Antônio Carlos Fonseca nasceu na floresta, em um povoado ribeirinho do interior do Amazonas. Como muitos jovens da região, ele foi para capital, Manaus, estudar e trabalhar. Mas há 16 anos decidiu que era hora de voltar para o interior do Estado. Por que? Com voz calma e firme, ele diz: “porque é preciso melhorar a vida de todos aqui a partir de relações mais justas”.

Em seu terceiro mandato, Antônio é um dos fundadores e presidente da Agrofrut, uma cooperativa que reúne 50 produtores familiares de guaraná, no município de Urucará, a 260 quilômetros de Manaus. Com uma equipe de seis pessoas, a organização impacta 130 famílias. Ela faz não apenas a comercialização do guaraná – que atingiu a marca de 90 toneladas vendidas em 2015 – mas também a capacitação técnica dos trabalhadores, o resgate de tradições agrícolas e incentiva práticas sustentáveis de produção.

O trabalho diário é árduo sob o sol que chega a 40 graus Celsius, mas a presença constante de parceiros como o Instituto de Desenvolvimento Agropecuário e Florestal Sustentável do Estado do Amazonas (IDAM) e a Coca-Cola Brasil tem trazido melhorias significativas.

“Todos trabalhamos com um público comum, que é o agricultor familiar do município. Queremos ver o desenvolvimento dessas famílias e do setor primário. Então faz todo o sentido estarmos juntos nas ações”, pondera José Arimatéia Simões, gerente da unidade do IDAM em Urucará, entidade que oferece assistência técnica aos agricultores.

Nesse cenário, a Coca-Cola Brasil se coloca como uma parceira de longo prazo e não apenas no momento da safra. Além de oferecer a garantia de compra do guaraná produzido, o que dá segurança para as famílias trabalharem, durante os demais meses, a companhia desenvolve um trabalho contínuo e muito próximo à cooperativa.

“Vamos além das relações comerciais e estamos juntos com a cooperativa o ano todo, com ações que incentivam a produtividade e boas práticas agrícolas e socioambientais. Compartilhamos uma agenda de desafios e procuramos sempre criar juntos soluções que vão desde capacitações até a contratação de especialistas agrários”, explica João Carlos dos Santos Jr., especialista da Coca-Cola Brasil em matérias-primas regionais e responsável pela relação com a Agrofrut.

Para Fonseca, da Agrofrut, ter um parceiro, e não um apenas um cliente, faz toda a diferença. “Essa parceria atende uma necessidade conjunta. Nos comprometemos  com a produção e, do outro lado, temos auxílio nas nossas necessidades do dia a dia”, comenta o líder.

Com o fortalecimento da cooperativa e o aumento da renda dos trabalhadores, a comunidade também prospera. Isso pode ser visto no campo e fora dele. No guaranazal, a utilização de equipamentos de proteção individual, a adoção de métodos para controle de insetos e o resgate de práticas tradicionais de cultivo aumentam a produtividade. Na cidade com apenas 17 mil habitantes, as casas começam a ganhar estrutura de alvenaria e as longas distancias que antes eram percorridas a pé agora têm o auxílio de algumas caminhonetes e, principalmente, motos.

Manoel Pedro Paes é também um dos fundadores da Agrofrut e conta sobre o valor do trabalho feito no município. “Embora a gente saiba que ainda tem muito a fazer, gosto de perceber que juntos estamos realizando um trabalho único no Amazonas ao trazer para o centro da nossa atuação o bem-estar do caboclo”, avalia.

Resgate de práticas tradicionais

O fortalecimento das relações locais também faz parte do trabalho. Entre as boas práticas incentivadas pela Agrofrut, IDAM e Coca-Cola Brasil está a retomada do puxirum ou mutirão. A prática, muito comum na região, andava um pouco enfraquecida e com poucos adeptos. Agora, em reuniões comunitárias, os produtores são incentivados a criar grupos de trabalho para realização de atividades ao longo de todo o ano, como a limpeza de áreas.

“Sozinho eu levava mais ou menos um mês para limpar o guaranazal, ou então tinha que contratar e pagar gente para me ajudar. Agora, com o puxirum mais ativo novamente, levo dois dias junto com o pessoal para limpar seis hectares. Cada um traz a sua própria comida, e só tenho o gasto com as máquinas. Depois, vou na propriedade do outro ajudar. Assim é muito mais rápido e melhor para todo mundo”, conta o produtor Arnaldo Macedo da Costa.

Além dos ganhos para o cultivo, há também a troca de experiências entre os produtores que veem na prática o que cada um está fazendo e podem aprimorar suas ações cotidianas.

Homeopatia para plantas

A sabedoria de quem lida com a terra é reconhecida e impulsionada em Urucará. Em 2015, ao enfrentar um problema recorrente na plantação, causado pelo tripes, um inseto que ataca a inflorescência do guaraná, foi encontrada uma solução inovadora. Nada de agroquímicos. Era hora de testar homeopatia para as plantas.

Os produtores observaram que onde havia a presença das formigas taichi, a quantidade de tripes era menor. A partir dessa ideia, em parceria com a Coca-Cola Brasil foi contratada uma empresa especializada, a Homeopatia Brasil, para criação de um preparado homeopático com a “essência da formiga”. Os produtores fizeram uma aplicação da solução nas árvores e, desde então, têm notado uma melhora nos cachos de guaraná, que estão mais vistosos.

Por conta da seca prolongada na região em 2015 e da pequena amostragem do teste, ainda não foi possível medir o real impacto da solução. Mas para quem está todo dia no meio das plantas, a sabedoria tradicional aliada à tecnologia já faz toda a diferença. E em 2016, os testes seguirão sendo feitos.

Produção orgânica

Desde 2007, depois de um trabalho intenso de capacitação e preparação das famílias, sete produtores da Agrofrut conquistaram o selo Orgânico, da Ecocert Brasil. Isso faz com que a cooperativa possa vender sua produção para o exterior. Em 2015, foram exportadas 13 toneladas de guaraná orgânico, embora o mercado tivesse espaço para mais.

“Tinham nos solicitado 18 toneladas, mas por conta da seca não conseguimos chegar a isso. Nossa ideia é investir cada vez mais na produção orgânica, que, além de ser melhor para o meio ambiente, também tem um preço de venda mais alto, aumentando a renda dos cooperados”, explica Fonseca.

Novos frutos

Depois de mais de uma década de trabalho, Fonseca e Paes sabem que ainda têm  muito por fazer. “Precisamos diversificar a produção e já estamos investindo nisso, pensando em cumaru, cupuaçu e até na piscicultura. Nossos parceiros atuais e algumas instituições internacionais estão nos ajudando nesse processo. Queremos também poder oferecer uma loja subsidiada de produtos agrícolas”, ressalta Paes.

“É importante pensar na diversificação dos produtos, pois isso gera uma independência maior para o agricultor, que terá diferentes culturas para comercializar. Além disso, é um fomento à agricultura sustentável, a uma forma mais eficiente de cultivar a terra”, diz Luiz André Soares, gerente de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil.

Para Fonseca, o futuro traz consigo uma a preocupação: a questão da sucessão. Quem serão os próximos a assumir a cooperativa? Como preparar as novas gerações para o trabalho no campo? “Estamos criando momentos para trazer os jovens para perto. Na nossa reunião desse ano, reunimos, além dos produtores, as mulheres e seus filhos. Realizamos uma atividade específica para entender como eles gostariam de se aproximar do nosso trabalho. Surgiram ótimas ideias, mas ainda não temos um caminho definido”, comenta.

Embora esse seja um desafio do meio rural em todo o Brasil e não exista uma solução pronta, ouvir a perspectiva de jovens como João Lavareda de Andrade, filho de um cooperado da Agrofrut, traz um olhar positivo para a questão. “Admiro o trabalho do meu pai, sua força de vontade e sua crença em uma safra melhor, mesmo quando nem tudo dá certo, como aconteceu com a seca do ano passado. Quero ser um grande agricultor um dia”, conta.

Reportagem produzida por Maker Brands