Aos 16 anos, uma jovem Sebastiana Alves foi com os pais e o marido para Fortaleza, a cerca de 50 quilômetros de sua cidade natal, Pacajus. Nos braços, levava a primeira filha, Camila, de 1 ano. Em 1993, o lixão funcionava como uma alternativa para os que chegavam à capital cearense. Para sustentar a filha e o marido que enfrentava uma tuberculose, Sebastiana, hoje com 37anos, foi à procura de materiais que podiam ser vendidos no lixão de Jangurussu. Lá, deixava a filha bebê em uma espécie de berço de papelão.

O tempo passou e, em 1998, o aterro foi desativado. Alguns catadores conseguiram trabalhar em outros lugares, enquanto outros continuaram nas ruas como carrinheiros. Somente em 2006 foi criada a Associação dos Catadores do Jangurussu (Ascajan) para organizar os trabalhadores. De lá para cá, segundo Sebastiana, houve muita mudança. “Começamos a trabalhar com material reciclável. Não existe mais tanto perigo de corte ou contaminação. Vejo que tudo mudou. Estava muito insatisfeita com minha vida. Hoje, sou realizada com o que faço”, emociona-se.

Em agosto de 2016, a associação irá comemorar dez anos de trabalho dos 70 integrantes que, hoje, trabalham como uma família. Diariamente, cinco caminhões estacionam e descarregam todo o tipo de material reciclável. Mensalmente, o número de resíduos passa das 70 toneladas. Apesar do número alto, 10% de tudo o que chega na associação é orgânico e não vira dinheiro. A venda do material separado acontece a cada dez dias e o lucro é rateado de forma igual entre os associados.

Maria Glacilmara, de 47 anos, e Irassi Teixeria, de 54, fazem a triagem. Desta etapa já saem separados os plásticos, os papéis brancos dos coloridos, as latas de alumínio, caixas longa vida e as garrafas PETs coloridas e transparentes. “Hoje não trabalho mais no lixão, me sinto humana de novo. Reconheço meu valor. Sou uma protetora do meio ambiente”, orgulha-se Irassi. Além da triagem, cerca de 40 associados estão espalhados por outros pontos da cidade de Fortaleza em shoppings, supermercados e empresas parceiras.

Coletivo Reciclagem

Desde 2014 o desenvolvimento e crescimento da Ascajan recebe um impulso extra da Coca-Cola Brasil por meio das ações do Coletivo Reciclagem.

O programa funciona em ciclos de seis meses, que se iniciam com um diagnóstico, feito em colaboração com a própria cooperativa, para mapear suas fortalezas e fraquezas e elaborar um plano de ação com metas mensuráveis. Após a definição do plano, é definida em conjunto a recompensa para o atingimento da meta, que pode ser um equipamento, uma reforma nas instalações ou outros benefícios.

Durante a implementação do plano de ação, os cooperados recebem capacitação técnica em temas relevantes para o desenvolvimento da cooperativa bem como capacitações para o desenvolvimento de competências socioemocionais, como resolução de conflitos e empoderamento feminino. A cada ciclo o processo é repetido e a evolução de cada organização é acompanhada sistematicamente.

Hoje, a associação não mudou só as instalações, mas aperfeiçoou a forma de trabalho. Uma administração mais eficiente foi necessária com a implantação da esteira de triagem. Até o processo de separação e estocagem do material separado precisou ser revisto. “Fomos amadurecendo o processo. Muitos não acreditavam, por exemplo, que a esteira daria certo, mas o Coletivo nos ajudou nessa nova etapa da associação ”, reconhece Sebastiana.

Compartilhar conhecimento para crescer no futuro

“Nossa tendência é crescer. No futuro, quero implantar a coleta seletiva de óleo de cozinha e melhorar a geração de energia nas cooperativas. Muitas vezes, não temos energia suficiente para crescer”, revela. O objetivo de organizar e estruturar a associação rendeu o quinto mandato consecutivo de Dona Sebastiana na Ascajan.

Já Maria Lilian, braço direito de Teresinha, acredita que o futuro depende de mais consciência ambiental. “Somos solidários um com o outro. No lixão, era diferente. Nós éramos concorrentes. Aqui, somos irmãos. Com o trabalho coletivo, temos mais qualidade de vida, e a renda só não é maior pela falta de educação ambiental da sociedade. Fazemos um serviço muito importante para o meio ambiente, e a nossa luta é melhorar a nossa remuneração pelo crescimento do nosso impacto”, finaliza, esperançosa.

Sebastiana concorda com as amigas. “Queremos ser reconhecidas como agentes ambientais. Me sinto privilegiada de ter um trabalho que faz com que eu me sinta útil para o planeta. Sinto que o coletivo faz a força. Meus companheiros contribuem comigo e eu com eles”, completa.

Reportagem produzida por Maker Brands