Tomás de Lara, da ONG Sistema B no Brasil

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Tomás de Lara é um gaúcho de 32 anos que não para de se mexer e gesticular — agitação que reflete uma inquietude permanente e sua vontade de fazer algo novo e diferente. Administrador de empresas, descobriu que sua verdadeira vocação não era ganhar dinheiro, mas sim causar impacto. Suas características o aproximaram da área de inovação social: há alguns anos, abraçou a causa do movimento internacional de empresas B — iniciativa global de pessoas que usam os negócios para a construção de uma nova economia mais inclusiva, diversificada, circular e de baixo carbono que capacita e certifica empresas com melhores práticas socioambientais. Há três anos, esse conceito vem sido desenvolvido na América Latina, com a criação da ONG Sistema B, da qual Tomás é co-líder no Brasil, além de conselheiro do Instituto Coca-Cola Brasil.

Esta semana, o Sistema B lançou sua iniciativa carioca: o Rio+B, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio do Rio Resiliente; e com a Ellen MacArthur Foundation, referência mundial em Economia Circular; BMW Foundation e o Banco de Desenvolvimento da América Latina (CAF), entre mais de dez outras organizações. Seu objetivo é engajar a iniciativa privada na agenda de sustentabilidade do Rio por meio dos negócios. O ponto de partida é convidar as empresas da região metropolitana do Rio a avaliarem seus próprios impactos socioambientais.

O Rio+B será dividido em dois níveis de engajamento. No primeiro, a instituição participante responde à Avaliação de Impacto Rio+B e passa a integrar a Rede Rio+B. É uma autoavaliação que consiste em 40 perguntas sobre governança, relação com trabalhadores, comunidade, meio ambiente e modelo de negócio. Todo o processo é gratuito e digital pelo site www.riomaisb.org.br, sigiloso e de rápido preenchimento. Estará disponível para acesso entre setembro e outubro de 2016.

Ao final da avaliação, as empresas podem se candidatar para o Laboratório Rio+B: seis meses de trabalho, com encontros presenciais, para implementação de ações de melhoria de impacto socioambiental. Para participar do Lab Rio+B, a direção da empresa deve assinar um termo de compromisso. O Lab Rio+B será promovido de novembro de 2016 a junho de 2017.

O movimento conta com a adesão da Coca-Cola Brasil. Seu papel será engajar sua cadeia de fornecedores no movimento. Primeiramente, a Coca-Cola Brasil vai engajar os envolvidos nos Jogos Olímpicos Rio 2016, o que já corresponde a cerca de 100 empresas. Depois, junto aos demais parceiros da companhia, vai engajar os fornecedores de sua cadeira de valor, o que eleva muito o potencial de o projeto obter um número significativo de participantes.

Tomás de Lara concedeu uma entrevista à Coca-Cola Brasil e detalha a iniciativa.

Coca-Cola Brasil: o que é o Rio + B?

Tomás de Lara: O Rio + B é uma coalizão de diferentes agentes econômicos da cidade que vão usar a força de seus negócios para causar um impacto positivo na cidade. É um primeiro chamado de consciência para que o setor empresarial do Rio faça uma observação interna e comece a entender as melhorias que podem ser feitas. A partir disso, um pensamento sobre novas oportunidades de negócios, desenvolvimento de produtos e serviços, baseados nesse olhar de impacto socioambiental positivo. Também representa a formação de uma rede de negócios de empresas que estão de fato preocupadas com seu impacto social e ambiental.  É preciso entender que os negócios podem ser utilizados para a melhoria da cidade, que tem diversos desafios sociais e ambientais.

O que será feito na prática para sensibilizar as empresas?

De Lara: No fim de setembro vamos fazer uma convocação à iniciativa privada carioca, que, por sua vez, vai convidar suas redes. A ideia é que as empresas estendam o convite para a autoavaliação a seus parceiros e fornecedores. Esperamos um grupo de 600 a mil empresas para formar a Rio + B.  Depois, convidaremos cerca de 10% a 20% da rede para ter encontros presenciais: serão quatro ao longo do ano até maio de 2017. Esse grupo vai formar o Lab Rio + B. Queremos ter uma rede de empresas que troquem de forma colaborativa as melhores práticas socioambientais. Serão organizados encontros para avaliar como podem, além de aplicar as práticas em suas empresas, cooperar entre si. É o que chamo de visão pré-competitiva, de parcerias que se estabelecem independentemente da competição de mercado. As empresas podem adotar esse comportamento como cultura que vai melhorar a economicidade da cadeia de valor.  É preciso que as empresas se vejam como um agente econômico da cidade. E estamos bem animados: antes mesmo da comunicação do Rio + B, já temos mais de 50 empresas inscritas no movimento. Mudança de mentalidade. Depois do Lab Rio + B, faremos uma segunda avaliação do diagnóstico para ver as melhorias que as empresas da rede tiveram nos últimos seis meses.

As empresas estão preocupadas com impacto socioambiental?  O que mudou nos últimos anos na relação do setor privado com seu entorno?

De Lara: As empresas ainda não estão, em sua maioria, atentas o suficiente para avaliar o seu impacto socioambiental. Nos últimos cinco anos, houve de fato mudança. A sociedade tem falado sobre temas como sustentabilidade, por exemplo. Organizações têm sido criadas com objetivo de implementar negócios como força de transformação positiva. Há vários movimentos nesse sentido, como o Capitalismo Consciente, Empresas B, Yunus Negócios Sociais e Economy for the Common Good, que têm tido destaque na mídia e nas discussões. É um tema relevante. Em países mais desenvolvidos, esse tema já é comum. Consumidores buscam informações sobre produtos, querem saber se a cadeia é justa, o que estão comprando. O consumo consciente não é uma onda, é uma tendência que tende a crescer.

Os governos têm algum papel nessa busca?

De Lara: Outro aspecto importante é que os governos têm aumentado a regulação. Emissão de gás, gestão de resíduos, boas práticas de contratação passaram a ser mais exigidos das empresas. Nos países mais desenvolvidos, a regulamentação é muito maior. O desafio das empresas é como ter lucro com tanta regulamentação, que segue uma tendência histórica e natural de evolução. A Rio + B serve como porta de conscientização e de desenvolvimento de uma visão estratégica de negócio sustentável. Um auxílio para que as empresas possam aprender a ser lucrativas mesmo com as regulações, pois a ideia é que incorporem esses princípios na sua cultura de negócios.

O que faz uma empresa ser bem-sucedida hoje?

De Lara: É preciso redefinir o conceito de sucesso nos negócios. Hoje não é apenas ter lucro e botar o produto no mercado. Mas sim ser consciente de que todos são responsáveis por fazer com que a sociedade e o meio ambiente estejam bem. Um dos objetivos dessa autoavaliação é despertar as empresas, fazer com que sejam responsáveis por melhorias e diminuição do impacto socioambiental. Inclusive mensurando suas práticas e entendendo os pontos em que há oportunidades de economia, busca de redes de parceiros etc. Como disse, consumidores não estão preocupados só com produtos ou serviços, mas com valores que aquela marca tem pelo que ela faz. É sua reputação. É importante que as marcas se vinculem a seus consumidores pela lealdade, pelo impacto positivo que têm na sociedade.

Qual a sua visão da relação das empresas com o cenário carioca?  O que espera da Rio + B?

De Lara: Os Jogos Olímpicos foram um grande motivador do Rio + B. Um evento desse porte sempre incorpora um legado à cidade. Então, por que não deixar um legado positivo por meio dos negócios? A Prefeitura do Rio tem o objetivo de fazer com que essa rede traga impacto positivo para a cidade. Espero que seja criada uma comunidade de empresas que acreditem nos impactos positivos e tornem-se exemplos para outras companhias. É sempre importante lembrar que empresas são organismos vivos feitos de pessoas, seres humanos. São consumidas e movidas por humanos. E, por isso, devem trazer benefícios para a sociedade e a natureza. Hoje não se pode ter uma empresa de sucesso sem medir o seu impacto socioambiental.