GOIÂNIA - Aos 57 anos, a cozinheira Maria de Lourdes Moreira Soares, a Dona Lourdes, é como uma mãe para a Cooperativa dos Catadores de Materiais Recicláveis Meio Ambiente Saudável (Coopermas) de Goiânia. Ela tornou-se integrante da associação depois de descobrir um câncer de mama, aos 40 anos. Como os exames e quimioterapia eram em horário comercial, teve que pedir demissão da empresa em que trabalhava.

A única alternativa de sustento era a cooperativa. A Coopermas foi fundada por Zilda Soares, sua irmã, em 1997, quando ela começou a coletar materiais para vender e comprar cestas básicas e, assim, ajudar pessoas de áreas periféricas da cidade. “Só aqui me permitiram um horário alternativo para continuar o tratamento”, conta Dona Lourdes, que, no início, tinha vergonha de ter a irmã catadora. “Rapidamente percebi que o trabalho (do catador) é tão importante quanto o de um médico, porque previne doenças”, diz ela, que venceu o câncer.

Para Lourdes, cada novo integrante da cooperativa é um integrante a mais na família. Ela é a presidente e também a cozinheira. Mais do que isso, é cuidadosa e bastante exigente com os colegas. Todos os dias, Lourdes chega ao trabalho pouco depois das 5h, ferve água para “passar” o café e separa o feijão. Com mãos firmes, faz a pré-separação dos materiais e, quando preciso, descarrega os caminhões. Por volta das 8h, começa a picar cebola e alho, ao mesmo tempo em que vende, por telefone, centenas de quilos de sucata e alumínio. Quando os associados chegam, a grande casa chamada cooperativa está pronta para acolhê-los.

Nascida a 250 quilômetros de Goiânia, em Pilar de Goiás, Lourdes tem quatro irmãos e outros oito meio-irmãos. A cozinheira criou três filhos biológicos e, hoje, brinca nos fins de semana com sete netos. Já na cooperativa, é "mãe" de mais 13 associados, cinco homens e oito mulheres, que chamam uns aos outros de irmãos. Dona Lourdes explica que esse sentimento de união é fundamental para o sucesso do grupo. “Ninguém é patrão aqui. A cooperativa é como uma família. Temos responsabilidades e direitos iguais. Não tomo decisões sozinha. Somos um coletivo”, explica.


Casa em ordem

Sob sua liderança, a cooperativa aumentou produtividade, segurança e renda dos cooperados. Hoje, a propriedade cedida pela Prefeitura de Goiânia é toda “murada”, tem galpões cobertos, os cooperados usam equipamentos de proteção individual (EPI) e garantem rendimentos próximos ao salário mínimo.

Nem sempre foi assim. Antes de Lourdes chegar, a cooperativa não tinha a melhor estrutura para os cooperados trabalharem. “As pessoas estavam desmotivadas. Nossa produtividade era baixa e o que ganhávamos não dava para nada”, lembra.

Os funcionários receberam do Instituto Coca-Cola Brasil uniformes, luvas e outros materiais que garantem a segurança no trabalho. São itens importantes para que associados não sofram ferimentos ou se contaminem. “Os EPIs são um instrumento de trabalho e diminuem a rotatividade de associados e os afastamentos por causa de doenças”, conta.

O fornecimento de equipamentos é apenas uma das ações do Coletivo Reciclagem, programa do Instituto, que ainda auxilia em toda a gestão da associação e acompanha a evolução dos cooperados na geração de renda e aumento de qualidade vida.

O programa funciona em ciclos de seis meses. Durante cada ciclo, os cooperados recebem capacitação técnica em temas relevantes para o desenvolvimento da cooperativa, assim como instruções para o desenvolvimento de competências sócio-emocionais, como resolução de conflitos e empoderamento feminino.


Visão de futuro

Fundamental nas tomadas de decisão, Lourdes tem visão estratégica. É ela que acompanha a elaboração dos novos projetos, fiscaliza e cobra metas. Foi sua mão firme que garantiu a conquista de uma geladeira, micro-ondas e fogão industrial para a associação.

Além de ser o grande elo da associação, ela é figura central na coleta seletiva em Goiânia. Convidada para participar de palestras, reuniões e comitês, a líder já conseguiu que a incubadora social da Universidade Federal de Goiás ajude na estruturação da associação a médio e longo prazos. Além disso, a prefeitura e outras entidades e empresas privadas também auxiliam a presidente. Esse senso de responsabilidade coletiva da gestora é reconhecido por todos. “Ela dá a alma por isso aqui”, revela Antônio Lima, associado da cooperativa que já foi presidente de outra empresa.

Lourdes ainda tem plena consciência da importância de sua “família” para a melhoria do meio ambiente. “Fazemos um serviço que tem que ser feito, mas ninguém tem coragem de encarar. Criamos bem-estar para o meio ambiente. Não é gostoso chegar em casa e vê-la limpa? Somos nós que limpamos o planeta”, afirma, confiante.

Texto produzido por Maker Brands