiro com a classe C, que está ascendendo. Não funciona assim”, destaca a diretora da Artemisia. Para espelhar o conceito na realidade, uma boa amostra é o Programa Vivenda, que oferece reforma em habitações de comunidades carentes a baixo custo e de forma eficiente. Mais do que o lado estético, as reformas visam à saúde dos moradores, construindo banheiros, melhorando a umidade. “Já são mais de 200 reformas em São Paulo. É um grupo de empreendedores que se apaixonou pela causa da habitação. As pessoas não precisam de casas novas, precisam morar melhor onde elas já vivem. O déficit de qualidade é dez vezes maior do que o de quantidade”, explica Maure.

3. O fim e os meios

O propósito de transformação social ou ambiental deve estar na atividade principal de um NIS, ou seja, quanto mais a empresa vender ou mais clientes tiver, maior será o impacto positivo. Os benefícios podem também surgir dos meios de produção. Mas não vale achar que apenas empregar pessoas das classes C, D e E transforma uma empresa em um negócio de impacto social. “Se fosse só empregar, todas seriam. É algo mais profundo”, alerta Maure. “O impacto está nos valores, em envolver uma comunidade para que seus moradores sejam os donos do negócio, por exemplo. Ou um empreendedor que desenhou um negócio em que a maioria dos funcionários tem alguma deficiência ou que tenham transtornos psiquiátricos graves”, exemplifica.

4. O tabu dos dividendos

A distribuição ou não de dividendos é uma questão de visão sobre o conceito de negócio de impacto social – alguns lugares defendem a divisão de lucros e outros não. Na Artemisia, isso fica a critério do empreendedor.

5. Do local para o mundial

Para gerar impacto social, uma empresa não pode resolver um problema localizado apenas. Esta solução precisa ser passível de ser replicada em outros lugares do país e até do mundo. No universo das startups, isso se chama “potencial de escala”. Um exemplo é o portal Saútil, que nasceu da constatação de um médico de que seus pacientes não sabiam que tinham direito a determinados remédios gratuitamente ou a preços populares. Na plataforma, hoje, basta qualquer paciente escrever o seu CEP para saber qual o local mais próximo para obter o medicamento por baixo custo ou gratuitamente, via Sistema Único de Saúde (SUS).

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico