Quem conversa com José Roberto Silva, empreendedor e líder comunitário da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Rio Negro (RDS Rio Negro), e o ouve falar com os olhos brilhando sobre proteção da floresta nem imagina que ele já foi um madeireiro responsável pela derrubada de 23 mil árvores na Amazônia. Sua mudança de vida é reflexo das transformações que vem ocorrendo nas unidades de conservação do estado nos últimos anos.

“Há sete, oito anos atrás, 80% das pessoas daqui faziam exploração de madeira ilegal. Hoje, se ainda houver, não passa de 10%”, conta Silva. “A gente não sabia que poderia fazer outra coisa. A madeira era o único caminho. A mudança aconteceu muito rápido porque o conhecimento chegou até aqui”, acrescenta.

O grande motor da transformação foi o Programa Bolsa Floresta, que tem como objetivo melhorar a qualidade de vida das comunidades tradicionais que vivem em unidades de conservação, a partir da valorização da floresta em pé. A política pública foi criada pelo Governo do Amazonas e começou a ser implementada em 2008 pela Fundação Amazonas Sustentável (FAS), que conta com mais de 100 parceiros, sendo um dos principais deles a Coca-Cola Brasil.

A iniciativa está estruturada em quatro modalidades: renda, que incentiva a geração de receita a partir de atividades nas próprias comunidades, como manejo florestal sustentável, artesanato, turismo e pesca; social, que investe recursos na melhoria da infraestrutura de educação, saúde, comunicação e transporte; associação, que trabalha o fortalecimento das associações dos moradores, visando a organização da comunidade; e familiar, que paga R$ 50 mensais para cada família moradora da RDS Rio Negro que assumir o compromisso com o desmatamento zero e o desenvolvimento sustentável.

“Estamos trabalhando com o conceito de conservação e desenvolvimento social. As pessoas podem morar e desenvolver atividades produtivas nas suas comunidades, desde que conservem a floresta. Isso só funciona quando você oferece alternativas e estimula um novo olhar sobre a realidade”, explica Valcléia Solidade, coordenadora do Bolsa Floresta.

No total, o programa está presente em mais de 570 comunidades, impactando positivamente a vida de 9.400 famílias, o que representa mais de 40 mil pessoas. Tudo isso acontece dentro de 16 unidades de conservação do estado do Amazonas, e já tem como resultado a redução de 75% do desmatamento da região.

Viver bem em casa

Quem conhece Tumbira, uma das comunidades da RDS Rio Negro, percebe o desenvolvimento a olhos vistos. Desde 2010, devido aos investimentos do programa, a comunidade conta com um Núcleo de Conservação e Sustentabilidade. A infraestrutura é composta por uma escola que vai até o ensino médio, uma casa para os professores e uma base de pesquisa da FAS.

Desde que a escola ficou mais próxima e também foram oferecidos de cursos de capacitação em turismo, gastronomia, artesanato, entre outros, ficou claro que era possível viver na floresta exercendo atividades que vão além da extração madeireira.

“Agora as pessoas vivem aqui trabalhando com artesanato, turismo ou manejo sustentável. Temos escola, água encanada e luz. Conquistamos o direito de viver bem na RDS Rio Negro. Nossos filhos nunca foram para o mato. Os pais abriram negócios, e eles servem a reserva de outra forma. Os jovens estudaram e dão aulas nas nossas escolas, por exemplo”, diz Silva.

Em 2009, apenas 16 famílias viviam no Tumbira. Em sete anos, esse número mais do que dobrou. Hoje são 34 famílias, ou seja, 119 pessoas morando ali. “Gente que tinha ido embora viu a melhoria da região e voltou. Recebemos essas pessoas de braços abertos, mas avisamos que o que eles faziam antes, como caçar, tirar madeira e pescar de forma intensa, não pode mais ser feito. Temos que pensar três gerações para frente”, afirma Roberto Brito de Mendonça, que hoje é o modelo de empreendedorismo da comunidade, comandando a pousada, o banco e também a marcenaria.

O valor de manter a floresta em pé

Silva mudou seu olhar para a floresta, e essa transformação está também refletida na comunidade. “Antes, eu entrava na mata e procurava uma árvore bem grande para cortar. Agora, eu vejo uma árvore e penso: ‘vou mantê-la aí’, comenta Silva, que vê grande vantagem na troca de atitude: “Antigamente, eu vendia e ganhava o dinheiro uma vez só. Hoje, eu levo turistas lá, e, cada vez que alguém vai, eu ganho”, observa Silva.

Izolena Garrido, presidente da associação de moradores do Tumbira, explica que a participação da comunidade faz toda a diferença. “O investimento do Bolsa Floresta é 50%, a vontade das pessoas representa os outros 50%. A nossa contrapartida é o nosso trabalho no artesanato, na casa de farinha, é não desmatar e cuidar do lixo”, diz.

Cada um desses moradores é um guardião da floresta. “Todo mundo entendeu a necessidade de cuidar da natureza e a responsabilidade que é vivermos aqui”, avalia Silva.

Ao encontrar formas mais sustentáveis de viver na e da floresta, estas comunidades estão prestando um serviço de valor imenso: a conservação da mata, da biodiversidade e consequentemente do recurso mais precioso que temos: a água.

Reportagem produzida por Maker Brands