Tive a oportunidade de participar do Coca-Cola Open Up – The Boat Challenge, na última semana de junho. A terceira edição do programa buscou auxiliar startups com iniciativas para impulsionar o desenvolvimento socioambiental na região amazônica. A programação da viagem incluiu dois dias a bordo de um navio incrível, que navegou de Parintins a Manaus, além de atividades na capital amazonense. Ainda pudemos assistir a um dos eventos mais lindos do país, o Festival Folclórico de Parintins, onde todo ano acontece a grande disputa entre os bois Caprichoso e Garantido.

Foram longos dias de muito trabalho e aprendizado. Certamente uma experiência que levarei por toda vida e que me faz acreditar ainda mais que grandes empresas estão mudando a maneira de fazer seus negócios. É possível gerar impactos econômicos, sociais e ambientais tão grandiosos quanto o tamanho da própria companhia. A Coca-Cola Brasil sabe que sozinha não consegue fazer isso, por isso contou com um time de feras – como a ONG Artemisia, que organizou o evento, e outros 16 parceiros – para embarcar nesta jornada.

A grande festa do Norte

Saindo de São Paulo, ficaram evidentes as diferenças de territórios. É possível observar de cima o cerrado devastado pela monocultura, e posso dizer que sobrevoar a região amazônica é uma sensação indescritível. No primeiro dia, todos estavam ansiosos para ver os bois Caprichoso e Garantido. E, de fato, todas as expectativas foram atingidas e superadas. Parintins é uma cidade muito pequena e que vive do encanto do festival. Soubemos que este ano o repasse público para o evento foi reduzido, daí a enorme importância de grandes patrocinadores como a Coca-Cola Brasil e o Bradesco para tornar o espetáculo uma realidade. A agremiação folclórica Boi-Bumbá Caprichoso, que tem o azul como cor característica, apresentou um enredo maravilhoso e um ritual lindo da tribo Yanomami. Foi curioso notar que, enquanto uma torcida inteira se agita e torce, do outro lado, a rival não se move, pois sua empolgação pode dar pontos ao adversário. Estivemos em meio à torcida da agremiação Boi-Bumbá Garantido, que tem o vermelho e o branco como suas cores, e parece ter um carisma enorme. Ajudamos a contagiar a multidão e conquistar os pontos para ela. Valeu a pena, já que o Garantido foi o ganhador do festival este ano!

Os projetos das startups

Durante os dois dias de viagem pelos rios do Amazonas, os empreendedores das 15 startups convidadas para o The Boat Challenge foram ganhando confiança e conhecimento. Ao final do programa, as pequenas empresas estavam transformadas. Foram muitas reuniões sobre formatação do modelo de negócios, aprimoramento de produto, captação de recursos, entre outras aulas. As conversas com mentores também foram bastante produtivas. Os especialistas deram dicas de marketing, comunicação, modelos de receita, validação de produto, processos de venda, refinamento do impacto social e conhecimentos em gestão.

Três projetos foram eleitos pelos próprios empreendedores como os melhores: Unidade de Beneficiamento de Produtos Florestais (UBPF), Minitrat e 100% Amazônia. Os vencedores ganharam a chance de participar do programa de aceleração e acompanhamento da organização sem fins lucrativos Artemisia. Gostei muito deste formato, deu às empresas poder de decisão. Se coubesse aos mentores escolher os melhores projetos, tenho certeza de que teria sido uma decisão muito difícil, já que os negócios eram realmente muito bons. Percebemos que alguns estão em estágios mais avançados de desenvolvimento e maturidade, porém todos têm bastante potencial.

Dois projetos em especial capturaram a minha atenção por trabalharem com o setor de água e saneamento. A Minitrat, uma estação residencial de tratamento de esgoto para reuso da água, é uma solução simples e barata que substitui a fossa séptica com mais eficiência e segurança. Já a Hydros apresentou uma plataforma open source que possibilita o acompanhamento e identificação de vazamentos em redes de distribuição de água tratada, tendo em vista que no Brasil desperdiçamos quase metade de toda água no processo até chegar às torneiras. Também vi algumas iniciativas interessantes no setor de turismo sustentável, como uma plataforma para conectar o viajante às vivências na Amazônia e uma outra com informações sobre transporte hidroviário, único meio de locomoção de inúmeros ribeirinhos. Há ainda startups que fomentam o conceito de “floresta em pé”, desenvolvendo atividades com cacau sustentável, extração de óleo e outros produtos da sociobiodiversidade amazônica. Para entender a dimensão do programa, a Artemisia selecionou os 15 empreendimentos entre quase 200 projetos inscritos!

Mentores aprendizes

Contamos com a colaboração de excelentes profissionais que fizeram parte do time de mentores e convidados. Todos eram muito experientes e oriundos de diversos setores: público, privado, terceiro setor e acadêmico. Entre eles estavam representantes da Vox Capital, Potencia Ventures, Sistema B Brasil, Natura, Rede Globo, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Fundação Telefônica Vivo, Fundação Amazonas Sustentável, Imaflora, Universidade do Estado do Amazonas e outros tantos que fizeram toda diferença, como o pessoal do Impact Hub, Global Shapers e Ellen Macarthur Foundation.

As equipes de Valor Compartilhado da Coca-Cola Brasil e da Artemisia fizeram um trabalho impecável. Tivemos momentos muito marcantes de trocas de conhecimentos. Um deles foi o bate-papo com os mentores e convidados sobre Inovação. Neste encontro, discutimos sobre o tema e suas diversas vertentes e possibilidades. No final da roda de conversa, foi definida uma agenda para futuros encontros e ações. Outro momento muito bacana foi quando nos reunimos, no último dia, para decidir como cada mentor poderia contribuir com aqueles grupos futuramente. Foi muito interessante observar a motivação dos especialistas em ajudar nos negócios emergentes. Alguns, inclusive, mostraram interesse em estabelecer futuras parcerias com as startups.

Adoraria contar em outros tantos parágrafos sobre as conversas que tivemos na proa do navio sob um céu brilhante e estrelado e ainda sobre a tentativa de um karaokê flutuante, as risadas, a cumplicidade e o companheirismo dos quase 70 a bordo. Mas o texto ficaria grande demais! Esse relato terá que ficar para uma próxima oportunidade.

Aline Lazzarotto é coordenadora de Operações do Instituto Coca-Cola Brasil