Na pequena comunidade de São Raimundo, no município de Carauari, no Amazonas, Raimundo Cunha de Lima, de 24 anos, aprendeu a lidar com a terra. Com os pais, tirava da terra mandioca, milho, borracha e arroz. O pouco colhido era dividido com os donos dos terrenos. “Isso sempre me incomodou, porque trabalhávamos muito para alimentar pessoas que não tinham nenhum contato com a terra”, recorda.

Apesar de tudo, ele e os 9 irmãos sempre ajudaram o pai e a avó nos seringais. No grupo de jovens da igreja, do qual fazia parte, discutia preservação, formação de líderes, educação ambiental, preconceito de gerações, além do problema das drogas nas comunidades. De tão organizado, o grupo virou referência para a criação de outros grupos em outras dezenas de comunidades, algumas até bem distantes do município de Carauari.

Cunha de Lima liderou o grupo até 2013, quando foi convidado pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS) para participar de um curso técnico de manejo sustentável em unidades de conservação. Com a formatura em 2014, o rapaz começou a capacitar outros jovens para que eles fizessem os mesmos trabalhos em suas comunidades. Além dele, nove jovens concluíram o curso. Isso fez uma grande diferença para São Raimundo. Esses estudantes, por sua vez, reuniram ribeirinhos e repassaram os aprendizados que tiveram. As aulas foram sobre plano de negócio, planejamento de projetos e manejo. “Não é só plantar ou colher. Aprendi que precisamos cuidar da natureza, porque ela é nossa e nos recompensa, se tivermos cuidado com ela”, explica.

Depois do curso, toda a comunidade começou a incluir técnicas mais modernas de adubagem e agricultura orgânica na produção. “Antes, desmatávamos todos os anos na plantação de mandioca. Hoje, só plantamos uma nova área a cada três anos”, exemplifica. Segundo ele, os avanços no método de produção possibilitaram um aumento expressivo na produtividade, chegando a dobrar.

Umas das novidades foi a diversificação de culturas. Além da mandioca, foram plantados na área açaí, cupuaçu e melancia. Cunha de Lima conta que, apesar das famílias terem parado de cortar a seringa, a renda não caiu. “Nossa renda só aumentou com as novas práticas. E deixamos de lado a seringa, que nos fazia adoecer muitas vezes”, afirma.

No início, nem tudo foi fácil. Houve resistência de alguns membros da comunidade, principalmente dos mais velhos, mas isso mudou nos três meses seguintes, quando todos já estavam perguntando qual era, afinal, a melhor maneira de se plantar as espécies.

Liderança nativa

Aos poucos, a liderança de Cunha de Lima passou a ser reconhecida, e ele sentiu-se mais integrado ao lugar. Por isso, buscou aprender mais sobre a floresta. Foi nesse momento que surgiu a oportunidade de representar o Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CSN) em um evento local, onde o jovem fez o primeiro contato com a Coca-Cola. No evento, conheceu a ideia da companhia e concordou em contar seu percurso de liderança e aprendizados no curso realizado pela empresa e em conversas com outras comunidades.

Cunha de Lima foi então convidado a ser um porta-voz de sua região e a continuar com o trabalho de liderança, mas, agora, focado na produção de açaí. Na primeira etapa, precisou entender como funcionava a lógica de planejamento e vendas da produção das frutas pelos ribeirinhos. “Descobri que ninguém sabia quanto vendia e para quem vendia. Os produtores não tinham quase nenhuma noção de rastreabilidade do produto”, conta. A partir daí, o estudante começou a explicar aos trabalhadores a importância dessas informações para o aumento de renda e preservação do meio ambiente. “Passamos a tratar da importância de guardar uma parte da produção para consumo próprio e outra para os animais da região, e, ainda assim, destinar a maior parte para venda. Parece óbvio, mas isso fez com que o açaí que estragava deixasse de apodrecer e virasse renda para a comunidade”, observa.

Sabedoria da mata

Ao mesmo tempo em que Cunha de Lima liderava os jovens e assumia mudanças nos processos dentro das comunidades, a deterioração da cultura local, violência e drogas se tornavam um desafio frequente. Ele conta que em um encontro organizado para discutir a violência, em meados de 2013, dois jovens foram violentados em uma pequena comunidade de 20 famílias. “Aquele foi o pontapé para eu realmente mudar”, lembra.

Depois do episódio, ele entrou para o programa Intercambiando, do Coletivo Floresta, para amadurecer as trocas de informações entre as comunidades. Com isso, teve a oportunidade de viajar à Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, para conhecer cooperativas e ter inspirações para modelos que poderiam ser utilizados pelas comunidades nas temáticas de geração de renda, educação ambiental e inovação para conservação da biodiversidade. “Nosso time mostrou para as pessoas daqui como é importante o associativismo e o cooperativismo. Isso nos deu mais gás para lutar. Voltamos de lá com várias ideias”, conta.

Uma das ideias foi a criação de materiais pedagógicos para promover o conhecimento local e suprir o déficit de livros, já que as escolas não têm bibliotecas. O próprio rapaz é autor de um livro que conta a história da unidade de conservação Médio Juruá, onde mora, no município de Carauari. Depois dele, os outros 17 jovens que também visitaram outras cidades de referência criaram um livro com gírias e termos locais, para valorizar a regionalidade, e outro com receitas feitas somente com ingredientes da região.

Um trabalho de conscientização dos professores para a importância do ensino vinculado à cultura local também foi iniciado nas comunidades. “Muitos ensinavam apenas sobre o elefante e deixavam de falar do boto, por exemplo. Precisamos ensinar as crianças sobre a nossa cultura para que elas sintam-se parte dela”, analisa.

Outra iniciativa, já em fase de implementação, é a criação de pontos turísticos nas comunidades e geração de renda com a preservação. O plano tem como parceiro o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), órgão ambiental do governo federal. No futuro, Cunha de Lima planeja trabalhar questões de reciclagem e capacitação de jovens para jovens e crianças.

Floresta e pessoas de pé

Para o jovem líder, morar em uma reserva e sobreviver dela é muito importante, e os moradores começam a perceber isso. “Passamos a entender a floresta e nossa realidade aqui. Com isso, aumentamos nossa renda, somos mais unidos, as desconfianças de nossos avós e pais com os jovens acabaram e quebramos o clima de conflito entre comunidades”, diz.

Uma nova realidade começou a ser desenhada a partir da substituição da simples coleta para uma produção sustentável. O carinho pelo cultivo do solo voltou a crescer nos corações dos ribeirinhos, e eles aprenderam a medir quanto ganham e produzem. “A relação é justa entre produtores e parceiros. Os comunitários sabem que podem contar conosco e com diversas entidades. Eles não estão mais sozinhos”, afirma. As mudanças que já ocorrem nas comunidades que atende o inspiram a seguir na luta para defender essas populações e a floresta. “É um prazer trabalhar na floresta e perceber que as condições de vida das pessoas eram precárias e, hoje, com o fruto do meu trabalho, são diferentes. Minha maior motivação é o sorriso delas”, emociona-se.

Reportagem produzida por Maker Brands