Foram três dias, 239 palestrantes de 16 nacionalidades, um público total de quase quatro mil pessoas e uma intensa troca de informações. A primeira edição do ColaborAmerica, no Rio de Janeiro, reuniu inovadores sociais e digitais de todo o planeta para discutir as novas economias. O evento foi inspirado no Oui Share, que acontece anualmente em Paris. “Queríamos trazer a discussão para um contexto latino-americano”, diz Manuela Yamada, representante do festival francês no Brasil (com Tomás Lara, do Sistema B), e sócia da MateriaBrasil, uma das realizadoras do evento na capital fluminense. “Nosso desejo era que o evento fosse um ponto de encontro para as pessoas se conhecerem, projetos se relacionarem. E a partir dali a gente visse nascer novas iniciativas, novas empresas ou mesmo novas conexões pessoais”.

Missão cumprida. Até quem não conseguiu ir para o encontro — promovido nos dias 17, 18 e 19 de novembro, no bairro Santo Cristo — pôde participar. “Tivemos muito engajamento via internet, tanto por Facebook quanto por streaming”. A Coca-Cola Brasil, por exemplo, uma das patrocinadoras do ColaborAmerica, transmitiu debates ao vivo para jovens de iniciativas apoiadas pelo Instituto Coca-Cola Brasil, em seis estados. “Depois das palestras, educadores discutiam os temas com os alunos”, conta Manuela.

Entre os convidados da organização do encontro, estavam índios Caiapó, que vieram do Pará. Mas por que ter indígenas em um evento sobre novas economias? A resposta está neste bate-papo com a desenhista industrial de 27 anos, especialista em fabricação responsável. Na entrevista, concedida especialmente para o Journey, Manuela também falou sobre as questões que vêm sendo discutidas por empreendedores na busca por um modelo de desenvolvimento mais consciente e responsável para o mundo.

Manuela Yamada é sócia da Matéria Brasil, uma das realizadoras do evento no Rio

Telma Alvarenga


Por que trazer os índios Caiapó para o ColaborAmerica?

Existe um hype em torno de economia colaborativa, das novas economias... É uma coisa que está muito em voga no momento. Há quem ache que está inventando a roda, só que não é verdade. Principalmente quando você olha para a América Latina, que é um continente riquíssimo em culturas tradicionais, com diversas etnias...  As aldeias indígenas, as vilas de pescadores ribeirinhos e as comunidades aqui do Rio são colaborativas há muito mais tempo. E não é porque está na moda. É porque eles precisam, é a forma como eles vivem. O objetivo de trazer os índios foi para mostrar isso. Vamos ser humildes e olhar para o lado. Se você for em qualquer aldeia, vai ver que não existe alguém que tenha mais da colheita do que outro. Eles tampouco plantam para criar excedente, para estocar. É tudo distribuído entre todos. Dessa maneira, todo mundo tem o que precisa.

E é esse o princípio da economia colaborativa?

O que a economia colaborativa prega é justamente a descentralização, a distribuição. É isso o que a gente fala sobre o paradigma da abundância  X o paradigma da escassez, o acesso X a posse... Eles vivem isso naturalmente, faz parte do modus operandi deles. O homem branco, como eles se referem a nós, com medo de que um dia acabe ou de que “o outro tenha mais que eu”, criou um sistema maluco em que acumula o máximo que pode. Aí, uns concentram e falta para outros, quando na verdade os recursos que a gente tem são suficientes para todos. Isso, de fato, é uma coisa que precisa ser repensada.

E você acredita que isso vá acontecer?

Não é uma coisa simples, acho que não vai acontecer em dois anos, cinco anos, é uma batalha enorme...  Acho que o primeiro passo seria as pessoas entenderem seus locais de privilégio. Eu, Manuela Yamada, só pude fazer o ColaborAmerica  porque nasci branca, classe média, na segunda maior cidade do Brasil. Porque tive dinheiro para ir à Europa e conhecer pessoas. O que eu tenho não é um direito, é um privilégio social.  E, para ter o que tenho, com certeza absoluta, existem pessoas que estão em falta.  Depois de entender isso, você pode refletir sobre o que faz com o seu privilégio.

Como você disse, é um longo caminho. Existiria algum mais curto?

Uma outra opção é que isso vire um padrão por necessidade. E isso eu acho que realmente pode acontecer, em um futuro mais próximo. Em momentos de crise, ao mesmo tempo em que as pessoas têm muito medo e acumulam, elas também se tornam mais solidárias. Porque entendem que está todo mundo no mesmo barco e que ou vamos enfrentar isso juntos ou não vamos conseguir uma saída. Existe um caminho aí, que pode ser bem conduzido pelo coletivo.

E o que prega a economia circular?

Ela diz respeito mais à questão de fabricação,  de produção.  A gente vive – ou acha que vive – em um sistema de produção linear: extrai matéria-prima, manufatura, vende, consome e descarta. Mas não existe esse fim, porque o que você descarta não se desintegra. É isso o que prega a economia circular: vivemos em um ciclo eterno, um looping eterno de produção. Tudo que a gente trata como lixo hoje em dia é matéria-prima. Na MateriaBrasil, por exemplo, damos consultoria para grandes indústrias sobre como implementar ações dentro de suas cadeias produtivas para fechar esse ciclo.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico