Foi por um erro de percurso que a erva-mate ganhou o nome científico, em 1820, de Ilex paraguariensis, dado pelo botânico francês Auguste de Saint-Hilaire. Somente mais tarde ele iria reconhecer que a erva deveria ser chamada de Ilex brasiliensis. Afinal, a planta é nativa do Paraná, e é em terras brasileiras que ela cresce em maior quantidade e melhor qualidade. Justamente nessa região, debaixo dos galhos das araucárias em que os ervais se desenvolveram, em Fernandes Pinheiro, município que fica a 150 quilômetros de Curitiba, Gilmar Rebesco, de 59 anos, descobriu sua paixão pelo cultivo, inspirado pelo amor e trabalho duro do pai, que também tinha a produção da planta como ofício.

Produtor de erva-mate e fornecedor da Leão, Rebesco cuida de cerca de 50 alqueires de produção inteiramente orgânica, auditada e certificada, além de outros 50 alqueires que seguem diretrizes de cultivo e manejo semelhantes às da produção orgânica. Ele compra da indústria de chá as sobras da produção para adubar os ervais, ajuda na fixação de famílias no campo e tem uma fábrica com capacidade produtiva de 20 mil quilos de erva já triturada. “Tenho a erva no sangue”, garante ele, que é um dos grandes entusiastas da erva-mate na cidade de seis mil habitantes. O amor de família pela planta ultrapassou ainda mais uma geração. A filha, a engenheira agrônoma Fernanda Rebesco, de 27 anos, hoje lidera a plantação e a fábrica.

Roda de chimarrão

É fim de tarde em Fernandes Pinheiro e as pessoas se colocam em roda. A água quente apitando é o sinal para que todos se reúnam para tomar chimarrão. O ritual começa com cada um colocando a água na cuia, bebendo e passando a diante em sentido horário. Assim como na produção de erva-mate, as rodas criam laços familiares. Na fábrica de Rebesco, não é diferente. Tudo gira em torno da erva-mate.

Com parte da produção orgânica auditada e certificada, Rebesco e a filha orgulham-se de aproveitar todos os resíduos e até comprar os oriundos da Fábrica da Leão para adubar os ervais. Fernanda explica que ainda não há uma razão científica, mas que essa “borra” do mate comprado da Coca-Cola Brasil ajuda na prevenção de pragas. Além de ajudar na plantação, esse resíduo que é utilizado na plantação, que fica ao lado da fábrica, reduz os níveis de emissão de carbono com o transporte.

Nativa do Paraná, a erva-mate produzida abastece o país inteiro e impulsiona a economia local. A colheita é manual, e as árvores produzem folhas por cerca de 30 anos. Entre os meses de maio a agosto, elas esbanjam folhas e ramos para serem colhidos. Sem uso de defensivos agrícolas, o ecossistema da plantação permanece inalterado. “Temos passarinhos, minhocas e mais uma dezena de animais. Se não fosse a cultura de mate, teríamos apenas soja e milho”, explica Fernanda.

Conscientes de seus papeis na conservação ambiental e social, os dois não medem esforços para melhorar a produção e querem inovar no processo de trituração da folha e talo. Antes, eles tinham um produto final chamado “chileno”, erva triturada com aspecto mais grosso. Agora, testam o formato “chile”, que é mais fino, rentável e pode ser melhor utilizado pela indústria. “Sabemos que fixamos muitas famílias no campo e somos referência para outros produtores da região. Por isso, não podemos parar. Queremos produzir mais e ter um processo de destaque”, orgulha-se Rebesco, que emprega diretamente 16 funcionários na produção e processamento e atua em conjunto com outros 15 produtores da região.

Para os próximos anos, os dois acreditam que os produtores devem ser mais parceiros e investir em mão de obra técnica e especializada e também na rastreabilidade do produto. A família ainda acredita que o preço justo pago pela Coca-Cola Brasil aos produtores fortalece a produção. “O preço é um dos mais altos do mercado, e isso nos motiva”, diz.

Essa harmonia entre o campo e a indústria explica o sucesso de uma produção de 60 toneladas por dia de folha. A fábrica foi montada em 2010 para suprir a demanda da Leão, e a produção da família Rebesco segue diretrizes de cultivo e manejo que possibilitam a exportação para países como Canadá, Estados Unidos e China. Com viveiros próprios de mudas, pai e filha seguem a passos largos na direção de produzir plantas com mais qualidade. “Sabemos a procedência das mudas. Isso incentiva outros produtores, e coloca nosso mate em posição de destaque”, explica ele.

Reportagem produzida por Maker Brands