A aventura, misto de passeio ecológico com imersão no cotidiano dos moradores de uma favela cartão-postal, começa no sopé do Morro Dois Irmãos, na Zona Sul do Rio de Janeiro. É ali, na pracinha principal do Vidigal, colada à Avenida Niemeyer, o ponto de partida para o programa turístico organizado pelo Favela Experience, projeto de empreendedorismo em comunidades. O tour pelo morro, que começa a bordo de um mototáxi local, foi incluído entre os cinco roteiros especiais criados pela campanha Passaporte Verde para os Jogos Olímpicos Rio 2016, numa parceria do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) com o Comitê Rio 2016. O Journey Brasil foi testar esse passeio que atrai tantos turistas em busca de mais do que uma visita ao Corcovado ou à Praia de Copacabana.

Já no começo, quando o visitante sobe na garupa do mototáxi, confirma-se a promessa de um programa bem diferente dos roteiros turísticos em jipes, que se espalharam pelas favelas cariocas nos últimos anos. O mototáxi sobe pela vielas do Vidigal, enquanto a vista do mar azul vai se descortinando entre os telhados das casas.

Poucos minutos depois, alcança-se o ponto mais alto da favela, onde, de fato, começa a caminhada de cerca de uma hora em direção ao pico do Morro Dois Irmãos. À frente dos aventureiros está Edmilson Almeida Morais, o Russo, 44 anos de vida e de Vidigal. Bem-humorado e comunicativo, Russo simboliza a proposta do Passaporte Verde de um turismo sustentável — no sentido mais amplo da palavra.

Proprietário de um lojinha de lanches rápidos no alto do morro, ele acompanhou de perto a transformação da favela depois da chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), em 2011. Com mais segurança, viu o aumento do número de turistas dispostos a subir o Dois Irmãos, enquanto guias de fora começaram a explorar o potencial turístico local. Achou que o Vidigal merecia mais: entrou em um curso de capacitação de guias turísticos, para assim poder contar a história da sua comunidade de forma mais autêntica.

“Como alguém criado subindo e descendo esta trilha, não me sentia representado por um tipo de turismo que apenas leva os visitantes para um passeio de jipe. Eu me capacitei para poder oferecer aos visitantes a chance de fazer um roteiro mais amplo, contando como era esse caminho há 40 anos, mas também desmistificando o medo que muitas vezes ainda se tem da favela”, diz Russo. “Uma das propostas do turismo sustentável é apresentar o cotidiano da comunidade, entrando na casa dos moradores que têm um serviço a oferecer ou visitando projetos artísticos socioeducativos”.

Tudo a ver com a campanha Passaporte Verde, que tem como objetivo central estimular viagens ecologicamente corretas, contribuindo para o desenvolvimento sustentável dos locais visitados. Os turistas recebem dicas para serem mais responsáveis no consumo de serviços e produtos. O projeto, criado pelas Nações Unidas, nasceu em 2008, em diferentes partes do mundo, inclusive no Brasil, onde ganhou uma plataforma especial na internet em 2014, por ocasião da Copa do Mundo FIFA™ de 2014. Agora, com a proximidade dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos no Rio, ele entra em nova fase, com plataforma, aplicativo e muita interação nas redes sociais. Além da atualização das dicas de viagens, cinco roteiros sustentáveis no estado do Rio – entre eles, o do Vidigal – entraram na versão especial do Passaporte Verde para os Jogos, numa parceria que inclui, ainda, capacitação do setor hoteleiro para práticas mais sustentáveis.

“A proposta da plataforma e da campanha de uma forma geral é uma convergência entre a sensibilização dos consumidores e o engajamento dos produtores em busca de um turismo sustentável. Queremos provocar a reflexão do turista em relação ao seu consumo, mas, ao mesmo tempo, fazer com que ele curta a experiência de viajar”, explica Denise Hamú, coordenadora do PNUMA no Brasil.

A caminhada até a parte mais alta dos Dois Irmãos, a 533 metros de altura, é relativamente tranquila, com alguns trechos mais escorregadios, devido à terra seca. Russo fala sobre o reflorestamento do morro, mostra pássaros, recolhe o lixo deixado por outros andarilhos e também ajuda os visitantes nos locais mais íngremes. O mar, a praia de São Conrado e a Rocinha se alternam na paisagem até a chegada ao pico, de onde é possível vislumbrar um cenário exuberante: a orla – do Leblon ao Arpoador –,  a Lagoa Rodrigo de Freitas e o Cristo Redentor.

O roteiro do Passaporte Verde no Vidigal, concebido e operado pelo Favela Experience, pode ser feito em um ou dois dias, dependendo da disposição do grupo. O simpático americano Adam Newman é responsável pela curadoria das atrações que compõem a segunda parte da visita à favela. Ela começa com uma excursão ao Parque Ecológico Sitiê, na parte alta do Vidigal. Trata-se de um espaço com mais de oito mil metros quadrados, com espécies nativas da Mata Atlântica, onde, no passado, havia um lixão, e que hoje é aberto à comunidade.

Depois do passeio no parque, é hora de desbravar a vida cultural do Vidigal. O roteiro, que depende da disponibilidade de artistas e projetos, tem atrações como um show de percussão das Meninas de Sol, grupo formado por quatro moradoras do morro; apresentação de capoeira com meninos e meninas que têm aulas na Associação de Moradores; visita ao hostel de impacto social Favex; e a chance de assistir a um ensaio do Grupo Nós no Morro, que há 30 anos faz um trabalho exemplar de democratização da arte e cultura no Vidigal. Numa tarde no início de julho, por exemplo, cerca de 20 adolescentes ensaiavam a montagem “É proibido brincar”, em plena rua, próxima à sede da companhia.

Na hora em que a fome bate, Adam, do Favela Experience, oferece ao menos duas opções para os turistas. Lá em cima, encarapitada na pedra dos Dois Irmãos, está a casa da  pesquisadora de nutrição Maria das Graças Prazeres Sebatier. Dona de um sorriso largo e muito falante, a moça, mais conhecida como Graça dos Prazeres, faz sua alquimia na frente dos visitantes, misturando sementes germinadas a alimentos crus. Seus sucos verdes e a tapioca vegetariana seduzem até os mais céticos no quesito alimentação natural.

“O Passaporte Verde dá visibilidade às minhas pesquisas, que envolvem cozinha orgânica e detox, por meio da alimentação saudável. Depois, quem tiver interesse pode voltar para um fazer um curso mais detalhado”, diz Graça.

Já na parte mais baixa e urbanizada do morro, é possível dar uma passadinha na Baixo Vidigal Galeria, uma simpática padaria-bistrô-galeria de arte recém-aberta. Além de exposições de arte e de fotografia, são oferecidos lanches, sucos e guloseimas feitas por outros moradores da comunidade, como brownie e alfajor.

Adam Newman chegou ao Brasil em 2011 com o propósito de trabalhar com empreendedorismo. Foi parar em Santa Teresa e ali, apesar dos alertas dos amigos, decidiu se embrenhar pelas ruelas do Morro dos Prazeres, a principal favela do bairro carioca. Caiu de amores pelo jeito acolhedor dos moradores e, a partir daí, não parou mais de bolar projetos para divulgar as belezas muitas vezes escondidas das comunidades do Rio. Hoje, o Favela Experience é um criativo elo entre turistas e favelas, oferecendo desde hospedagem em casa de moradores a circuitos turísticos, como o passeio pelos projetos socioculturais do Vidigal. “Escolhemos o turismo como uma ferramenta de geração de renda e impacto produtivo em comunidades”, sintetiza Adam.

Outros roteiros do Passaporte Verde

Todos os cinco passeios especiais do Passaporte Verde para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio foram testados e aprovados por grupos de voluntários do evento, que também se transformaram em garotos-propaganda dos passeios.

“A proposta era validar os roteiros com quem é a cara dos jogos. Os voluntários tiveram a chance de testar os trajetos, a segurança local e a capacitação dos moradores das comunidades escolhidas. Só entraram na plataforma roteiros que passaram pelo crivo da equipe da Rio 2016”, conta Eduardo Freire, analista de sustentabilidade e coordenador da Campanha Passaporte Verde nos Jogos Rio 2016, explicando que, em geral, as diárias dos passeios especiais vão de R$ 100 a R$ 150, na cidade do Rio, chegando a R$ 250, quando o deslocamento é maior.

Os cinco roteiros do Passaporte Verde para os Jogos 2016 são operados por diferentes agentes turísticos em ação no estado. Veja quais são os outro quatro, além do Vidigal:

Morro dos Cabritos, em Copacabana: A proposta é um turismo de base comunitária, que começa com a subida de uma grande escadaria, no final da Rua Santa Clara. Trata-se do acesso à comunidade, onde há guias locais prontos para receber os turistas. Similar ao roteiro do Dois Irmãos, o objetivo é não só percorrer trilhas que oferecem uma linda vista da cidade – como a Pedra do Maroca –, como também conhecer o dia a dia dos moradores.

Transcarioca: A trilha, que vai do Morro da Urca à Barra de Guaratiba, pode ser feita por partes. A proposta é explorar um trecho da Floresta da Tijuca, em meio à Mata Atlântica, com direito a banhos de cachoeira  e mirantes.

Comunidade do Vale Encantado, no Alto da Boa Vista: Encravada no meio da Mata Atlântica, a pequena comunidade, com cerca de 120 pessoas, tem um projeto exemplar de autossustentabilidade, que inclui, entre outras ações, a transformação de lixo orgânico em gás metano, gerando energia. A cooperativa de agricultura planta somente alimentos orgânicos, que são preparados para o visitante durante o passeio. Um dos pratos é a jacalhoada, similar à bacalhoada, mas com jaca verde no lugar do bacalhau. 

Trilha do Mico-leão-dourado em Silva Jardim, estado do Rio: A cerca de duas horas da capital, a trilha é uma experiência dentro do habitat natural do mico-leão-dourado. O passeio, conduzido por biólogos, acontece dentro da Reserva Biológica de Poço das Antas, onde há cerca de 3,2 mil animais dessa espécie, que há bem pouco tempo estava ameaçada de extinção.

Dez dicas para uma viagem sustentáveis

  1. Mala boa é mala leve.
  2. Escolha roupas que combinem entre si e prefira as que não precisam ser passadas.
  3. Não leve produtos de higiene que possam ser comprados onde você vai, assim é possível gerar renda local.
  4. Voos diretos, quando o orçamento permitir, economizam tempo e reduzem o volume de emissões de carbono. Boa parte das emissões de um avião acontece na decolagem e na aterrissagem.
  5. Depois de carregar o celular ou computador, tire o plug da tomada, senão ele vai continuar consumindo energia.
  6. Em áreas naturais, não deixe vestígios de sua passagem. Traga o lixo de volta.
  7. Peça sorvete na casquinha em vez do copinho.
  8. Adote uma única garrafinha de água e vá abastecendo-a.
  9. Aproveite o transporte coletivo para vivenciar mais uma cidade.
  10. Experimente ficar desconectado durante algumas horas e fazer coisas que não exijam esforços, gastos ou consumo de recursos naturais.

Reportagem produzida pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico