Como se mede a riqueza de um país, de uma cidade, de uma região? Imediatamente pensa-se em PIB, sigla de Produto Interno Bruto. Essa metodologia, criada na década de 1940 pelo economista britânico Richard Stone, mede o ritmo de produção de riquezas pela economia, mas não nos diz para onde essa riqueza está indo ou está nos levando, nem os custos, para o planeta e para a sociedade, de produzi-la.

Foi com essa preocupação em mente que foi criado o Índice de Progresso Social (IPS), em 2010. O novo conceito agrega ao aspecto econômico indicadores sociais e ambientais, para medir o progresso social, tomando como base os dados de três dimensões: Necessidades Humanas Básicas, Fundamentos de Bem-Estar e Oportunidades. Por meio da Social Progress Imperative (SPI), o índice tem sido implantado em diferentes localidades pelo mundo.

No Brasil, a primeira região a adotá-lo foi a Amazônia. Como o apoio da Coca-Cola Brasil, surgiu o IPS para o município de Carauari, no Amazonas. O CEO da SPI, Michel Green, está no Rio durante os Jogos Olímpicos para falar sobre o IPS na cidade e discutir os resultados globais, que reúnem dados de 133 países. Nesse ranking internacional para o ano de 2016, o Brasil está na 46ª posição, à frente dos países do Brics. Somos bem avaliados, em comparação aos demais países, inclusive mais ricos, em tolerância e inclusão, e o mais grave problema em nosso país, que puxa o índice para baixo, é a segurança. Para elaborar o IPS do Rio, a Social Progress Imperative fez parceria com o Instituto Pereira Passos (IPP), da Prefeitura do Rio, e conta com o apoio da Fundação Avina, da Fundação Roberto Marinho e da Giral Viveiro de Projetos. “Será possível criar uma linguagem comum e uma compreensão comum de quais são, de fato, os problemas da cidade do Rio de Janeiro”, destaca Green.

O que diferencia o IPS de outros indicadores usados para avaliar o estágio de desenvolvimento?

O IPS foi criado não apenas como um exercício acadêmico. Foi criado por pessoas que atuam na prática, e queriam criar uma ferramenta prática para ajudar a sociedade a tomar decisões melhores sobre o uso de seus recursos, com o objetivo de realmente melhorar a vida das pessoas. A ideia é fornecer dados concretos sobre como a sociedade está atuando na distribuição de seu progresso, para ajudá-la a definir onde estão suas maiores necessidades e seus maiores problemas, e também onde estão seus maiores sucessos. Esses sucessos, então, podem ser compartilhados com outras partes do mundo. Ou seja, focamos nos grandes problemas que precisam ser resolvidos, mas também buscamos as soluções, para levá-las a outros lugares.

E o que o IPS diz sobre o Brasil?

O Brasil está indo muito bem. Existe uma discussão, no Brasil e na América Latina, sobre as estratégias de crescimento econômico, e que a região não atingiu os níveis do Leste Asiático, de 6% a 7% ao ano de elevação do PIB. Porém, os resultados do IPS mostram que, ainda que o PIB do Brasil não seja tão elevado, quando comparado aos índices do Leste Asiático, o nível de desenvolvimento social é forte. Isso é um ponto a destacar no Brasil e na América Latina em geral: há um equilíbrio entre o crescimento econômico e o desenvolvimento social. É algo a ser celebrado! A América Latina e o Brasil estão fazendo um bom trabalho no sentido de transformar seus recursos econômicos em progresso social. O Brasil, em particular, apresenta um mix de pontos fortes e fraquezas. O maior problema – e aqui não estamos revelando nenhum dado surpreendente – é a segurança. É um indicador no qual o Brasil tem uma performance fraquíssima. É um problema também na maioria dos países latino-americanos, o que é preocupante. Por outro lado, uma área em que o Brasil está obtendo sucesso refere-se à tolerância e à inclusão. Se olhamos para os resultados do mundo, a tolerância é uma das áreas em que há os maiores conflitos. E é um problema não apenas para os países mais pobres, mas também para os mais ricos, basta olhar o que está acontecendo nos Estados Unidos, na Europa. O Brasil parece estar fazendo a coisa certa. Não é perfeito, mas, comparativamente aos 133 países que compõem o IPS lobal, está evoluindo bem nesse campo, o que é muito, e deve ser compartilhado com outras sociedades.

E na Amazônia? O que os dados do IPS revelaram?

De forma geral, mostram por que a Amazônia é uma das regiões menos desenvolvidas do Brasil, e realmente precisa de recursos e investimentos. Mostram também uma acentuada desigualdade, e é por isso que estamos conversando com líderes locais e com o governo do estado do Pará. Ele está utilizando agora o IPS para direcionar os investimentos sociais do estado. Também trabalhamos com empresas que atuam na região, como a Coca-Cola Brasil e a Natura, para criar o IPS de uma área muito particular, Carauari. E um dos maiores problemas apontados pelos resultados refere-se à água e ao saneamento, assim como à educação. Esse trabalho fez com que as empresas criassem uma série de novas iniciativas, redirecionando seus investimentos sociais na região, de forma a atender as necessidades das comunidades. É realmente emocionante ver como os dados revelados pelo IPS ajudam a mobilizar recursos em direção às principais necessidades das comunidades e contribuem para melhorar, de fato, a vida das pessoas. E é por isso que trabalhamos, porque queremos que a vida das pessoas melhore e, em Carauari, temos a chance de ver os resultados do IPS efetivamente tornando isso realidade. É ótimo!

Entre os 133 países incluídos no IPS global, qual pode ser apontado como o melhor exemplo de equilíbrio entre o crescimento econômico e o desenvolvimento social?

O mais notável é a Costa Rica. O país tem um nível de progresso social melhor que o da Itália, e seu PIB é de mais ou menos um terço do italiano. É o melhor exemplo do mundo de como se transforma o PIB em progresso social.

Que tipo de trabalho vocês estão desenvolvendo lá?

A Costa Rica, como país, tomou para si o IPS e criou um índice para cada uma de suas regiões. Esses índices regionais são usados para desenvolver a estratégia nacional de desenvolvimento social. A Costa Rica também nos ensina que o progresso social deve ser construído ao longo do tempo. A educação primária universal, por exemplo, foi introduzida no país em fins do século XIX. É uma longa série de investimentos, coroada pelo fato de que a Costa Rica realmente prioriza o desenvolvimento humano, faz isso na prática.

Michael Green

Michael Green, CEO Social Progress Imperative

Célio Messias

E sobre o IPS no Rio?

A Social Progress Imperative está aqui para celebrar o trabalho que nossos parceiros locais estão fazendo. É uma realização do Instituto Pereira Passos (IPP), com apoio da Fundação Avina, da Fundação Roberto Marinho e da Giral Viveiro de Projetos. O primeiro passo são os dados; o segundo passo, como esses dados serão usados para conduzir as mudanças necessárias, para melhorar a vida das pessoas.

E o que vamos ver nesses dados?

A desigualdade é forte na cidade. Há áreas com um nível de progresso social altíssimo, e outras com um nível muito baixo. Em alguns casos isso está relacionado ao desenvolvimento econômico, mas essa variável não é tudo. Há áreas da cidade com imensas lacunas no que se refere ao fornecimento de água, saneamento, transporte. Áreas que não são bem servidas em termos de transportes, por exemplo, tornam-se geograficamente marginalizadas. Outra questão refere-se à dificuldade de acesso da juventude negra à educação superior. As 32 regiões administrativas que serão pesquisadas têm suas particularidades e diferentes necessidades. A informação detalhada ajudará a direcionar melhor a ação, vai auxiliar as autoridades municipais, claro, mas também vai ser um instrumento para empresas eONGs a direcionarem suas iniciativas de forma mais eficaz. Será possível criar uma linguagem comum e uma compreensão comum de quais são, de fato, os problemas da cidade do Rio de Janeiro e quais devem ser as prioridades.

Reportagem produzida pela Ecoverde Conteúdo Jornalístico