"Hoje vocês estão aqui para recepcionar e servir nossos convidados. Sejam gentis e educados". Essa é a principal orientação recebida por voluntários do Refettorio Gastromotiva logo que chegam à Rua da Lapa 108, na região central do Rio de Janeiro, onde o novo refeitório comunitário funciona. Diariamente, cerca de dez inscritos chegam às 17h no local para servir um jantar nutritivo a dezenas de pessoas em situação de vulnerabilidade social que têm acesso ao projeto por meio de ONGs.

Inspirado nos moldes do Refettorio Ambrosiano, criado pela ONG internacional Food for Soul, do chef italiano Massimo Bottura, o Refettorio Gastromotiva – no Rio, capitaneado pela ONG que dá nome ao local – oferece refeições gratuitas a pessoas de baixa renda e em situação de rua. E, enquanto alunos dos cursos profissionalizantes de auxiliar de cozinha da Gastromotiva cozinham sob comando de chefs famosos, voluntários recepcionam as pessoas, servem e retiram os pratos – e ainda podem experimentar a comida da noite depois do experidente. 

Como a Coca-Cola Brasil é a patrocinadora semente da empreitada, ou seja, a primeira empresa a apostar e investir na iniciativa, funcionários da companhia trataram de vestir o avental e ajudar no serviço. Andrea Mota, diretora de Categorias da Coca-Cola Brasil; Giovana Araújo, gerente de Alianças Estratégicas; e Julia Lucidi, especialista de Estratégia de Categorias foram voluntárias durante os Jogos Olímpicos no dia em que o chef Thomas Troisgros fez hambúrgueres para os convidados da Casa Nem, que atende travestis e transexuais, e de um outro projeto social que auxilia famílias. As três voluntárias da Coca-Cola Brasil chegaram no restaurante às 17h e logo sentiram a agitação de um restaurante: cheiro de comida no ar, correria, um entra e sai danado da cozinha. Após ouvirem as orientações da coordenadora do salão, foram arrumar as mesas ao lado de outros ajudantes, entre eles, uma fã do chef Massimo Bottura e uma vizinha do local, que acompanhou toda a construção do espaço. Às 18h, os fregueses chegaram.

Julia Lucidi, especialista de Estratégia de Categorias

Para Julia Lucidi, especialista de Estratégia de Categorias, o Refettorio Gastromotiva permite que pessoas de distintas partes da cidade troquem olhares e sorrisos

Coca-Cola Brasil

"Havia muitas crianças, e várias nunca tinham provado nhoque ou bife de fígado, as entradas. Elas falaram logo de cara: 'eca!'. Mas, depois que experimentaram, adoraram a comida", lembra Andrea Mota. "Foi demais ver concretizado um projeto que batalhamos para tornar realidade. Pude conhecer alguns dos beneficiados e ver meninos e meninas que têm a mesma idade da minha filha provando alguns alimentos pela primeira vez. Nunca vou esquecer dessa experiência", completa.

O objetivo da ação é não só servir uma refeição quentinha para quem, talvez, nunca tenha entrado em um restaurante, mas também ajudar a melhorar a autoestima de pessoas que enfrentam dificuldades. Muitos clientes nunca foram chamados de "senhor" ou "senhora" ou ficam na dúvida se podem mesmo comer sem pagar na saída.

Mesmo em meio à correria do trabalho de garçonete, Julia Lucidi, que também acompanhou o desenvolvimento do projeto, encontrou no local uma forma de desacelerar e compartilhar momentos de alegria com os colegas e convidados. Afinal, os voluntários têm de deixar os celulares guardados durante todo o serviço. Então o jeito é bater papo e trocar experiências. "É um lugar onde pessoas de distintas partes da cidade têm a oportunidade de cruzar caminhos, trocar olhares e sorrisos, servir e ser servido. No Refettorio todos nós compartilhamos a mesma comida, feita com excelência e carinho, e um espírito positivo que os alunos da Gastromotiva levam", relata Julia.

Giovana Araújo também ficou encantada com a dedicação de todos os envolvidos na ação e com a felicidade dos clientes: "Foi possível sentir na pele o propósito do projeto de oferecer comida e dignidade àqueles que muitas vezes são invisíveis para a sociedade".

Giovana Araújo, gerente de Governo e Alianças Estratégicas

Giovana Araújo, gerente de Governo e Alianças Estratégicas, se encanta com a dedicação dos alunos da Gastromotiva envolvidos no projeto

Coca-Cola Brasil

Como outro pilar do projeto de gastronomia social é o combate ao desperdício, os pratos são feitos a partir de excedentes enviados por empresas de alimentação. Durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, têm sido encaminhados ao restaurante sobras dos ingredientes usados no preparo das refeições da Vila dos Atletas, do Media Center e da força de trabalho da Rio 2016.

A ideia do Refettorio Gastromotiva chegou à Coca-Cola Brasil alguns meses antes da data programada para a sua estreia, 9 de agosto. Mas, mesmo com boa parte dos recursos de patrocínio mobilizados para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016, a companhia decidiu que o projeto era suficientemente importante para ser deixado de lado. Espremeu aqui, cavou daqui e conseguiu os recursos para ser o primeiro patrocinador da ação. "No momento em que o Refettorio Gastromotiva dependia de um primeiro grande parceiro para sair do papel, tivemos o 'sim' da Coca-Cola Brasil. Certamente incentivou e deu confiança aos patrocinadores e apoiadores que chegaram depois", comenta o chef David Hertz, fundador da ONG Gastromotiva e pessoa à frente da iniciativa. "O mais interessante é ter parceiros dos três setores: sociedade civil organizada, púbico e privado. Isso nos mostra que diferentes atores veem na gastronomia social um potencial para mudarmos a realidade e perseguirmos o desperdício zero de alimentos".

Como Hertz explica, o projeto só foi possível graças a uma parceria entre a Coca-Cola Brasil, outras empresas privadas, as ONGs Food For Soul e Gastromotiva e a Prefeitura da Rio de Janeiro, que entrou de cabeça no sonho e fez a concessão de uso do imóvel onde o restaurante funcionará por dez anos. Por isso, o refeitório continuará servindo jantares preparados por alguns dos melhores chefs do mundo durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016 e, após o evento, o local se transformará em um restaurante-escola com o conceito “pague um almoço e deixe um jantar”. A Gastromotiva, que, pela primeira vez em seus dez anos de trabalho terá um espaço só seu para aulas, ainda vai oferecer no galpão workshops sobre alimentação saudável para famílias, merendeiras e gestores de escolas, além de oficinas sobre aproveitamento integral de alimentos.

Superintendente de Patrimônio Imobiliário da Prefeitura do Rio de Janeiro, Fabrício Tanure conta que o bairro da Lapa não foi escolhido à toa para receber a casa. "A Lapa, além de ser numa área central da cidade, congrega diversas facetas do Rio: desde os frequentadores do seu polo cultural até uma população em situação de vulnerabilidade, que é o público-alvo do projeto. E como há muitos escritórios na região, o local atrairá trabalhadores que podem almoçar no refeitório e deixar a contribuição para o jantar", explica Tanure, ressaltando que o restaurante pode ajudar na revitalização do Centro da cidade e atrair outros empreendimentos baseados na economia criativa. "Esperamos que essas dez anos sejam apenas o começo dessa história inspiradora", torce.

Quem se animar para ser um voluntário no Refettorio Gastromotiva pode enviar e-mail para o endereço: voluntarios@gastromotiva.org.