Os moradores da centenária e pacata Coqueiro, uma comunidade rural em Caucaia, no semiárido cearense, não sofrem com a seca. Eles têm água, só que não é potável. Está duplamente contaminada pela combinação de metais pesados, como ferro e manganês, e material orgânico. Das torneiras do vilarejo, a água sai com alta turbidez e forte odor. Esse é um dos motivos pelos quais a comunidade foi escolhida para receber o projeto piloto do programa Água+ Acesso, lançado nesta terça-feira (21) pela Coca-Cola Brasil e parceiros. A companhia se uniu ao Banco do Nordeste (BNB) na formação de uma aliança para viabilizar, até 2020, iniciativas de acesso à água potável em comunidades urbanas e rurais de baixa renda, sobretudo nas regiões Norte e Nordeste do país.

Com investimento inicial de R$ 20 milhões, a aliança será formada por ONGs, empresas e instituições privadas e públicas, para buscar e testar soluções inovadoras e autossustentáveis. Em Coqueiro, o piloto — ainda em fase de teste — consiste na instalação de um sistema de geração e transferência de ozônio capaz de transformar água imprópria para o consumo em potável. A iniciativa pode ajudar a resolver o problema enfrentado diariamente pelos Ferreiras e os Freitas, duas famílias do pequeno povoado. “Formar uma aliança significa garantir que serão criadas as condições para a iniciativa crescer, trazer mais parceiros, mais investidores, e não depender apenas da Coca-Cola Brasil. A onda que começa agora tem que continuar e se expandir”, empolga-se Rodrigo Brito, gerente de Operações do Instituto Coca-Cola Brasil.

Além do aporte financeiro, o Instituto foi um articulador importante da rede, que, em Coqueiro, conta com outros parceiros essenciais, como a empresa Brasil Ozônio e o Sistema Integrado de Saneamento Rural (Sisar), organização apoiada pela Companhia de Água e Esgoto do Ceará (Cagece), empresa responsável pela gestão de sistemas de abastecimentos comunitários. Entre as atribuições do Sisar está a prestação de assistência técnica, o controle da qualidade da água, o cálculo de tarifas – um valor muito abaixo do cobrado pelas empresas públicas, já que a comunidade divide as despesas de energia elétrica e salário do operador –, a emissão de contas e o repasse de informações para a Cagece.

O Programa Água+ Acesso demandou dois anos de negociações com as principais organizações de acesso a água do país: a Fundação Avina, que atua, desde 2004, em projetos de acesso à água na América Latina, o Instituto Trata Brasil, uma referência nos temas de água e saneamento no país, e a World Transforming Technologies (WTT), uma ONG especializada em inovações tecnológicas. Em abril, ocorrerá uma chamada pública de inovação, em que outros cinco pilotos serão escolhidos para serem implementados ainda este ano.

A escolha do pequeno lugarejo rural na região metropolitana de Fortaleza não foi aleatória. Uma combinação de fatores conspirou a favor da localidade: engajamento da comunidade; a já existência de um processo que trata água, ainda que não a torne apta para o consumo humano; e a presença de um parceiro local, o Sisar — uma organização não governamental sem fins lucrativos, formada por associações comunitárias que representam as populações atendidas, com participação e orientação da Cagece.

Apesar de considerado um direito e um componente fundamental na qualidade de vida da população, o acesso à água tratada ainda é um dos grandes desafios do Brasil no século XXI. Não bastasse isso, Caucaia convive, há seis anos, com uma crise hídrica crônica. A população de Caucaia paga R$ 18 por mês para ter água encanada, mas não a utiliza sequer para tomar banho. Eles têm direito a 10 mil litros de água por mês. Quando consomem acima deste volume, pagam uma cota extra proporcional ao que foi consumido. Para evitar doenças de contaminação hídrica, os mais carentes preferem usar água captada da chuva e, por isso, têm que adicionar hipoclorito de sódio (popularmente conhecido como cloro) para desinfetar a água. O produto é fornecido pelos agentes de saúde do município. Outros usam um poço artesiano, conhecido como chafariz. Aqueles que têm condição financeira — uma parcela ínfima da população — compram de um a três galões de água mensalmente para beber e cozinhar, o que é mais adequado, nestas condições, para o consumo humano, mas pesa no bolso.

A água que abastece o pequeno vilarejo, de apenas uma rua e 104 casas, vem da Lagoa do Cauípe, que é captada, tratada e distribuída pelo Sisar. Dimensionado para outros tempos, quando a população de Coqueiro era bem menor do que a atual, o Sisar não dá mais conta de garantir aos 500 moradores do lugar a segurança hídrica — o que levou a população local a engrossar as estatísticas oficiais dos 12 milhões de brasileiros sem acesso a água tratada.

‘Estamos contando os dias para abrirmos a torneira e vermos sair água limpa’ — Gelton Lima, líder comunitário em Coqueiro

Antes de escolher o ozônio para tratar a água de Coqueiro, a WWT, onde Brito chegou a trabalhar antes de transferir-se para o Instituto Coca-Cola Brasil, avaliou 150 tecnologias de água até chegar à que está sendo implantada na área rural do Ceará. Finalmente, a escolha recaiu sobre a tecnologia desenvolvida pelo empresário paulista Samy Menasce, que passou pela incubadora da Universidade São Paulo (USP), o Centro de Inovação Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), e investiu R$ 2 milhões para chegar ao BRO3 System, o principal produto da Brasil Ozônio. “Usamos uma matéria-prima que não tem custo. Está na natureza e a captamos do próprio ar”, explica Menasce. O produto desenvolvido na Brasil Ozônio está sendo usado em 73 diferentes aplicações, de poço artesiano à água de chuva, passando por açude, água de produção e tratamento de efluentes. “O ozônio é um potente oxidante e tem mil e uma utilidades”, ressalta o empresário.

Com capacidade para purificar e potabilizar cerca de três mil litros de água por hora e eliminar 99,99% de vírus e bactérias, o ozônio é considerado um importante desinfetante e desodorizante, removendo odores da água, sem deixar resíduos. Ele mata bactérias, fungos, germes e vírus e é considerado mais eficiente do que o cloro, químico largamente utilizado no tratamento de água — o gás tem 100 vezes o poder de oxidação do cloro e é 3.000 vezes mais rápido na desinfecção.

A gerente de Saneamento Rural da Cagece, Otaciana Ribeiro Alves, aposta que o Programa Água+ Acesso terá uma “elevada taxa de sucesso” na localidade. “A gestão compartilhada na zona rural é a maneira mais eficiente de se trabalhar a questão da água”, avalia, comentando que, por ser um projeto piloto, ainda não é possível antecipar qual será o valor futuro da tarifa de água. “Mesmo que a conta venha a ficar um pouco mais cara, vai compensar, porque os moradores da comunidade não precisarão mais comprar galões de água”, diz ela.

Os moradores de Coqueiro estão, ao mesmo tempo, animados e ansiosos, como admite a dona de casa Jânia França, mãe de duas filhas. O seu desejo é receber “uma água de qualidade”, mas, segundo Brito, o objetivo do Instituto Coca-Cola Brasil “não é dar uma tecnologia mágica”. A comunidade terá que acompanhar a implantação do projeto piloto avaliando gosto, sabor, saúde e preço, enquanto a WWT vai ficar de olho nos “impactos dessa solução tecnológica na vida dos moradores”, explica Gastan Kremer, da ONG.

O operador do Sisar, Gelton Lima, é um funcionário multitarefa, mesmo sem ter vínculo empregatício com o Sisar — escolhido pela própria comunidade, sua remuneração é definida pelos associados. Cabe a ele tratar a água, registrar mensalmente a leitura dos hidrômetros e distribuir a conta de água. Lima é considerado uma peça-chave neste processo de implantação da nova tecnologia e gestão compartilhada da água, dado que é a interface junto aos moradores — ocupação que herdou do pai, que, assim como ele, era um líder comunitário. Os moradores, que, a princípio, estavam receosos com a nova tecnologia, hoje, querem saber detalhes sobre o projeto. “Estamos contando os dias para abrirmos a torneira e vermos sair água limpa”, conta Lima, animado.

Texto produzido por Ecoverde Conteúdo Jornalístico